Texto: Economia e Cultura Muçulmana

Economia e Cultura Muçulmana

Ao conquistarem outros povos, os muçulmanos expuseram sua cultura e seus costumes nos territórios ocupados, tendo sido influenciados pelo modo de vida dos reinos conquistados. O resultado desse contato foi o florescimento de uma rica cultura e de um próspero comércio com o Ocidente. 
 
 
 
 

A Economia no Império Muçulmano

Até o século XV, os muçulmanos detiveram o controle das principais rotas comerciais que ligavam o Oriente ao Ocidente. Com técnicas de navegação muito desenvolvidas para a época, esses povos conseguiam navegar pelo Mar Mediterrâneo e pelo Oceano Atlântico, permitindo a venda de produtos exóticos como especiarias da Ásia Oriental, seda e porcelana da China, pedras preciosas da Índia e escravos da África. Tal domínio e disponibilidade de tantos produtos para comercializar fizeram dos árabes os principais mercadores do período. 
 
 
Nas cidades, a produção artesanal era muito difundida e os produtos árabes eram bastante apreciados na Europa Medieval devido à qualidade do material e à variedade das mercadorias. Com o tempo, os núcleos populacionais se tornaram referência em produtos específicos, a exemplo da cidade de Bagdá, que ficou conhecida pela produção de joias, cerâmica e sedas. 
 
 
O intenso e lucrativo comércio fez com que as cidades árabes prosperassem. Diversos produtos exóticos trazidos da Ásia por mercadores eram comercializados nesses centros, como seda e porcelana. Além disso, havia trabalhos em couro, cerâmica e metais produzidos pelos artesãos que viviam nas cidades. 
 
 
Os árabes também se destacaram na agricultura. Nos oásis eram cultivados gêneros como trigo, tâmara e azeitona (o clima úmido de tais regiões favorecia esse tipo de cultivo). Destaca-se o azeite produzido, o qual é utilizado no preparo de alimentos e como combustível para as lamparinas. Havia ainda a criação de cabras, carneiros e camelos que se alimentavam da vegetação rasteira. 
 
 

A Cultura Islâmica

Graças aos muçulmanos, boa parte do conhecimento elaborado durante a antiguidade foi conservado, bem como o dos povos por eles conquistados. Amantes do conhecimento, os árabes preservaram obras filosóficas, científicas, literárias e técnicas da Grécia Antiga. Além dos clássicos ocidentais, os muçulmanos desenvolveram os conhecimentos elaborados por chineses, persas e indianos. Tais estudos foram traduzidos para o árabe e difundidos pelo Ocidente. 
 
 
 A cultura árabe teve grande influência dos povos conquistados e das obras da antiguidade que foram preservadas. Logo, trata-se de uma cultura influenciada por civilizações da África, Ásia e Europa.
 
 
Dentre as influências árabes no mundo ocidental, podemos citar os algarismos de zero a nove. Esse sistema de números foi desenvolvido por tais povos para realizar cálculos matemáticos, sendo que eles derivam de antigos algarismos indianos. O próprio termo “algarismo” foi abordado pela primeira vez por Al-Khowarizmi, estudioso árabe que colaborou com o desenvolvimento desse sistema. 
 
 
Os árabes produziram álcool e sabão, além de terem descoberto novas substâncias como o mercúrio. Convém salientar que a evolução de estudos na área da Química proporcionou o preparo de novas formas de vidro e esmalte para estudo e desenvolvimento de ácidos. Na Medicina, identificaram-se algumas doenças contagiosas, e medidas higiênicas foram adotadas para evitá-las (a separação entre Medicina e farmacologia permitiu o desenvolvimento de medicamentos). A vacina, que consiste em imunizar o paciente a partir da inoculação de substâncias, foi amplamente utilizada no mundo islâmico antes de ser copiada na Europa.
 
 
 
Provavelmente, a principal referência artística dos povos árabes é a arquitetura, muito conhecida pelo uso de figuras geométricas, pela beleza das formas e harmonia das cores. Tais obras carregam a influência dos povos conquistados e se refletem em palácios, mesquitas e mausoléus. Vale ressaltar que no interior das mesquitas não há decoração com imagens ou esculturas sacras, uma vez que, diferentemente dos cristãos, os muçulmanos não cultuam imagens de seus profetas, anjos e de Alá. 
 
 
 
Mesquita de Shah (e seu interior), em Isfahan, no Irã
 
 
As edificações árabes são ornamentadas com colunas e arcos em formato de ferradura, e cúpulas enfeitadas com mosaicos e arabescos. A parte interna é geralmente decorada com mosaicos e azulejos. 
 
