Texto: O Conceito de Cultura

O Conceito de Cultura

Em conversas informais todos nós já escutamos alguém dizer com a maior naturalidade que “fulano é uma pessoa culta”. 

 

Essa frase, aparentemente inocente, está ligada a um conjunto de valores através dos quais algumas pessoas e grupos são valorizados (artistas, escritores, intelectuais, etc.), enquanto outros são discriminados devido à suposta ausência de cultura (os moradores do campo, as classes populares das cidades, os analfabetos, etc.).

 

Membros da Academia Brasileira de Letras

 

Essa visão exalta alguns lugares como sendo centros de “irradiação” da cultura (os museus, as escolas, as universidades, etc.), ao passo que outros espaços são marcados pejorativamente pela sua ausência.

 

Políticas públicas são construídas para promover a Cultura (assim mesmo, com “C” maiúscula e no singular) e há até mesmo um Ministério dedicado ao tema. 

 

No entanto, há poucos espaços instituídos para identificar todas as práticas e sentidos associados a esse conceito na nossa sociedade. Por isso, é oportuno refletir um pouco sobre esse ponto, pois a ele estão associadas formas de se pensar e atitudes construídas ao longo de séculos.

 

Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro

 

A Origem e Significados da Palavra Cultura

Para início de conversa, é preciso dizer que o termo cultura não manteve o mesmo significado ao longo do tempo, variando também de acordo com o lugar em que foi empregado. Segundo Denis Cuche, a palavra cultura vem do latim e denota o cuidado dispensado ao gado e ao cultivo da terra. Somente no século XIII há registros dessa palavra no francês, língua na qual era um substantivo e fazia referência a uma porção de terra cultivada (a cultura do trigo, do arroz, etc.). No início do século XVI, a palavra passa a ser utilizada como um verbo, o qual denota a ação de cultivar a terra – a atividade humana por meio da qual uma parcela bruta de terra transforma-se em uma lavoura qualquer. Nesse contexto, a expressão assume sentido de domínio do homem sobre a natureza.

 

Campo cultivado de trigo

 

A partir da segunda metade deste mesmo século XVI, a noção de cultura adquire também um sentido figurado, podendo designar o trabalho efetuado para desenvolver uma faculdade do espírito humano, ou seja, uma habilidade artística ou uma aptidão cognitiva. No entanto, esse uso metafórico permanecerá sendo pouco utilizado até o século XVIII, quando este passará a ser o principal emprego associado ao termo.

 

A noção de cultivo das faculdades intelectuais é generalizada no contexto do despotismo esclarecido –  concepção de que o governo estaria a cargo do Rei, por conta do seu preparo. O Rei era o único a ter uma vida dedicada ao cultivo das capacidades racionais e ao autodomínio, ele seria a pessoa adequada para exercer o governo.

 

Não é em vão que a palavra cultura se impôs para descrever esse processo, pois ela faz referência ao procedimento socialmente reconhecido de transformação de algo em estado bruto e baldio (a terra não lavrada), em algo intencionalmente modificado pela ação humana visando dotá-la de utilidade e sentido. Do homem que lavra a terra e a modifica, incutindo nesta obra uma melhora inquestionável, passa-se ao homem que trabalha em si mesmo, aperfeiçoando-se por intermédio de um esforço consciente. 

 

E se o século XVIII começa depositando  sua confiança no despotismo esclarecido – que, lembremos, pregava que somente o Rei teria condições de se cultivare governar a sociedade –, em seu final essa imagem será modificada para sempre.

 

Cultura e Civilização

Como escreveu o filósofo Emmanuel Kant: todos os homens deveriam sair da condição de menoridade, ou seja, deixarem de ser dirigidos por outros. Todo aquele que permanece nessa condição deve ser considerado o único culpado, dada sua falta de coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Em suma, depois do Iluminismo não apenas o Rei ou a nobreza deve ater-se ao cultivo do espírito e da razão.

 

O século XVIII apresenta, assim, a ideia de ensino universal.

 

O Iluminismo e a Educação

 

Nesse momento a palavra Cultura é empregada como equivalente ao termo Civilização, pois ambos os vocábulos faziam referência a uma condição humana comum: nossa espécie teria de trabalhar sobre si mesma para apurar suas faculdades e triunfar contra a animalidade, cujas ações se baseariam na ação espontânea do instinto. 

 

Reencontramos aqui o tema do início desse texto, baseado na divisão entre pessoas cultas e incultas, entre aqueles valorizados por terem se dedicado a aprender e melhorar e aqueles que não puderam ou quiseram fazê-lo.

 

Edward Burnett Tylor

 

É com base nessa concepção de cultura que a primeira definição científica foi estabelecida por Edward Burnett Tylor, na segunda metade do século XIX. Segundo esse autor:Cultura ou Civilização, tomada em seu mais amplo sentido etnográfico, é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem na condição de membro da sociedade.

 

Quando essa ideia de cultura extrapola as fronteiras francesas e a chega à Alemanha um outro sentido foi associado ao termo. Um grupo de intelectuais alemães não concordam com a identificação entre a noção de cultura e civilização. 

 

Eles se incomodavam que os comportamentos associados à vida culta/civilizada fossem demasiado próximos das formas de vida da vigentes na corte francesa. Sendo assim, eles criticavam a nobreza alemã por eles imitarem cegamente esses comportamentos, sem se preocuparem com as práticas e comportamentos correlatos vigentes na sua própria nação, que para eles eram as únicas realmente autênticas.

