Texto: África: Colonização e Conflitos Étnicos

África: Colonização e Conflitos Étnicos

continente africano é hoje um dos locais onde se concentra grande parte dos problemas sociais do mundo. Fome, doenças e guerras podem ter suas origens explicadas pelos séculos de espoliação desse continente pelas potências estrangeiras, onde, em muitos locais, as populações vivenciam até os dias atuais esses problemas.

 

A colonização da África pode ser dividida em duas épocas distintas: uma anterior às grandes navegações e uma mais recente, inserida no processo de globalização. A primeira remete aos povos antigos da Eurásia, que expandiram seus domínios até as bordas do continente africano, principalmente no Mediterrâneo e Mar Vermelho. A segunda, e que mais nos interessa para desvelar as mazelas do continente, inicia-se na busca pelas rotas de comércio com a Ásia, no século XIV e XV, na qual as potências europeias passaram a estabelecer pontos de paragem para reabastecimento, principalmente Portugal, que dominava a rota do Cabo para as Índias.

 

Vista aérea da Cidade do Cabo, na África do Sul

 

A colonização da África, porém, ganha contornos nefastos quando a expansão do capitalismo industrial no continente europeu no século XIX necessita de matérias-primas baratas para sustentar seus negócios, quando então os olhares voltam-se para as riquezas do continente africano.

 

A Conferência de Berlim

A data mais importante para se pensar na colonização da África no período mais recente é 1885, quando se encerra a Conferência de Berlim. Iniciada no ano anterior, essa reunião das principais potências europeias tinha como objetivo organizar a exploração da África, dividindo entre os países participantes os territórios coloniais que serviriam aos seus interesses comerciais. Essa divisão, no entanto, foi realizada sem respeitar a história e tradição do continente, dividindo povos com a mesma origem e cultura, e unindo em uma mesma colônia povos distintos, muitas vezes inimigos históricos. Esse projeto colonial remete a uma célebre frase política, Dividir para conquistar, que nada mais é do que foi realizado pelos europeus nesse período.

A partilha do continente africano atingiu toda sua extensão tendo como principal agente motivador os interesses das potências participantes da Conferência de Berlim de 1985

    

A relação entre os colonizadores e os nativos africanos, como era de se esperar, nunca fora pacífica. A exploração generalizada, com a retirada de importantes matérias-primas sem o retorno de benefícios ao continente, gerou várias crises e uma crescente tensão ao longo do século XX. De um lado, desenvolvia-se a elite branca, oriunda da metrópole, destinada a ocupar os cargos governamentais na colônia. De outro, os africanos nativos, que eram subjugados pelos europeus.

 

Os fatores que viriam a desencadear as oportunidades de liberdade dos países africanos, entretanto, tiveram suas origens nas próprias metrópoles, quando da eclosão dos conflitos mundiais em solo europeu na primeira metade do século XX. A disputa na Europa deixou em aberto a dominação na África, possibilitando que movimentos internos ganhassem força, principalmente com o apoio de potências europeias rivais de seus colonizadores. Na Primeira Guerra Mundial, as colônias alemãs apenas trocaram de dono, dada a derrota desse país no conflito. Mas, alguns anos depois, o Egito conseguiu declarar sua independência do Império Britânico, em 1922.

 

Kampala, em Uganda

 

A Segunda Guerra Mundial, o maior conflito já visto no planeta, lançou as verdadeiras bases para que movimentos nacionalistas irrompessem no continente. Com a invasão da França pela Alemanha e a difícil situação da Inglaterra nos primeiros anos da guerra, os países africanos que eram dominados por essas potências aproveitaram o momento para se rebelar. Ao fim da guerra, os países europeus tentaram conter esses movimentos, iniciando uma intensa luta contra as guerrilhas em suas colônias, porém, isso só retardaria a queda dos impérios coloniais. 

 

Os movimentos independentistas espalharam-se mesmo para os países que não haviam se envolvido no conflito mundial, como Portugal, que teve de se envolver em vários conflitos nos chamados territórios de ultramar. Outro fator que desencadeou revoltas e guerras contra as potências coloniais na África foi o apoio soviético aos movimentos de libertação, buscando sempre apoiar movimentos com orientação comunista, enviando armamentos avançados para as tropas, que muitas vezes não possuíam sequer uniformes ou treinamento.  

