Texto: O Realismo, o Naturalismo e a produção artística do século XIX

O Realismo, o Naturalismo e a produção artística do século XIX

Observaremos agora a influência das manifestações estéticas do Realismo e do Naturalismo na pintura. Iniciaremos por meio de apontamentos referentes à obra de Gustave Coubert, responsável pelo termo realismo. 

 

Coubert: o Amante Sincero da Mais Pura Verdade

Podemos entender o Realismo artístico como uma forma de representação da realidade objetiva, avesso a qualquer influência de preconceitos ou pudor quanto aos temas abordados e à maneira de fazê-lo. As manifestações realistas podem ser visualizadas em diferentes momentos estéticos da história da humanidade, a exemplo da arte elaborada por meio do cinema. Entretanto, o vocábulo realismo encontra-se vinculado ao movimento de rejeição à arte neoclássica e, na sequência, a toda arte romântica.  

 

Como sabemos o movimento iniciou-se na França em 1848, tendo Gustave Coubert como seu principal representante na pintura. O pintor abriu sua exposição num barraco de Paris, em 1855, e intitulou-a de Le réalisme, fazendo do nome de seu vernissage a marca de uma época. Os pintores realistas se diferem daqueles que buscam retratar a realidade como se a obra fosse uma cópia do real, haja vista seus temas abrangerem a problemática do cotidiano citadino, a hipocrisia burguesa em torno do feminino e do erotismo, a vida do operário em todas as nuances, pincelando, simultaneamente, as ideias políticas e sociais discutidas naquele momento.

 

Tela O quebra-pedras, de 1849

 

Num momento em que o desenvolvimento tecnológico resultava na elaboração de novos meios de produção estética, como a máquina fotográfica, os pintores necessitavam aprimorar suas técnicas e procurar motivação para elaborar suas obras. Nesse contexto, Coubert declarou-se opositor do belo romântico, dessacralizando a noção de ideal.  Observe que a tela tira de cena a sociedade burguesa e protagoniza o trabalhador e seus objetos de trabalho. O esnobismo do homem da alta sociedade e sua pretensiosa cultura eram menosprezados quando se toma a vida do homem comum como o verdadeiro modo de viver e ver o mundo. Com isso, sua atitude política valeu-lhe a censura nos círculos da sociedade burguesa parisiense. Em As moças peneirando trigo (1854), vemos outro exemplo de retratação da realidade da sociedade colocada à margem das vantagens advindas do sistema capitalista.

 

Perceba a composição da cena: a posição exagerada das mulheres, a peneira preenchendo o espaço vazio da tela, o menino olhando curiosamente o local onde se guardam os grãos. A cena é típica do cotidiano, montando quase uma fotografia. O exagero “fotografado” da atuação das personagens pode sugerir a representação do trabalho que consome a juventude de muitos jovens. Ao mesmo tempo, podemos perceber a metalinguagem mediante a jovem que seleciona os grãos, absorta. A posição em que a moça se encontra sugere a presença do pintor, a escolher as tintas na palheta. Ao tocarmos nessa questão, notamos que o traço realista se distingue do romântico. Aqui, o desenho da emoção não caracteriza o belo, e sim o desenho da vida diária.

 

Tela As moças peneirando trigo

 

Outra questão interessante e que se desdobrará na obra do pintor corresponde ao nu feminino, ao erotismo, bem como à dessacralização desses conceitos. Podemos pontuar a observação desse acontecimento mediante a tela As banhistas (1853), propulsoras de inúmeros descontentamentos sociais.

Tela As banhistas

Por meio dessa tela, Coubert desmistifica a figura feminina, representada por mulheres do povo, sendo uma nua e donas de corpos considerados fora dos padrões estéticos de beleza. A exposição do corpo feminino, obeso e disforme, provocou o descontentamento social, gerando críticas negativas que viabilizaram o destaque do pintor na cena artística parisiense. Quanto ao erotismo, ele está mais ligado à maneira como Coubert pinta as mulheres do que exatamente a uma sugestão de pornografia em suas telas. Tenciona-se mostrar, de maneira sincera, a verdade do mundo, sem escrúpulos, sem uma moral que a cerceie. 