 

Com isso, eles passam a opor Cultura e Civilização, com o primeiro termo denotando tudo o que é profundo e particular aos alemães, em contraste com os modos civilizados, entendidos como superficiais e universalistas – para não dizer franceses. Com isso eles criaram a noção particularista de cultura, que postula a existência de culturas específicas a um povo ou nação. Com o tempo essa noção se associará à ideia de cultura como algo próprio às diversas coletividades e grupos humanos existentes, mesmo que para isso seja necessário acrescentar um qualificativo: cultura popular, cultura camponesa, cultura indígena, etc. Essa acepção particularista terá uma grande importância no desenvolvimento dos estudos científicos de cultura, ao longo do século XX, por permitir o enfoque dos sentidos específicos e associados a um determinado contexto cultural de determinadas práticas.

 

Dança tradicional alemã

 

Saiba Mais!

Cultura de Massa e Singularidade

Félix Guattari

 

A palavra cultura teve vários sentidos no decorrer da História: seu sentido mais antigo é o que aparece na expressão cultivar o espírito. Este é o sentido A que vou designar cultura valor por corresponder a um julgamento de valor que determina quem tem cultura e quem não tem; ou se pertence a meios cultos ou se pertence a meios incultos. O segundo núcleo semântico agrupa outras significações relativas à cultura: é o sentido B que vou chamar cultura-alma coletiva […]. Desta vez, já não há mais o par ter ou não ter: todo mundo tem cultura. Essa é uma cultura muito democrática: qualquer um pode reivindicar sua identidade cultural.  É uma espécie de a priori da cultura: fala-se em cultura negra, cultura undergroud, cultura técnica e assim por diante. É uma espécie de alma um tanto vaga, difícil de captar, e que se prestou no curso da História a toda espécie de ambiguidade, pois é uma dimensão semântica que se encontra tanto no hitlerismo, com a noção de Volk (povo), quanto em numerosos movimentos de emancipação que querem se reapropriar de sua cultura e de seu fundo cultural. O terceiro núcleo semântico, o sentido C, corresponde à cultura de massa e eu o chamaria de cultura-mercadoria. Aí já não há julgamento de valor, nem territórios coletivos da cultura mais ou menos secretos, como nos sentidos A e B. A cultura são todos os bens: todos os equipamentos (como as casas de cultura), todas as pessoas (especialistas que trabalham nesse tipo de equipamento), todas as referências teóricas e ideológicas relativas a esse funcionamento, tudo que contribui para a produção de objetos semióticos (tais como livros e filmes) difundidos num mercado determinado de circulação monetária ou estatal. Tomada nesse sentido, difunde-se cultura exatamente como Coca-Cola, cigarros, carros ou qualquer outra coisa. […]

 

A minha ideia é que esses três sentidos de cultura que aparecem sucessivamente no curso da História continuam a funcionar simultaneamente. […] Esse duplo modo de produção da subjetividade, essa industrialização da produção segundo os níveis B e C, não renunciou absolutamente ao sistema de valorização do nível A. Atrás da falsa democracia da cultura continuam a se instaurar os mesmos sistemas de segregação a partir de uma categoria geral da cultura, de modo completamente subjacente. […] A cultura não é apenas uma transmissão de informação cultura, uma transmissão de sistemas de modelização, mas é também uma maneira de as elites capitalísticas explorarem o que eu chamaria de um mercado geral de poder.

 

Um poder não apenas sobre os objetos culturais, ou sobre as possibilidades de manipulá-los e criar algo, mas também um poder de atribuir a si os objetos culturais como signo distintivo na relação social com os outros.

 

Referência Bibliográfica: GUATTARI, Félix. ROLNIK, Sueli. Cultura de massa e singularidade.Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis; Rio de Janeiro: 2000, p. 23, 25, 26 e 27.

 

Você Sabia?

O século XVIII é conhecido como o Século das Luzes, por conta da eclosão de um movimento conhecido como Iluminismo. O título desse movimento é retirado do texto de Kant Resposta à pergunta: que é esclarecimento [Aufklärung]? A tradução do termo alemão Aufklärung faz referência, ao mesmo tempo a esclarecimento, iluminismo e iluminação. Sendo assim, o processo de se buscar se esclarecer mediante o treino das faculdades racionais, da participação no debate público, equivaleria à busca por se iluminar, donde vem a noção de Iluminismo. Sendo assim, este movimento teórico buscou modificar o mundo a partir do debate das ideias, da iluminação proveniente das luzes da razão.

 

Em Resumo

Neste tópico buscou-se problematizar o conceito de cultura, dedicando particular atenção à história da palavra no pensamento Ocidental e sua relação com as modificações vivenciadas pela relações socioculturais associadas à temática.

 

Referências

CLASTRES, Hélène. (1980) Primitivismo e ciência do homem no século XVIII. Discurso. Revista do Departamento de Filosofia do FFLCH da USP, número 13, p. 187-208.

CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Tradução de Viviane Ribeiro. Beuro: EDUC, 1999.

GUATTARI, Félix. ROLNIK, Sueli. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis; Rio de Janeiro: 2000.

KANT, Emmanuel. Resposta à pergunta: que é esclarecimento [Aufklärung]? Disponível em http://coral.ufsm.br/gpforma/2senafe/PDF/b47.pdf, 

KUPER, Adam. Cultura: a visão dos antropólogos. Bauru, EDUSC, 2002.

TYLOR, Edward Burnet. A ciência da cultura [extrato]. In: CASTRO, Celso (Org). Evolucionismo cultural: textos de Morgan, Tylor e Frazer. Seleção de textos, apresentação e revisão de Celso Castro. Trad. Maria Lúcia de Oliveira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. 

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