Texto: O Desenvolvimento da Consciência

O Desenvolvimento da Consciência

 

A Consciência

Provavelmente você já ouviu muitas vezes a palavra consciência. É possível que, ao ter feito algo errado, alguém tenha te chamado a atenção dizendo: Você não tem consciência?; alguém pode, ainda, ter dito a você: Siga sua própria consciência; ou você pode ter escutado a expressão “voz da consciência”. Mas, afinal de contas, o que é consciência? No sentido comum, partilhado pelas pessoas sem muita necessidade de reflexão, parece ser a compreensão de alguma coisa. No sentido moral, pode ser o resultado do senso de bem e mal. E para você, o que é consciência? Perceberemos neste capítulo que uma das características mais importantes do homem é justamente ela. Vamos, pois, por partes. 

 

Talvez nada seja mais humano do que a consciência. Não por acaso, a ciência moderna classifique o homem atual como Homo sapiens sapiens, numa referência direta ao homem que sabe que sabe. Tudo bem, isso pode soar estranho quando você lê a primeira vez. Por isso, vamos entender melhor essa frase: vários animais sabem fazer várias coisas; algumas espécies de gorila, por exemplo, sabem caçar formigas utilizando um graveto; leoas sabem caçar em bando; aranhas sabem tecer com magnífica precisão suas teias. O homem também sabe várias coisas, mas o mais interessante deste ser não é saber fazer algo (o que por si só já seria interessante), mas é a consciência que ele tem de que sabe o que sabe, isto é, ele sabe que sabe fazer certas coisas, tem consciência disso.

 

 

Outros animais, quando precisam utilizar uma de suas habilidades, simplesmente agem de acordo com aquela necessidade. Não fazem um cálculo de quão interessante seria agir daquele ou de outro modo. Já o homem é capaz de ficar imaginando como agir em cada situação. Ele faz previsões, idealiza situações, calcula a melhor estratégia, revê o que fora feito de proveitoso no passado para tentar tirar, dali, alguma informação útil para o desafio presente. No fim das contas, o homem sabe que o saber acumulado e a capacidade de experimentar coisas novas sem se desfazer das antigas lhe dá grande vantagem.  

 

Ao desenvolver a consciência das coisas, ou seja, ao saber que sabe as coisas, o homem abre caminho para tomar consciência de si mesmo. Ele olha para si, toma consciência de sua existência e de seu lugar no mundo e, por meio disso, se difere radicalmente de qualquer outro animal. No lugar do diferente, ele cria a noção de outro; sei, por exemplo, que o outro não sou eu e nem poderia ser. Ele não é apenas diferente de mim e, ao tomar consciência de mim mesmo, eu me reconheço como único, reconheço minhas ações no mundo. Com o outro, chamado assim por causa do processo por meio do qual entendo a alteridade, o homem se relaciona.

 

A Consciência de Si

Devemos sublinhar que o único animal capaz de desenvolver uma consciência de si mesmo é o homem. O ser humano, desse modo, pode se voltar, investigar a si mesmo e, a partir disso, projetar-se para fora de si. Tudo bem, tentemos explicar, então, como funciona a consciência. 

 

Ela pode, por um lado, se dirigir para fora do homem. Basta que você observe uma criança bem pequena. Nos primeiros meses de vida, ela ainda não tem, em tese, consciência de si mesma e nem do mundo que a cerca. Parece que tudo funciona em função dela. O toque no seio da mãe para conseguir alimento ainda não é, para ela, um toque no corpo de outra pessoa. É como se, de alguma maneira, ela estivesse diante de um processo automático, sem necessidade de saber que aquilo ali é um outro. O peito materno e seu próprio braço são, para ela, parte de uma mesma coisa. É curioso perceber que a criança, aos poucos, toma consciência de seu próprio corpo, de seu pezinho, de suas mãozinhas e, ao mesmo tempo, consciência das coisas que não são seu corpo. Essa diferenciação se fará fundamental no seu futuro.

 

Parece evidente que o que não sou eu seja o outro; no entanto, esse processo é, além de complexo, muito sutil. É muito devagar que o ser humano percebe as coisas como coisas e a si mesmo como um “eu”. À medida que consegue identificar objetos, ele também constata formas de classificá-los, de colocá-los em seu mundo. As experiências humanas se tornam cada vez mais ricas e mais sofisticadas, assim como a apreensão do mundo. 

 

Com o tempo, portanto, a criança percebe que os objetos que a cercam não fazem parte dela; são todos exteriores. Aos poucos desenvolve a consciência de que aquelas coisas que ela toca, que ela vê, que ela sente etc. não fazem parte dela; é uma tomada de consciência do mundo externo. Por outro lado, à medida que toma consciência do mundo que a cerca, toma também consciência de si mesma. Desse processo nasce a reflexão, isto é, a capacidade de compreender os processos internos e, a partir deles, conhecer suas próprias capacidades, limitações, desejos, vontades etc. 

 

Quanto mais as duas dimensões se desenvolvem, mais o processo de tomada de consciência do homem se torna completo. É interessante perceber, também, que outros animais, por mais complexos que sejam, não fazem essa distinção entre consciência externa e consciência de si mesmos. 

