Texto: Brasil: a República Contestada (Campo)

Brasil: a República Contestada (Campo)

Nos primeiros anos da república brasileira, aconteceram revoltas que buscavam mudanças na realidade do povo que se via, mais uma vez, sufocado pelo interesse das elites dominantes. No campo, diversos grupos organizaram-se para lutar contra os poderes dos coronéis, na busca de melhores condições de vida e justiça social. Esses movimentos geralmente apresentavam caráter religioso e violento. Nesse ínterim, diversas comunidades (ou bandos) foram formadas em torno de líderes, e o governo brasileiro, vendo-se ameaçado por tais movimentos messiânicos (ou banditistas), adotou medidas repressivas e violentas contra essas comunidades.  

 

Canudos

O Nordeste brasileiro, aos fins do século XIX, era marcado por grandes latifúndios, o que acarretava a concentração de grandes extensões de terras nas mãos de poucos indivíduos. A maior parte da população era socialmente excluída, e a situação piorava quando a seca atingia a região, prejudicando ainda mais a vida do sertanejo. Em linhas gerais, a população “comum” estava à mercê da fome, dos abusos dos coronéis e de epidemias. Foi nesse contexto, de fome e injustiças, que surgiu a Comunidade ou o Movimento de Canudos

 

Muitas pessoas buscavam alternativas para escapar desse contexto inóspito, e uma delas era a migração em busca de trabalho e/ou terras cultiváveis. Nos caminhos do sertão deparavam-se, geralmente, com líderes religiosos, que vagavam reunindo fiéis, pregando dogmas diferentes dos instituídos pela Igreja Católica e proclamando uma época (futura) de fartura. Dentre eles (os chamados de santos) se destacou o líder religioso Antônio Vicente Mendes Maciel, que ficou conhecido como Antônio Conselheiro. No ano de 1893, Antônio Conselheiro criou uma comunidade na antiga Fazenda de Canudos, que ficava às margens do rio Vaza-Barris no interior da Bahia. Essa comunidade ficou conhecida como Belo Monte

 

Antônio Conselheiro

 

Em seu início, a comunidade contava com pouco mais de 1.250 habitantes e, em menos de cinco anos de existência, já tinha mais de 25 mil habitantes. Essa população era composta, principalmente, por sertanejos, ex-escravos e pequenos proprietários que doavam seus bens e ingressavam na comunidade. Em Belo Monte, o trabalho era comunitário e as colheitas e a criação de animais eram divididas. Somente os bens pessoais constituíam propriedade privada, como roupas, calçados, móveis etc. Ademais, não havia pagamento de impostos, policiamento, prostituição e nem venda de bebidas alcoólicas. Antônio Conselheiro era considerado pelos peregrinos um missionário de Deus e, desse modo, recebia apoio em suas pregações políticas e religiosas. 

 

Massacre de canudos 

 

O aumento populacional do arraial atraiu os olhares das elites e de fazendeiros locais, que temiam a influência que a comunidade poderia exercer sobre a população da região. Nesse contexto, aconteceram confrontos armados entre as tropas do governo estadual e a população de Belo Monte. Nos primeiros confrontos, as tropas do governo saíram derrotadas, já que a população do arraial conhecia bem o local de batalha. 

 

Nesse ínterim, tropas do governo federal (que também temia as possíveis influências da comunidade) foram enviadas para ajudar as tropas locais. Todavia, o arraial, por conhecer muito bem o terreno de batalha, criou boas estratégias e venceu. Belo Monte passou a ser visto como inimiga da República. Antônio Conselheiro era acusado de ter simpatia pelo imperador Dom Pedro II, condenar a separação entre Igreja e Estado e ser contra o pagamento de impostos. 

 

O Presidente na época, Prudente de Morais, organizou outra expedição militar a Belo Monte e, após três meses de batalha, o governo venceu a população do arraial. Em 5 de outubro de 1897, a população foi dizimada e suas casas foram queimadas.

 

Antônio Conselheiro morreu antes do fim do combate, em 22 de setembro de 1897, devido a ferimentos causados pela explosão de uma granada. 

