Texto: Inconsciente e Estrutura Social

Inconsciente e Estrutura Social

Antes de Ferdinand Saussure, o principal modelo utilizado para pensar a estrutura social baseava-se nas análises oriundas da biologia, tendo o corpo humano como parâmetro. A obra do linguista suíço mudou esse panorama, fornecendo uma alternativa para se construir a explicação da vida social. 

 

Saussure propõe um modo diferente de visualizar a existência dos sistemas, pois para ele as partes de um todo são formadas a partir das relações mantidas entre essas unidades e o sistema que as associa é instaurado pelo conjunto das relações estabelecidas entre essas unidades.

 

Lembremos alguns pontos da obra de Saussure discutidos no tópico anterior. Segundo esse autor, a especificidade de um fonema somente pode ser atestada com base nas diferenças existentes em relação a outros fonemas. Os signos, por sua vez, formam-se a partir da conjunção de fonemas, tendo seu significado específico construído com base na relação contextual com outros signos. Tais relações não se dão de modo fortuito, mas mediante a aplicação de regras gramaticais precisas, as quais são manejadas inconscientemente.

 

“Relacionamento Conceitos”

 

Palavra = significante + significado

 

Significante - Parte concreta da palavra é constituída de sons e da forma escrita.

Significado - O conceito que é transmitido

 

Vejamos:

 

A cobra picou o homem.

Aquele homem é uma cobra!

 

→ Um mesmo significante pode ter vários significados

 

Claude Lévi-Strauss e Análise Gramatical da Sociedade

Tendo por base o modelo saussureano, o antropólogo Claude Lévi-Strauss estabeleceu um paralelo com a sociedade, criando um método que ficou conhecido como estruturalismo. Lévi-Strauss lembra-nos de que as unidades sociais não se formam de modo independente das relações que as instituem. Ou seja, embora as pessoas de carne e osso existam e participem da sociedade, os fatos relativos à vida social somente ganham consistência quando os indivíduos e grupos interagem entre si, dando a conhecer sua face socialmente construída.

 

 

Para Lévi-Strauss, não existem significados inerentes às unidades sociais. Na verdade, a relação existente entre os grupos institui a significação, a partir de padrões de associação construídos coletivamente, tal como ocorre com os signos linguísticos para Saussure. Desse modo, não seria possível deduzir a significação de uma prática cultural com base em um conteúdo conhecido a partir de outros contextos, pois a cada vez uma relação específica institui o significado.

 

Como exemplo disso, pode-se mencionar a recusa de Lévi-Strauss em atribuir características comportamentais comuns às mulheres. De início, porque em cada grupo social, cada etnia diferente reserva um lugar específico às mulheres. Com isso, em cada contexto estabelece-se um conjunto de laços sociais distintos, indicando os limites e possiblidades de conduta destinados às mulheres. Sendo assim, para identificar o comportamento da mulher brasileira, por exemplo, seria melhor analisar as relações que ela entretém com os homens – crianças, jovens, adultos e idosos – que interagem com ela, em vez de supor características tidas como femininas existentes em outras culturas e contextos sociais. 

 

Caberia ao cientista social descobrir as regras que regeriam a construção das relações sociais e deduzir, a partir daí, as normas que regem o estabelecimento das unidades sociais e de seus significados associados.

 

 

Inconsciente Simbólico e Regras Sociais

Saussure indicou que as pessoas não têm consciência das regras gramaticais utilizadas no momento em que se fala. Segundo ele, esse seria um aspecto inconsciente da linguagem. Alguns anos antes da publicação dessas ideias, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, havia afirmado cientificamente a existência do inconsciente humano. Para esse autor, parte da mente humana teria por característica ser pulsional. Freud chamou esse elemento da mente de id e, segundo ele, essa força somente viria à consciência em algumas circunstâncias. Em geral, nós ignoraríamos seus modos de operação e seríamos impelidos à ação muitas vezes por conta dessa torrente de desejo inconsciente. 