 

Você já deve ter visto, por exemplo, aqueles vídeos em que o cachorro fica tentando morder o próprio rabo como se fosse algo estranho a ele. Na verdade, para aquele animal, ainda não há a consciência de si mesmo. De fato, o rabo é, para ele, outra coisa qualquer colocada no mundo. O mesmo acontece com os macacos quando olham para um espelho; é como se, de repente, outro macaco aparecesse ali, na sua frente. De maneira alguma eles pensam que são eles mesmos refletidos ali; não pensam porque não tomam consciência de si mesmos. 

 

Goethe, um grande pensador da modernidade, costumava dizer que o homem somente conhece o mundo dentro de si se tomar consciência de si mesmo dentro do mundo. É como se ele estivesse chamando a atenção para o fato de que o processo de tomada de consciência do mundo dependesse de uma relação homem-mundo. É, portanto, nessa relação que o homem se faz homem. Dito em outras palavras: o homem não teria consciência de si mesmo sem a relação com o mundo, a partir da qual pode construir uma consciência do que seja o outro. 

 

Saiba Mais!

Alguns filósofos dividem a consciência em consciência fenomenal, que é a experiência propriamente dita, (o estado de estar ciente); por isso dizemos “estou ciente” e consciente de algo, tal como quando dizemos “estou ciente destas palavras”; e em consciência de acesso, que é o processamento das coisas que vivenciamos durante a experiência.

 

A Definição de Consciência

Já que compreendemos tudo isso, tentaremos apresentar uma definição para consciência. Poderíamos dizer que consciência é uma percepção, por parte do sujeito, daquilo que se passa fora e dentro dele. Aproveitando-nos dessa definição, vamos aprofundar um pouco mais esse assunto. 

 

Para tanto, vamos a uma última e pequena reflexão. Imagine que você, como um náufrago, se perca sozinho numa ilha deserta. Ao seu redor, há somente as coisas da natureza e os destroços do avião no qual você voava e você se vê afastado de todo o resto do mundo, sem possibilidades de estabelecer comunicação com nenhuma outra pessoa. 

 

Numa situação como essa, você estaria lançado num mundo cheio de perigos e possibilidades. Mas, apesar da solidão, perceberia a presença de si próprio nas ações que desejasse fazer. Estranho, né? Mas é isso mesmo. Você conversaria consigo sobre como e de que maneira deveria fazer as coisas. Pensaria, utilizando-se de todo o conhecimento que adquiriu durante a vida, em maneiras de permanecer vivo, apesar da tragédia. Eu sei, não tinha falado nada da tragédia e nem da queda do avião. 

 

O fato é que, mesmo sem uma situação tão dramática, você já se pega, às vezes, falando consigo mesmo em sua mente, escuta seus próprios pensamentos e os utiliza para desvendar os desafios colocados pela realidade que te cerca. Daí a ideia de a consciência ser uma percepção. Você, em vários momentos, se pega percebendo que faz o que faz por algum motivo. Não raramente se pergunta (ainda que interiormente): “Por que estou fazendo isso?”. 

 

 

Agora, suponha que dentre as coisas achadas nos destroços do acidente aéreo, você encontre uma garrafa de bebida... mas não de qualquer bebida: uma bebida alcoólica bastante forte. Imagine, então, que você decida beber durante toda a noite. No dia seguinte, quando acorda nu, deitado de barriga para cima, todo queimado de sol, num ponto da ilha que nem imagina onde seja... você, então, percebe que deve ter feito uma diversidade de coisas sem que tomasse consciência delas. É que, se tiramos a percepção do conceito de consciência, ele perde o sentido. Se, por um lado, consciência é perceber tanto o mundo externo quanto o interno, por outro, inconsciência é o estado em que perdemos essa percepção.  

 

Não por acaso você deve ter vivenciado situações em que as pessoas não tinham total consciência do que faziam. Tudo bem, o exemplo da bebida não é o melhor. Até porque você, inteligente como é, já deve ter percebido que muitas pessoas usam esse artifício para justificar suas faltas. “Ah, fiz isso porque estava bêbado”, como se dissesse: “Fiz isso porque estava inconsciente!”. Mas o exemplo é só para demonstrar que, algumas vezes, é possível agir sem que se tenha uma tomada de consciência. Há casos em que, num momento de fúria, as pessoas fazem coisas que não fariam se tomassem consciência dos resultados daquele ato. Em outras situações, depois de um acidente que lesiona a cabeça, as pessoas perdem a consciência de que elas são elas – dizemos que perderam a memória. Mas será que, ao perderem a memória, perderam toda a consciência de si mesmas? 

 

No lugar de responder essa pergunta, deixaremos que você pense sobre ela. Agora que você compreendeu um pouco do que seja a consciência, seria interessante perguntar a si mesmo: Existem apenas estes dois tipos de consciência – a consciência do outro e a consciência de si mesmo? Ou outros modos de consciência são possíveis? 

 

Em Resumo

Vimos que o processo de tomada de consciência é bastante complexo. Duas dimensões aparecem, então, como evidentes: a consciência de si e a consciência do outro. Na realidade, elas se desenvolvem simultaneamente: quanto mais tenho consciência de mim mesmo, mais tenho consciência do mundo que me cerca e dos outros com os quais me relaciono.   

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