Texto: A Globalização e o Processo de Mundialização do Capital

A Globalização e o Processo de Mundialização do Capital

A partir dos anos 1970, a sociedade configurada no fim da Segunda Guerra Mundial (1945) iniciou um processo de grandes mudanças. De início, esse processo foi chamado indistintamente de globalização

 

 

O termo globalização passou a ser usado para quase tudo que era novo, sobretudo quando esse novo ainda não era totalmente conhecido. Em geral, o que se destacava com o termo era a maior facilidade de trânsito de pessoas, mercadoria e dinheiro, para qualquer parte do globo. Em geral,  esse processo também era visto como sendo exclusivamente positivo – uma oportunidade de integração jamais vista, onde o encontro de diferentes raças e culturas romperia com os preconceitos, a xenofobia e a imigração ilegal. A globalização trazia consigo a promessa do crescimento da tolerância e do equilíbrio de poder entre as nações. 

 

Apesar de muito bem contada, essa história não se passou exatamente assim. Você, que agora lê esse texto e que também deve ler jornais (impressos ou on-line), sabe bem disso. 

 

 

Recentemente dois barcos com imigrantes africanos em direção à Europa naufragaram na costa da Itália – foram mais de 300 mortos, entre os quais, crianças. Não nos devemos esquecer também dos imigrantes latino-americanos que tentam diariamente cruzar a fronteira do México com os Estados Unidos. Infelizmente, não dá para dizer que eles são recebidos com grande abraço de boas-vindas.

 

Você Sabia?

Na fronteira dos Estados Unidos com o México foi construído, na década de 1990, uma barreira física de aço e concreto, que ficou conhecida como o muro da vergonha, ou o muro do império. Antes de atravessar, os imigrantes sofrem toda sorte de humilhação, sendo obrigados a negociar com a máfia mexicana. Nada garante que as coisas serão mais fáceis do outro lado – para além do muro, um contingente cada vez maior de policiais estadunidenses os esperam. Entre os presos não estão somente mexicanos, mas milhares brasileiros. 

 

Integração Econômica

Então, o que se passou, e ainda se passa, seria tudo mentira?  

 

Para alguns autores, como Paul Hirst e Grahame Thompson, a globalização é um fenômeno muito mais antigo do que o anunciado. Ela acompanha o desenvolvimento capitalista, desde pelo menos as grandes navegações e a descoberta do continente americano. O que ocorre é que a partir dos anos 1960/70,  a  integração da economia mundial tornou-se cada vez mais intensa. 

 

Você provavelmente já notou como num simples rótulo de shampoo aparecem diversas línguas explicando o modo de uso e a composição. Mas, mais que as trocas comerciais, a própria produção de mercadoria está cada vez mais mundialmente integrada.  Partes de um mesmo carro podem ser produzidas em países diferentes. Um tênis de uma empresa norte-americana, como a Nike, pode ser feito na China (e eu estou falando do original!).  

 

As empresas transnacionalizaram-se. Embora a matriz continue no país de origem, existem várias de suas fábrica espalhadas por diversos cantos do mundo. Podemos circular pelas grandes cidades de qualquer país e comer em um McDonald’s, tomando uma Coca-cola.

 

 

Financeirização da Economia

Contudo, os críticos da globalização argumentam que o trânsito de pessoas, mercadorias e indústrias, não é comparável à facilidade com que a circulação do dinheiro ocorre, isto é, nada está mais integrado hoje que o mercado financeiro. Essa seria, de fato, a grande diferença. Foi nesse sentido que alguns autores, sobretudo franceses, como François Chesnay, adotaram o termo mundialização do capital no lugar de globalização.

 

As décadas posteriores a 1970 teriam sofrido uma grande guinada na economia. Se antes a produção industrial de mercadorias era a base da sociedade, a chamada financeirização deslocou a riqueza da sua base real.  E o que isso significa? Resumidamente: fazer dinheiro a partir de dinheiro. 

 

O predomínio do capital financeiro (como títulos e ações) fundou suas bases na especulação. Entre 1980 e 2006, a riqueza financeira cresceu mais de 14 vezes, enquanto o PIB mundial cresceu menos de 5 vezes. Isso quer dizer que parte do capital em circulação é fictício, ou seja, não tem base real.