 

França e Portugal foram os países que lutaram com maior vigor na tentativa de conter a libertação de suas colônias, o que gerou protestos de outras nações e também revoltas internas, já que o desgaste político dos governos desses países no envolvimento em conflitos tão impopulares era bastante negativo. A França que já havia sido derrotada na Indochina por forças comunistas, viu-se em uma situação difícil na Argélia, onde o movimento provocava muitas baixas ao exército colonial francês. Essa situação tornou-se insustentável, até que, em 1960, a maior parte dos territórios franceses tornou-se independente, à exceção do Djibuti, pequeno território banhado pelo mar Vermelho e algumas ilhas no oceano Índico.

 

Já Portugal lutou até a metade da década de 1970 contra a insurreição em suas colônias. O governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, de origem fascista, manteve o controle sobre Angola e Moçambique até 1975, quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura portuguesa, pondo fim, também, ao colonialismo português na África. Em parte, a insatisfação que motivou a revolução teve origem no exército português, no qual muitos oficiais estavam insatisfeitos com mais de uma década de combate contra forças africanas.

 

As guerras portuguesas na África tiveram como foco principal Angola e Moçambique, os quais eram apoiados por forças comunistas da URSS e de Cuba, além de outras fontes de recursos. Em Angola, a luta dividia-se entre o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), com apoio soviético, a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), apoiada em parte pelos Estados Unidos, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), com certo apoio Chinês. Esses diferentes movimentos em parte são explicados pela diversidade étnica com que os novos Estados africanos caracterizavam-se. Após o conflito com Portugal e consequente independência, esses três movimentos iniciaram uma luta pelo poder, gerando uma guerra civil que somente foi interrompida no início dos anos 1990.

 

A atual divisão territorial dos países africanos não respeitou a divisão étnica dos nativos do continente

 

A década de 1990 também foi quando se deu a independência das últimas colônias na África, com a libertação da Namíbia e da Eritreia. O primeiro, uma possessão sul-africana, tornou-se independente em 1990. O Brasil tem importância nesse processo, sendo um dos primeiros a reconhecer sua validade e posteriormente ter ajudado a formar parte das forças armadas do novo país. Já a Eritreia, antiga colônia da Etiópia, conseguiu sua independência após 30 anos de combates, porém, a divisão territorial obtida em 1991 deixou a Etiópia sem saída para o mar, o que causou novo confronto entre 1998 e 2000, e continua a ser fonte de tensões entre ambos.

 

A descolonização da África deixou para trás um legado de mais de 500 anos de submissão e exploração, causa maior da desigualdade e pobreza do continente. Já a divisão territorial feita com intenções de controle pelos europeus é fonte de constantes confrontos étnicos, o que levou ao recente genocídio no Sudão, causando também sua divisão em dois Estados nacionais, e o atual confronto no Congo, no qual a Organização das Nações Unidas (ONU) tem tentado intervir.

 

Saiba Mais!

Para aprofundar os assuntos aqui estudados, assista ao filme sugerido a seguir:

  • Filme: “Hotel Ruanda” (2004)
  • Duração: 121 minutos.
  • Sinopse: O filme, baseado em fatos reais, narra o conflito envolvendo duas diferentes etnias, os tutsis e os hutus, em Ruanda, antiga colônia alemã e belga, no ano de 1994. A história é centrada no salvamento de centenas de pessoas por Paul Rusesabagina, que fornece refúgio a várias famílias no hotel em que era gerente. O filme relata também o desinteresse das potências estrangeiras pelo conflito.

 

Em Resumo

A colonização africana iniciada pelas grandes navegações ao redor do continente no século XIV ganhou novo impulso com o capitalismo industrial no século XIX, o que levou as potências europeias a buscarem fontes de matérias-primas e possíveis mercados para seus produtos. Isso levou a uma divisão do continente entre diversas potências da Europa. Esse controle, em alguns casos, manteve-se até a segunda metade do século XX, terminando com conflitos entre movimentos de libertação e exércitos coloniais. Porém, a independência desses países somente demonstrou o caos que a colonização causou, já que guerras civis eclodiram em vários países recém-independentes.

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