Texto: Estrutura Social e Ação Individual

Estrutura Social e Ação Individual

Muitos campeonatos de futebol já foram decididos nas cobranças de penalidades máximas. É um momento tenso de maneiras diferentes para cada um dos vários agentes envolvidos: para cada cobrador do pênalti, por terem uma obrigação pressuposta de converter a cobrança em gol; para o goleiro que, teoricamente em desvantagem, tenta defender o chute e tornar-se o herói do dia; para os árbitros, que têm de acompanhar tudo e evitar que alguma irregularidade interfira no resultado da disputa; para os torcedores no estádio, que torcem para que seus batedores convertam as cobranças e que ao menos um adversário perca a sua, tendo somente seus gritos coletivos para interferir na disputa; e, enfim, para os torcedores que acompanham a disputa à distância, por intermédio de algum meio de comunicação de massa e não interferem diretamente no resultado, mas podem estar rodeados de outros torcedores, influenciando e sendo influenciados pelas reações dos demais. 

 

Regras Formais e Informais

Teoricamente, todos sabem que as regras da disputa foram construídas para se definir uma equipe vencedora. No entanto, as diversas ações e expectativas implicadas nessa situação produzem uma significação maior do que a simples aplicação mecânica de normas previamente acordadas. Os jogadores não estão simplesmente chutando uma bola em direção ao gol após o apito do juíz. De fato, há outras regras explícitas a reger a conduta de cada um: como o batedor deve agir, o goleiro, os torcedores. Assim, em um campeonato de profissionais é proibida a presença dos torcedores ao lado do gol; o goleiro não pode se adiantar antes do cobrador tocar na bola; este último não pode tocar duas vezes na bola para enganar o goleiro, etc.

 

 

Todos os envolvidos estão a par dessas regras explícitas, mas há outras convenções informais que são igualmente conhecidas. Deste modo, o goleiro pode tentar desconcentrar o cobrador, recebendo-o no local de onde a bola será chutada e lhe falando algo, ou se mexendo antes dele chutar. O cobrador do pênalti tentará se mostrar impassível diante do goleiro e dos gritos da torcida no estádio, podendo mexer o corpo para dar a entender que mandará a bola numa direção e chutar em outra. Os torcedores podem vaiar o cobrador e balançar estandartes no campo de visão dele para tentar provocar seu erro.

 

Sistemas de Regras, Estrutura Social e Expectativas de Ação

Vê-se que as regras explícitas e implícitas atuam conjuntamente para a construção de um sistema, o qual conta comum grau razoável de coerência entre seus elementos constitutivos. É esse sistema que Talcott Parsons chama de estrutura social. Segundo este autor os sistemas sociais dispõem de uma tendência interna ao equilíbrio, sempre buscando encontrar uma situação de relativa estabilidade, ainda que essa condição seja mais uma aspiração do que uma característica própria ao seu funcionamento.

 

 

É com base nesse sistema de normas que os indivíduos pautarão sua ação, tendo em vista a posição que cada qual ocupa na cadeia de acontecimentos. No exemplo da disputa de pênaltis, há algumas poucas posições mais ou menos fixas – cobradores de pênalti, goleiro, árbitros de futebol, torcedores no campo e em casa –, todavia na vida real existem inúmeras possiblidades de posições na vida social, com os indivíduos ocupando simultaneamente mais de uma posição simultaneamente. Assim, a pessoa na posição de empregado assalariado de uma empresa, pode ser casado e ocupar a posição de marido e pai. Se ele torcer para um time, pode assumir a condição de torcedor em alguns momentos de sua semana. Além disso, essa mesma pessoa pode praticar o futebol de modo semiprofissional, em uma equipe que dispute campeonatos durante os finais de semana e neste caso ele também ocupa a posição de jogador. 

 

Status, Papel e Ação

Em sociologia quando se fala de status social se está descrevendo a posição de cada sujeito no interior desse conjunto de relações; por sua vez, o conceito de papel social indica as expectativas de ação de cada indivíduo que ocupa um lugar determinado no interior das relações sociais estabelecidas.O importante a salientar aqui é que esse sistema de normas estabelece as posições de cada agente e cria uma expectativa de ação para cada personagem da trama social.

 

 

Você Sabia?

Às vezes não é fácil para as pessoas se desligarem das posições sociais assumidas, deixando de desempenhar os respectivos papéis. Tal fato se manifesta, em especial, pela existência da síndrome pós-aposentadoria, um distúrbio psicológico associado à perda das atribuições ligadas ao exercício da profissão. Esta síndrome é mais comum nos altos funcionários das empresas, decorrendo menos da diminuição dos salários do que da perda das responsabilidades e poderes ligados às posições de comando das empresas.

