Questão 9

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento
e sair com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira,
com o tempo, descobriu que escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser 
noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. 
O menino aprendeu a usar as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o voo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.
*BARROS, Manoel. Exercícios de ser criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999. p. 29.

Observe as alternativas abaixo, verifique se elas se aplicam ao texto de Manuel de Barros, caracterizando-o, e assinale a opção abaixo de acordo com as respostas.

1. No texto literário, importa não o que se diz, mas também o modo como se diz.
2. O texto literário é conotativo, isto é, cria novos significados. Enquanto o texto não literário aspira à denotação, o texto literário, com a função estética, busca a conotação. Por isso, usa largamente os mecanismos da metáfora e da metonímia.
3. O texto literário tem uma função estética, enquanto o texto não literário tem uma função utilitária (informar, convencer, explicar, responder, ordenar, etc.).
4. No uso estético da linguagem, procura-se desautomatizá-la, criar novas relações entre as palavras, estabelecer associações inesperadas e insólitas entre elas, para tornar singular a sua combinatória e, assim, revelar novas maneiras de ver o mundo.
a)
b)
c)
d)
e)
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