Questão 3

Portugália 
Era uma cidade como todas as outras. A gente importante morava no centro e a gente de baixa condição, ou decrépita, morava nos subúrbios. Os meninos entraram por um desses bairros pobres, chamado o bairro do Refugo, e viram grande número de palavras muito velhas, bem corocas, que ficavam tomando sol à porta de seus casebres. 
Umas permaneciam imóveis, de cócoras, como os índios das fitas americanas; outras coçavam-se. 
– Essas coitadas são bananeiras que já deram cacho – explicou Quindim. – Ninguém as usa mais, salvo por fantasia e de longe em longe. Estão morrendo. Os gramáticos classificam essas palavras de ARCAÍSMOS. Arcaico quer dizer coisa velha, caduca. 
– Então, Dona Benta e Tia Nastácia são arcaísmos! – lembrou Emília. 
– Mais respeito com vovó, Emília! Ao menos na cidade da língua tenha compostura – protestou Narizinho. 
O rinoceronte prosseguiu: 
– As coitadas que ficam arcaicas são expulsas do centro da cidade e passam a morar aqui, até que morram e sejam enterradas naquele cemitério, lá no alto do morro. Porque as palavras também nascem, crescem e morrem, como tudo mais. 
Narizinho parou diante duma palavra muito velha, bem coroca, que estava catando pulgas históricas à porta dum casebre. Era a palavra Bofé. 
– Então, como vai a senhora? – perguntou a menina, mirando-a de alto a baixo. 
– Mal, muito mal – respondeu a velha. – No tempo de dantes fui moça das mais faceiras e fiz o papel de ADVÉRBIO. Os homens gostavam de empregar-me sempre que queriam dizer  Em verdade, Francamente. Mas começaram a aparecer uns Advérbios novos, que caíram no gosto das gentes e tomaram o meu lugar. Fui sendo esquecida. Por fim, tocaram-me lá do centro. “Já que está velha e inútil, que fica fazendo aqui?”, disseram-me. “Mude-se para os subúrbios dos Arcaísmos”, e eu tive de mudar-me para cá. 
– Por que não morre duma vez para ir descansar no cemitério? – perguntou Emília com todo o estabanamento. 
– É que, de quando em quando, ainda sirvo aos homens. Existem certos sujeitos que, por esporte, gostam de escrever à moda antiga; e quando um deles se mete a fazer romance histórico, ou conto em estilo do século XV, ainda me chama para figurar nos diálogos, em vez do tal Francamente que tomou o meu lugar. 
– Aqui o nosso Visconde pela-se por coisas antigas – disse a menina. – Conte-lhe toda a sua vida, desde que nasceu. 
O Visconde sentou-se ao lado da palavra Bofé e ferrou na prosa, enquanto Narizinho ia conversar com outra palavra ainda mais coroca. 
– E a senhora, quem é? —–perguntou-lhe. 
– Sou a palavra Ogano.
– Ogano? O que quer dizer isso? 
– Nem queira saber, menina! Sou uma palavra que já perdeu até a memória da vida passada. Apenas me lembro que vim do latim  Hoc Anno, que significa  Este Ano. Entrei nesta cidade quando só havia uns começos de rua; os homens desse tempo usavam-me para dizer Este Ano. Depois fui sendo esquecida, e hoje ninguém se lembra de mim. A Senhora Bofé é mais feliz; os escrevedores de romances históricos ainda a chamam de longe em longe. Mas a mim ninguém, absolutamente ninguém, me chama. Já sou mais que Arcaísmo; sou simplesmente uma palavra morta... 
Narizinho ia dizer-lhe uma frase de consolação quando foi interrompida por um bando de palavras jovens, que vinham fazendo grande barulho. 
– Essas que aí vêm são o oposto dos Arcaísmos – disse Quindim. – São os NEOLOGISMOS, isto é, palavras novíssimas, recém-saídas da fôrma. 
– E moram também nestes subúrbios de velhas? 
– Em matéria de palavras, a muita mocidade é tão defeito como a muita velhice. O Neologismo tem de envelhecer um bocado antes que receba autorização para residir no centro da cidade. Estes cá andam em prova. Se resistirem, se não morrerem de sarampo ou coqueluche e se os homens virem que eles prestam bons serviços, então se igualam a todas as outras palavras da língua e podem morar nos bairros decentes. Enquanto isso, ficam soltos pela cidade, como vagabundos, ora aqui, ora ali. 
( Adaptado de: LOBATO, Monteiro.  Emília no País da Gramática. Disponível em: <http://www.miniweb.com.br/cantinho/infantil/38/Estorias_miniweb/lobato/Emilia_No_Pais_Da_Gramatica.pdf>. )
 
Julgue os itens e assinale a alternativa CORRETA: 
I. A palavra bananeiras é um substantivo simples, comum, concreto e derivado. 
II. No trecho Já que está velha e inútil, que fica fazendo aqui?, temos dois adjetivos ( velha e inútil). 
III. Em Narizinho ia dizer-lhe uma frase de consolação quando foi interrompida por um bando de palavras jovens..., há duas preposições (de e por). 
IV. Os meninos entraram por um desses bairros pobres... apresenta um artigo indefinido e um artigo definido, nessa ordem. 
a)
b)
c)
d)
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