 

Voltando ao nosso exemplo, é intrigante que uma situação como uma disputa por pênaltis seja tão tensa.Por que razão as pessoas envolvidas assumem tal postura? Como mencionei acima, uma determinada situação socialmente estruturada constrói uma série de regras que servirão de base para que as pessoas orientem sua conduta. Cada status específico implica a construção de uma expectativa de desempenho de seu papel e as pessoas que ocupam cada posição podem até auxiliar na reinvenção de determinadas práticas, mas em geral elas irão agir em conformidade com o papel socialmente prescrito.

Assim, a cada cobrança realizada, uma série de expectativas é confirmada ou frustrada. O gol convertido resulta na comemoração de uma torcida, desejosa que seu time vença e que com isso poderá se sentir como participante da vitória obtida pelos seus representantes – muitas vezes as custa de brincadeiras e bravatas contra os torcedores da equipe derrotada. Os batedores dos pênaltis almejam converter as cobranças em gol para seremvitoriosos na disputa, o que pode lhes alçar à condição de responsáveis diretos pela conquista. Até mesmo os jogadores que não batem os pênaltis são implicados na situação, pois sairão como vencedores ou derrotados junto com os elencados para cobrar as penalidades máximas e com isso eles se solidarizam com o sucesso ou o fracasso de um colega seu.

 

Cabe salientar que uma mesma pessoa pode ocupar diferentes posições nesse sistema. Numa circunstância ele pode bater o pênalti decisivo de num jogo; em outro momento ele pode ser o jogador que apoia os batedores de sua equipe, noutro ainda ele pode somente ficar na torcida. O importante é que ele saiba reconhecer sua inserção diferencial em cada contexto e consiga agir em conformidade com as expectativas que dele se espera.  

 

 

Saiba Mais!

A Integração Social na Teoria Sociológica Parsoniana

Celso Antonio Favero

 

[Talcott] Parsons concebe a sociedade global ou o sistema humano da ação como a integração de indivíduos e coletividades, por intermédio de seus atos, a um sistema imperativo de valores ou de normas. De acordo com Parsons, e como sustentava Weber, o objeto da sociologia é a ação social operada pelos indivíduos e, subsequentemente, por coletividades.[…]

 

O sistema de ação concebido por Parsons comporta quatro subsistemas, com as suas respectivas funções primárias: o social com a função de integração, o cultural com a função de conservação dos modelos culturais, a personalidade (a política) com a função de realizar fins coletivos e, enfim, o que ele denomina o organismo de comportamento (a economia), com a função primária da adaptação.

 

Dentre esses subsistemas, o de integração é o mais importante do ponto de vista da sociologia, de modo que os demais constituem o ambiente no qual ele se insere. No entanto, o subsistema cultural é o mais vasto (ele faz referência à universalidade), enquanto o subsistema social refere-se à institucionalização e, particularmente, a institucionalização normativa de parcelas do subsistema cultural ou do sistema de valores. […]

 

A comunidade societal repousa, portanto, sobre normas legais, universalistas e generalizadas e, assim, no pertencimento social, expresso através de suas formas civis, políticas e sociais. Essa comunidade emerge, portanto, como um sistema ou como um espaço de integração social fundado em instituições normativas e que se materializa, na modernidade, através das sociedades nacionais. […]

 

No sistema parsoniano da ação social e do sistema social, um lugar central é atribuído ao conceito de normatividade ou de institucionalização. De acordo com Parsons, o cerne de uma sociedade é a ordem normativa, que organiza coletivamente a vida de uma determinada população. Essas normas ou instituições não são fundadas no vazio; elas fazem referência ao subsistema cultural do sistema da ação. Desse modo, a sociedade é constituída, ao mesmo tempo, por um sistema normativo e por estatutos, por direitos e obrigações, podendo variar de um subgrupo da comunidade para outro, que são ligados ao fato de serem membros.

 

Em Resumo

Neste tópico, estudamos o sistema de posições sociais e o desempenho dos papéis sociais que lhe são associados. Foi mostrado como as pessoas não agem livremente, mas pautam suas condutas nesse sistema.

 

Referências 

BOUDON, R.; BESNARD, P.; CHERKAOUI, M.; LÉCUYER, B.-P. Dicionário de sociologia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1990.

FAVERO, C. A. A integração social na teoria sociológica parsoniana. Revista Alamedas – Revista Eletrônica do NDP. Toledo: Unioeste, v. 1, n. 1, jan./jun. 2006.

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