Questão 6

Dá para viver de graça? 
 
Nossa repórter foi conhecer os adeptos do freeganismo, que catam comida no lixo para não participar do mercado de consumo 
Reportagem por: Carol Pires 
 
A primeira quarta-feira de fevereiro anoiteceu gelada, mas Gio Andollo andava pelas calçadas de Nova York sem luvas. Acompanhado de outras cinco pessoas que havia acabado de conhecer, ia abrindo grandes sacolas plásticas pretas depositadas na avenida Broadway, em Manhattan, e mexia no lixo à procura de comida. Recomendam-se luvas para quem revira lixo, ainda mais no inverno. Gio, um americano de 28 anos, branquelo, de óculos e dreadlocks, não usava porque, onde a maioria vê sujeira, ele vê desperdício. 
O grupo se conheceu por meio do Meetup. com, um site de organização de encontros, onde Gio publicara, uma semana antes, um anúncio sobre o primeiro grupo de freegans do norte de Manhattan, a chamada Uptown. Freegan vem de free (grátis, livre) + vegan (quem não consome nenhum derivado de ou testado em animais). Adotando estratégias alternativas de vida, eles tentam evitar participação no sistema econômico capitalista: plantar ou resgatar desperdícios em vez de ir ao mercado, consertar em vez de jogar fora, caminhar ou usar bicicleta em vez de ter carro. Se o freeganismo fosse uma religião, comprar seria o pecado capital. 
Apesar de a excursão por lixeiras ser apelidada de dumpster diving (mergulho no lixo), o grupo não chegava a entrar nos contêineres. Nessa parte de Nova York, os comerciantes deixam as sacolas na calçada. Gio explicou que os sacos deveriam ser deixados tão ou mais organizados que antes de serem desamarrados, e todos cumpriram a indicação. Sair para resgatar comida no lixo é como procurar o que comer em uma floresta: é preciso conhecer por onde anda e saber onde as boas coisas estão. O conhecimento vem com a prática. Gio já sabe quais lojas desperdiçam mais, o que jogam fora e quando. A primeira parada foi a Morton Williams, uma rede de supermercado, onde eles recolheram frutas e verduras. Em seguida, cruzaram a esquina e encontraram uma caixa de papelão aberta com 22 discos de vinil antigos. A maioria era de música clássica e trilhas sonoras de filmes. Fiquei com um Concertos for Horn número 4 do Mozart. 
A Absolute Bagels, na 2788 da Broadway, só vende produtos frescos, e joga fora a cada noite a sobra do dia. O grupo encontrou um saco cheio com nada além de bagels dentro – os mesmos que estavam sendo vendidos a um dólar 15 minutos antes. Nada, porém, os deixou tão animados como uma caixa cheia de donuts encontrada na frente de uma padaria. Uma mulher que pediu para ficar anônima tirou da bolsa um potinho de álcool em gel e distribuiu entre os colegas, que ali mesmo comeram os bolinhos depois de higienizar as mãos. É mais fácil evitar o sistema que recusar uma sobremesa. 
Além de Gio, faziam parte do grupo o amigo com quem divide o apartamento, a mulher do álcool em gel, a estudante Lyz, e José, um equatoriano que veio para Nova York há 15 anos tratar uma doença respiratória e nunca mais voltou. Completava o grupo uma senhora mal vestida, a única que parecia estar ali mais por necessidade que por convicção. Cada um abria um saco e avisava aos demais o que havia encontrado. “Achei a mão direita de uma luva”, diz Gio, “alguém quer? Às vezes é só esperar e eventu
almente você encontra a esquerda. Já aconteceu comigo.” 
A mulher anônima, branca e de olhos azuis, de mais ou menos 30 anos, contou que os avós buscavam comida no lixo durante a Grande Depressão e os pais faziam o mesmo quando viveram a filosofia da liberdade da década de 1960. Para ela, revirar o lixo é uma afirmação política. Tudo que encontra vai para doação ou é colocado em sites de troca e venda, como o Craigslist ou o Freecycle.com. Já encontrou um porquinho com US$ 20 dentro e uma mochila cheia de roupas de marca com as etiquetas ainda afixadas. Com as frutas e verduras, ela prepara lanches e dá para os moradores de rua. Ela não revela o nome porque prefere não colocar a carreira em risco. É mais fácil deixar de ser reconhecida pela boa ação que tentar explicar por que passa as noites abrindo sacolas de lixo. 
O freeganismo empresta ideais do comunismo e anarquismo, tem preocupações ambientalistas e uma pitada de filosofia hedonista. É difícil calcular quantos freegans existem no mundo, porque muitos se organizam em comunidades pequenas, em grupos que não estão na internet. No Meetup.com há 15 grupos de dumpster diving ativos, com 5.207 membros no total. Há outros 12.796 esperando para que um grupo se forme em suas respectivas cidades. 
Entre os freegans há exceções, variações, limitações. Alguns levam a filosofia ao limite e moram em casas invadidas como afirmação de que moradia deveria ser um direito gratuito. Sem ter de pagar aluguel, nem comida, podem deixar de trabalhar e ter o que o freeganismo defende como essencial: tempo para estar com a família e os amigos. Se o freeganismo fosse uma religião, o tempo livre seria a hóstia. 
No mundo inteiro, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação calcula que um terço da comida produzida para consumo humano seja desperdiçada no caminho entre a produção e o consumo. São 1,3 bilhão de toneladas por ano, o suficiente para acabar com a fome no mundo. Nova York é a capital mundial do consumo e, quanto mais consumo, mais desperdício. Números de 2005 mostravam que os Estados Unidos jogam fora 245 toneladas de lixo sólido por dia – 2 quilos por habitante, o dobro da média brasileira. Em Nova York, a média é mais alta: 2,7 quilos. Só 15% são reciclados. 
Nova York tem Wall Street, mas também tem, do outro lado do rio Hudson, a região mais pobre dos Estados Unidos, no Bronx. “Existe uma doença na nossa sociedade, e os sintomas são esses, pobreza, desperdício. O freeganismo é só uma das respostas”, diz Gio, durante um almoço no restaurante onde trabalha das 7h às 14h, lavando pratos, em Inwood, no extremo norte de Manhattan. 
 
Revista Superinteressante, n. 317, abril de 2013, p. 63-67. Adaptado. 
 
(UNIMONTES) “A mulher anônima, branca e de olhos azuis, de mais ou menos 30 anos, contou que os avós buscavam comida no lixo durante a Grande Depressão e os pais faziam o mesmo quando viveram a filosofia da liberdade da década de 1960.” Por meio dessa passagem do texto, pode-se fazer a seguinte análise do ponto de vista da coesão e da coerência textuais: 
a)
b)
c)
d)
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