 

Telas: O carro de feno e Estudo das nuvens

 

 

A Escola de Barbizon

A pintura naturalista foi iniciada por meio da Escola de Babizon, na França. Ela possui esse nome devido a um grupo de pintores franceses que viviam e trabalhavam na aldeia de Babizon e que se dispuseram a retratar a paisagem da aldeia e da floresta de Fontainebleau. Esse foi um movimento estético situado entre a pintura romântica e a impressionista. Convém salientar que a pintura elaborada por esse grupo torna-se relevante, pois defende a pintura da natureza em meio a ela, abandonando o formalismo e o academicismo proposto pelos neoclássicos. A atitude tomada pelos artistas dessa escola foi influenciada pela exposição de John Constable, em 1824, no Salão de Paris:

 

Observe que a cor, a luz e o movimento constroem a cena natural como a protagonista das telas, e não um pano de fundo. Dentre os pintores influenciados por Constable, temos Jean-François Millet, que produziu a tela As espigadeiras.

 

O sentimento dramático das telas românticas não aparece nas de Millet. A cena corresponde ao evento corriqueiro de três mulheres trabalhando em um campo, encontrando-se mais uma vez distantes do referencial de beleza posto pela estética anterior. Não há ideal: o momento representa o movimento lento, pesado e cansativo das mulheres durante o trabalho, concentradas nele. A distribuição das personagens em meio ao campo oferece à tela estabilidade à cena, apresentando, ao momento do trabalho campestre, um sentido solene. A luz do Sol mostra vivacidade a mãos, ombros, nucas, costas e roupas das personagens. Os matizes de ocres e marrons demonstram lirismo e dignidade às figuras humanas. 

 

Uma questão interessante a ser também observada corresponde à utilização mais frequente da pintura a óleo. Essa técnica reflete o momento vivido, uma vez que é uma evidência do enriquecimento da burguesia. O desenvolvimento desse tipo de pintura oferecia a tal arte um caráter dinâmico, representando o poder econômico de uma classe social por meio da arte, tendo se popularizado naquele momento, pois tornou tangível a aquisição de uma obra de arte, algo anteriormente restrito a um grupo capaz de subsidiar a elaboração de mosaicos, têmperas e afrescos. No quesito representação do desenvolvimento econômico e social burguês, a pintura a óleo seria substituída pela consolidação da fotografia como representação artística. 

 

Tela As espigadeiras

 

A Pintura Realista e Naturalista no Brasil

O Brasil também possui seus representantes de tal arte nessa manifestação estética, sendo que dois nomes são relevantes: Almeida Junior e Antonio Parreiras. 

 

Almeida Junior é responsável pela instucionalização das artes plásticas no Brasil, tanto que o dia do artista plástico é comemorado na data de seu nascimento: 8 de maio. De alma caipira, sua obra foi considerada um marco representativo na retratação do homem brasileiro. Uma de suas telas mais conhecidas corresponde ao Caipira picando fumo (1893):

Tela Caipira picando fumo

 

Nessa obra, o pintor revela, incisivamente, seu traço realista. Essa tela colaborou para fomentar a imagem do caipira, possibilitando ácidos comentários de Monteiro Lobato em meados de 1915, que, mediante a figura do Jeca Tatu, discutiu a condição do homem do interior paulistano e criticou o “caboclismo”, entendido pelo escritor como uma revisitação do indianismo romântico. Entretanto, faz-se necessário sublinhar que essa tela correspondeu ao incentivo de um rompimento com os argumentos europeus em prol da elaboração da pintura brasileira, retratada mediante o cotidiano social.

 

Fantasia, 1909

 

Antonio Parreiras valeu-se, em sua obra, de basicamente três temáticas: o paisagismo, as pinturas de cenas históricas e os nus femininos. Quanto a essa última temática, no Brasil ela não foi observada com bons olhos pela nascente classe dominante; entretanto, na Europa, valeu ao artista plástico o destaque. O pintor aparece em um momento de transição da estética realista, e numa instância, marcada pela obra de Coubert, o Realismo é visto como uma estética popular. Em outra, quando vemos artistas semelhantes ao brasileiro, a estética já pode ser entendida como um Realismo burguês, devido às predileções temáticas e à maneira de abordá-las. 