 

Leitura 

Dez curiosidades sobre a Guerra de Canudos 

1. O cearense Antônio Vicente Mendes Maciel (1830-1897), professor primário, comerciante e advogado, sofreu uma grande decepção que mudou sua vida. Sua mulher, Brasilina, fugiu de casa com outro homem. A partir daí, ele iniciou uma perambulação pelo sertão, reformando igrejas e cemitérios, além de anunciar a salvação de pobres e humildes. Ganhou primeiro o apelido de Antônio dos Mares e, depois, de Antônio Conselheiro. Pelo caminho, arregimentou uma série de seguidores fanáticos e montou um arraial chamado Belo Monte, em Canudos, numa fazenda abandonada do sertão da Bahia. A Igreja Católica não aprovava seu comportamento. 

 

2. Quando a República foi proclamada, Antônio Conselheiro posicionou-se contra a separação entre Estado e Igreja, e desaprovou a criação do casamento civil. Por isso, passou a defender a volta da monarquia. O arraial de Canudos foi, então, considerado uma ameaça à República e um reduto de desordeiros. O governo baiano enviou três expedições entre 1896 e 1897 para acabar com o arraial. Todas foram derrotadas. A primeira tinha 104 homens; a segunda, 550, e a terceira, 1.300. Foi aí que o governo federal entrou em ação. Mandou cinco mil soldados de 17 estados brasileiros e artilharia pesada para o local; Conselheiro morreu em 22 de setembro por razões jamais reveladas. Alguns historiadores dizem que ele teve uma crise de disenteria muito forte, e outros asseguram que sua morte foi causada por complicações decorrentes de um ferimento. O Exército liquidou Canudos no dia 5 de outubro – em um ano, calcula-se que a Guerra de Canudos contabilizou 15 mil mortos. 

 

3. Para acabar com Canudos, o governo usou até um canhão Withworth, de 32 milímetros. Era uma geringonça de 1,7 tonelada, que precisava de 40 bois para ser puxado. Os sertanejos apelidaram o canhão de Matadeira. 

 

4. No dia 6 de outubro, os soldados descobriram o local em que Antônio Conselheiro havia sido enterrado. Tiraram o corpo da cova, fizeram algumas fotos e cortaram sua cabeça. Ela foi levada até Salvador para ser estudada. O crânio ficou guardado na Faculdade de Medicina da Bahia até 1905, quando um incêndio destruiu tudo. 

 

5. O jornalista e engenheiro Euclides da Cunha cobriu a Guerra de Canudos como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo. Ele anunciou a guerra como um massacre. As reportagens deram origem ao seu livro mais famoso, Os sertões, publicado em 1902. 

 

6. O local em que Canudos se instalou foi alagado pelo Açude de Cocorobó em 1969. A atual cidade de Canudos fica a 10 quilômetros de distância da original. 

 

7. O nome do arraial de Canudos surgiu do hábito dos habitantes de fumar cachimbo. Esse cachimbo era feito a partir de uma planta muito comum na região, chamada Canudo. 

 

8. A primeira favela do Brasil teve origem na Guerra de Canudos. Ela foi construída no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, por soldados que haviam lutado contra o grupo de Antonio Conselheiro. O governo havia prometido casas aos soldados vitoriosos, mas, como a promessa demorou a ser cumprida, eles improvisaram suas moradias ao longo do morro. Como lembrava o Morro da Favela, na região de Canudos, o local ganhou esse apelido. Sobre a promessa do governo? Nunca foi cumprida. 

 

9. O livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, sobre o massacre da Guerra de Canudos, inspirou Mario Vargas Llosa a escrever o romance A Guerra do Fim do Mundo, de 1980. 

 

10. O exército federal registrou ter contado 5.200 casebres no arraial devastado de Canudos. 

 

Fonte: <http://guiadoscuriosos.com.br/categorias/2663/1/ guerra-de-canudos.html>. Acesso em: 10 jul. 2013. 

 

Contestado 

Contestado era uma área disputada pelos governos do Paraná e de Santa Catarina. Na região, havia fazendeiros que exploravam a população local, que se dedicava ao trabalho nas colheitas de produtos das florestas de pinheiros e na plantação de mate. A situação, para esses trabalhadores, se agravou quando duas empresas norte-americanas ganharam, em 1908, a concessão do governo brasileiro para explorar as riquezas locais: a Southern Brazil Lamber and Colonization construiu uma madeireira e tinha direito de ocupar a região, enquanto a Brazil Railway ficou responsável pela construção de uma ferrovia que ligaria São Paulo ao Rio Grande do Sul. Muitas famílias foram expulsas da região, outras foram empregadas na madeireira e na construção da ferrovia. É importante salientar que as condições materiais de existência desses trabalhadores se assemelhavam às dos escravos. 