 

Essa quantia enorme de dinheiro que circula incessantemente pelo mundo, dia e noite, não pode ser convertida. Isso significa que se todo mundo resolver tirar seu dinheiro ao mesmo tempo: boom! A economia quebra. É por isso que os investimentos nas bolsas de valores oscilam tanto; eles contam com as expectativas dos seus agentes e as notícias que correm no mundo.

 

Sensibilidade, Abertura Cultural e Tolerância

A mundialização do capital não significa, necessariamente, uma integração fraterna entre os povos, mas é certo quecondições materiais para uma maior integração não nos faltam: aviões a jato, navios mais velozes e confortáveis, trens de alta velocidade, comunicação por satélites, internet, celulares, etc.

 

 

Apesar de a tecnologia encurtar as distâncias geográficas e reduzir o tempo, muitas culturas e pessoas continuam em conflitos ou, simplesmente, justapostas. Parte dessa exposição ao outro contribuiu, em partes, para a reconstrução de algumas barreiras, justificadas por supostas tradições e identidades étnicas.

 

 

Leitura

A “Sociedade de Risco” Global

Anthony Giddens

 

O aquecimento global, a crise da BSE [Encefalopatia Espongiforme Bovina – a doença da “vaca louca”], a discussão em torno da comida geneticamente modificiada e outros riscos manufaturados colocaram os indivíduos perante novas escolhas e desafios nas suas vidas quotidianas. Em virtude de não haver qualquer guia seguro sobre esses novos perigos, as pessoas, os países e as organizações multinacionais têm de negociar os riscos, tal como fazem suas escolhas quanto à forma como a vida deve ser vivida. Embora não existam respostas definitivas quanto às causas e consequências desses tipos de riscos, cada indivíduo é forçado a tomar decisões acerca dos riscos que está pronto a correr. Essa tarefa pode se revelar extremamente complicada! Devemos rejeitar determinada comida ou matéria-prima se a produção ou consumo implicar em um impacto negativo sobre nossa saúde ou sobre o meio ambiente? Mesmo decisões “simples” acerca do que comer são hoje em dia tomadas num contexto marcado por informações e opiniões contraditórias em relação às qualidades e aos defeitos dos produtos. 

 

Para o sociólogo alemão Ulrich Beck, que escreveu amplamente sobre o risco e a globalização, esses riscos contribuem para a formação de uma sociedade de risco global (1992). Na medida em que as mudanças tecnológicas progridem de forma cada vez mais rápida, produzindo novas formas de risco, somos obrigados a nos ajustar e a responder constantemente a essas mudanças. A sociedade de risco, defende o autor, não se limita apenas aos riscos ambientais e de saúde.Ela inclui uma série de mudanças na vida social contemporânea: transformações nos padrões de emprego, um nível cada vez maior de insegurança laboral, influência decrescente da tradição e dos hábitos enraizados na identidade pessoal, erosão dos padrões familiares tradicionais, e democratização dos relacionamentos pessoais.

 

Fonte: GIDDENS, A. Sociologia. 4ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. p.68-69.

 

Em Resumo 

Nesse tópico discutimos algumas das principais mudanças que ocorreram a partir dos anos 1970. Tais mudanças foram decisivas e impactaram o sistema produtivo e o trabalho, assim como a economia, em geral, e as sociedades como um todo. Discutimos, entre outros pontos: a integração do mercado mundial; a financeirização da economia; o problema da imigração e a generalização dos riscos. Vimos também que muitas dessas mudanças não correspondem às expectativas mais otimistas dos defensores da chamada globalização mundial.

 

Referências

DUMÉNIL, G.; LÉVY, D. O imperialismo na era neoliberal. In: Crítica Marxista, n. 18, 2004.

GIDDENS, A.. Sociologia. 4ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. p.68-69.

HIRST, P.; THOMPSON, G. Globalização em questão. Petrópolis: Vozes, 1998.

MOREIRA, A. da S. (Org). Sociedade global: cultura e religião. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Universidade São Francisco, 1998.

 

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