 

Atenção

Certamente você já viu, em alguma ocasião, uma das obras célebres de Auguste Rodin, tais como O beijo ou O pensador. Saiba que elas são esculturas representativas da obra do escultor, bem como da manifestação realista mediante essa estética. Os escultores, da mesma maneira que os pintores, preferiram trabalhar temas contemporâneos, elaborando as cenas como elas são, permeadas de intencionalidade política e significação para o gesto humano. Observe: 

 

 

Você Sabia?

Você sabia que a tão conhecida Torre Eiffel corresponde a uma representação da arquitetura realista? Em 1889, Gustave Eiffel levantou a famosa torre, hoje símbolo de Paris, a cidade-luz. Os arquitetos e engenheiros buscavam responder às necessidades daquele momento em que acontecia uma intensa urbanização em todos os lugares. Os projetos não seriam mais voltados para a construção de palácios, mas sim de fábricas, estações ferroviárias, indústrias, lojas, comércio, escolas, hospitais e habitação para a população que fazia, deveras, a economia girar. O aspecto citadino se transformaria drasticamente a partir de então. Para Gustave Eiffel, o projeto da torre pretendia simbolizar a arte do engenheiro moderno, o século da indústria e da ciência. Tornou-se um ícone, não?

 

 

Saiba Mais!

A música também sofreu a influência da estética realista e naturalista. Os músicos daquele momento começaram a procurar maneiras em que a música exalasse cheiro, visões e cores; exalasse a verdade, portanto. É nesse sentido que Dahlhaus afirma o seguinte: 

 

[...] O realismo musical e nacionalismo estão inextricavelmente associados no século XIX, ao ponto que entonações musicais, as quais sempre são as entonações de uma língua nacional, representam um critério para o estilo realista... a única maneira da música alcançar o realismo é se apropriando da substância musical de uma linguagem, e a ideia que a originalidade de um compositor deva ser baseada no espírito popular, se for para ter alguma substância, são, no século XIX, a era de ambos, realismo e nacionalismo, dois lados da mesma moeda (DAHLHAUS, 1985, p. 101-102).

 

Técnicas eram elaboradas a fim de explorarem o encadeamento dos acordes. Nesse contexto, os seguintes músicos marcaram a história da humanidade: Claude Debussy, Maurice Ravel, Chabrier, Proskofieff, Shostakovitch, Kabalevsky, Khatchaturian, Albéniz, Respighi, Janacek e Stravinsky. A partir de então, visualizamos a paulatina mudança desse cenário, possibilitada pelo espírito popular. Tal mudança culminou no aparecimento de categorias musicais eruditas e populares, e, mesmo que pareça distante de nós, podemos sugerir que este seria o primeiro ensaio de modernização da música universal, a fim de elaborar a indústria da música tal qual a conhecemos hoje. 

 

Leitura

 

vestuário feminino sempre marca o momento histórico. Leia, discuta e compare as atitudes femininas no decorrer do tempo:

 

A crescente prosperidade burguesa reflete-se na maior elaboração das roupas. Como sempre, são os trajes femininos que melhor apontam as mudanças. O peso do grande número de anáguas do período anterior tornou-se insuportável e elas foram substituídas pela crinolina, uma armação de arcos circulares e flexíveis, presa à cintura. Entretanto, um dos princípios da moda parece ser o de que, uma vez aceito o exagero, ele se torna cada vez maior. Assim, no final da década (de 1960), as saias armadas pelas crinolinas eram verdadeiras prodigiosas, ao ponto de tornar impossível que duas mulheres entrassem juntas em uma sala ou sentassem no mesmo sofá [...]. A mulher era um navio majestoso navegado orgulhosamente na frente, enquanto um pequeno escaler – seu acompanhante masculino – navegava atrás (LAVEL, 1993, p. 178-179).

 

Em Resumo

A estética realista e naturalista também atravessava outras representações artísticas, como a pintura, a escultura, a arquitetura, a música e a moda. Independentemente da direção tomada, torna-se evidente o caráter citadino das obras, a busca em retratar o ambiente social e a crítica a respeito dele, denegrindo o ambiente da sociedade burguesa. 

 

Referências

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1983.

DAHLHAUS, Carl. Realism in nineteenth-century music. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.

HAUSER, Arnold. História social da arte e da cultura. Lisboa: Estante, 1964. v. 4.

LAVEL, James. A roupa e a moda. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. 

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 

Já é cadastrado? Faça o Login!