 

 

Nesse contexto de exploração e revoltas, surgiram líderes religiosos que pregavam, como no Nordeste, melhores condições de vida e justiça social. Em 1911, um desses líderes, que ficou conhecido como monge João Maria, criou a comunidade chamada de Monarquia Celeste, que contava com cerca de dois mil pessoas. A iniciativa foi combatida pelas autoridades locais e, já no primeiro conflito, João Maria foi assassinado, mas a população, por outro lado, manteve a resistência. 

 

Comunidade Monarquia Celeste 

 

O monge José Maria assumiu a liderança da comunidade que, nos anos seguintes, reuniu mais de 20 mil pessoas. A população da Monarquia Celeste tinha governo próprio, com um sistema organizacional comunitário e, desse modo, não obedecia às diretrizes das autoridades oficiais. O governo federal, apoiado por empresários e investidores locais, enviou tropas para combater o grupo e expulsá-lo das terras ocupadas. Assim, em 1912, o monge José Maria morreu em combate, e a população dividiu-se em grupos para fazer resistência às tropas federais, mas, em 1916, os combates chegaram ao fim, pois os membros da comunidade não conseguiram fazer frente aos canhões, armas e aviões das tropas do governo. O saldo da guerra foi catastrófico: mais de 20 mil pessoas morreram durante os combates. 

 

Os Cangaceiros

As nuances do movimento cangaceiro fazem parte da cultura e do imaginário brasileiro, atuantes na região nordestina. Grupos de rebeldes andavam armados pelo sertão, faziam frente às autoridades oficiais e saqueavam fazendas e cidades. Os cangaceiros que se tornaram mais populares foram Manoel Baptista de Morais, conhecido como Antônio Silvino e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

 

Geralmente, a entrada no cangaço por parte dos indivíduos de famílias criadoras de gado ou pequenos agricultores dava-se pela necessidade de vingança, pelo desejo de lavar a honra (vingando-se de afrontas) ou reparar injustiças. 

 

{Antônio Silvino e Lampião} 

Nesse período, o roubo de terras era muito frequente no Nordeste brasileiro e acontecia com extrema violência. Em certos casos, famílias inteiras eram assassinadas pelos capangas de coronéis interessados na terra; em outros, só os mais velhos morriam e, com isso, os sobreviventes desses massacres viam no cangaço a chance de vingar seus pais e/ou irmãos, de terem uma vida diferente (cangaceira) e de pagar na mesma moeda.

 

Os sertanejos, pobres, vítimas da parcialidade da justiça criada pelos próprios potentados locais, comumente encontravam, na possibilidade de fazer justiça com as próprias mãos, o caminho para suas vidas. Saídos da legalidade, os cangaceiros excluíam-se voluntariamente da sociedade.

 

As atitudes vingativas encontram sentido na sociedade, pois o sertanejo comum se identificava com essa personagem do bandido honrado, possuidor de virtudes que simbolizam qualidades heroicas capazes de simbolizar a liberdade. Há visões diferentes sobre o cangaço: alguns consideram os cangaceiros como criminosos, e outros acreditam que eles eram verdadeiros heróis. 

 

 

Saiba Mais 

Sobre a atuação de Lampião no movimento cangaceiro, o filme Lampião, o rei do cangaço, dirigido por Carlos Coimbra (1964) nos apresenta uma perspectiva ímpar.

 

Em Resumo

A chegada da República não respondeu aos anseios da população que desejava melhores condições de vida. Por conseguinte, comunidades rebeldes formaram-se em torno de líderes religiosos e/ou cangaceiros. Esses grupos, que ansiavam melhorias para as parcelas desfavorecidas da população, foram severamente combatidos e, na maioria das vezes, aniquilados pelas tropas do governo.

 

Referências

AURAS, Marli. Guerra do Contestado: a organização da irmandade cabocla. Florianópolis: EDUFSC, 1995.

BIBLIOTECA VIRTUAL MÁRIO SOUTO MAIOR. Disponível em: <http://www.fgf.org.br/bvms>. 

CHANDLER, Billy Jaynes. Lampião: o rei dos cangaceiros. São Paulo: Paz e Terra, 2003.

FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

LEVINE, Robert M.; DANTAS, Monica. O sertão prometido: o massacre de Canudos no Nordeste brasileiro, 1893. São Paulo: USP, 1995.

SOCIEDADE DO CANGAÇO. Disponível em: <http://www.sociedadedocangaco.org.br/>. 

 
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