 

 

No entanto, as características do inconsciente humano presentes na obra de Lévi-Strauss são bem diferentes. Seguindo as indicações de Jacques Lacan (1901-1981), Lévi-Strauss reconhece a existência de uma capacidade lógica no cérebro humano, a qual produziria as associações entre múltiplas coisas do mundo. Decorreria desse mecanismo a existência das regras gramaticais responsáveis pela relação dos fonemas em signos e dos signos em frases. Além disso, essa faculdade formal associaria os sons produzidos pelo aparelho fonador e os significados, produzindo os signos linguísticos. Por conseguinte, a articulação dos homens em agregados sociais decorreria da operação desse mecanismo inconsciente.

 

Sociedade como Estrutura de Comunicação

Seria a existência do inconsciente, com as características acima descritas, que permitiria a Lévi-Strauss construir uma abordagem das estruturas sociais. Para esse autor, haveria regras de operação das faculdades inconscientes, as quais poderiam ser constatadas pelos linguistas, pelos psicanalistas, ou mesmo pelos cientistas sociais. A condição comum para as análises empreendidas por tais especialistas seria tomar os atributos humanos que lhe são relacionados como sendo uma espécie de linguagem, com um tipo de gramática operando ao nível inconsciente.

 

Assim, Lévi-Strauss aborda a sociedade como se ela dispusesse de mecanismos similares a uma língua, cabendo ao cientista social interpretar quais seriam as formas simbólicas de produção dos vínculos. O símbolo como estrutura comunicacional tem uma diferença em relação ao signo: enquanto este último tem um referente fixo – a associação dos fonemas [kaza], ou a escrita fonética casa –, o símbolo tem uma relação mais livre entre o significante e o significado por ele denotado. 

 

Assim, o fogo pode ser uma imagem, uma palavra ou a reação físico-química e em todos esses casos a ele se associam os mais diversos atributos: o fogo esquenta e pode significar o acalento nas noites frias; mas também pode ser o elemento da destruição total; ainda, o fogo pode denotar o poder criativo e indomado do espírito humano; ou mesmo a força associada ao renascimento, ao pássaro fênix. Por conta disso, cumpre abordar a especificidade da construção simbólica da mente humana e as relações instauradas a partir dela, o que será feito no próximo tópico.

 

 

Leitura

Arte, linguagem, etnologia: entrevistas com Claude Lévi-Strauss

Claude Lévi-Strauss

 

A linguagem me parece ser o fato cultural por excelência, e isto por vários motivos; inicialmente, porque a linguagem é uma parte da cultura, uma aptidão ou hábito que recebemos da tradição externa; em segundo lugar, porque a linguagem é o instrumento essencial, o meio privilegiado através do qual assimilamos a cultura de nosso grupo… uma criança aprende sua cultura porque falamos com ela: repreendemo-la, exortamo-la, e tudo isso é feito com palavras; enfim, e sobretudo, porque a linguagem é a mais perfeita de todas as manifestações de ordem cultural que formam, de uma maneira ou de outra, sistemas, e, se queremos compreender o que é a arte, a religião, o direito, talvez mesmo a cozinha ou as regras de boas maneiras, é necessário concebê-lo como códigos formados pela articulação de signos, no modelo da linguística.

 

Fonte: CHARBONNIER, Georges; LÉVI-STRAUSS, Claude. Arte, linguagem, etnologia: entrevistas com Claude Lévi-Strauss. Tradução Nícia Adan Bonatti. Campinas: Papirus, 1989, p. 138

 

Em Resumo 

Este tópico apresentou as características gerais da obra de Claude Lévi-Strauss. Houve o esforço de relacionar dois interlocutores de sua obra (Saussure e Lacan), mostrando como a noção de inconsciente simbólico está na base das conexões sociais.

 

Referências

CHARBONNIER, Georges; LÉVI-STRAUSS, Claude. Arte, linguagem, etnologia: entrevistas com Claude Lévi-Strauss. Tradução Nícia Adan Bonatti. Campinas: Papirus, 1989.

LÉPINE, Claude. O inconsciente na antropologia de Lévi-Strauss. São Paulo: Ática, 1974.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. 2. ed.. Tradução Chaim Samuel Katz e Eginardo Pires. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1985.

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