 
 
Por fim, há a literatura,  gênero que era muito valorizado pelos povos árabes. Os mulçumanos escreveram obras importantes para a literatura mundial. Em As mil e uma noites, por exemplo, há textos de diversos autores cujas histórias são narradas por uma jovem princesa chamada Sherazade. Dentre os textos, destacam-se “Ali Babá e os Quarenta Ladrões” e “As Sete Viagens de Simbad, o Marujo”. 
 
 

Leitura

 
O Mercador e o Gênio
 
– Senhor, havia em outros tempos um mercador que possuía grandes riquezas em escravos, terras, mercadorias e ouro. Obrigado de quando em quando a viajar para tratar de negócios, partiu um dia montado em seu cavalo, levando boa provisão de biscoitos e tâmaras para alimentar-se durante a travessia do deserto. Terminada sua tarefa, tomou o caminho de volta à sua casa. 
 
 
No quarto dia de caminhadas, sentindo-se sufocado pelo calor do Sol, buscou a sombra de umas árvores que divisou ao longe. Junto a uma delas havia uma fonte cristalina, e ali então desmontou para descansar. Sentou-se à margem do riacho e tirou do zurrão - sacola de couro - as provisões que lhe restavam. Depois de comer as tâmaras atirou para os lados os caroços e, terminando seu lanche, lavou o rosto, as mãos e os pés, como um bom muçulmano, e rezou sua oração de costume. 
 
 
Estava ainda ajoelhado quando lhe apareceu um gênio de enorme estatura, cuja cabeça estava coberta com a neve dos anos, e que, caminhando em sua direção, com a espadana mão, disse-lhe em tom assustador:
 
 
– Levanta-te, porque vou te matar como fizeste com meu filho. 
 
 
Amedrontado com a figura do gênio e suas palavras ameaçadoras, o mercador respondeu:
 
 
– Meu bom senhor! Que crime cometi para merecer tal castigo? Não conheço nem nunca vi jamais vosso filho. 
 
 
– Ah, é? E por acaso não acabas de jogar para os lados caroços de tâmaras?
 
 
- Sim, não posso negar que fiz isso.
 
 
– Pois bem – explicou gênio –, meu filho, que passava junto a ti, foi atingido por um desses caroços no olho e caiu morto no mesmo instante. Não posso te perdoar e vou te arrancar a vida. 
 
 
– Misericórdia, senhor! Implorou o mercador diante de tão absurda acusação. – Se matei vosso filho, foi sem querer e, por isso, mereço vosso perdão. 
 
 
O gênio, em vez de responder, agarrou o mercador e, derrubando-o no chão, ergueu a espada para cortar-lhe a cabeça, indiferente a seus apelos em nome da esposa e dos filhos. 
 
 
Quando o mercador viu que a espada descia em direção a seu pescoço, soltou um grito horrível e disse:
 
 
– Por favor, esperai um pouco e ouvi-me! Já que estás disposto a matar-me, concedei-me um prazo para que possa despedir-me de minha família, fazer o testamento e acertar meus negócios. Juro pelo Deus do Céu e da Terra que aqui voltarei pontualmente para submeter-me à vossa vontade. 
 
 
– E de quanto tempo necessitas?
 
 
– Peço-vos um ano de prazo, ao fim do qual me encontrareis junto a esta mesma árvore, disposto a entregar-vos a vida. 
 
 
– Juras por Deus?
 
 
– Juro! – respondeu o mercador –, e podeis confiar na verdade de meu juramento. 
 
 
O gênio, ao ouvir essas palavras, desapareceu, e o mercador, mais tranquilo agora, montou no cavalo e continuou seu caminho. A mulher e os filhos o receberam com grandes demonstrações de alegria, mas o infeliz desandou a chorar pensando no fatal juramento que fizera. E terminou contando o que lhe acontecera na viagem. A mulher e os filhos não ficaram menos aflitos e amargurados com o que ouviram. 
 
 
O mercador pagou suas dívidas, deu presentes aos amigos e esmolas aos pobres, libertou seus escravos, dividiu os bens com os filhos e, ao cabo de um ano, teve de partir [...].
 
 
Adaptado de: As mil e uma noites: contos árabes In: AZEVEDO, Gislane Campos; SERIACOPI, Reinaldo. História: Idade Média e Idade Moderna. 1. ed. São Paulo: Ática, 2012, p. 24. (Projeto Teláris: História)
 


Em Resumo

O mundo árabe constitui uma das civilizações mais ricas e complexas da humanidade. Fruto da junção de elementos culturais da África, Ásia e Europa, desenvolveu-se nessa região um modo de vida extremamente peculiar e com expressivas manifestações artísticas, culturais, econômicas e científicas. 

                                                                                                                                                                                                                           
Referências

APOLINÁRIO, Maria Raquel (Ed.). Projeto Araribá: História. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2010. 
AZEVEDO, Gislane Campos; SERIACOPI, Reinaldo. História: Idade Média e Idade Moderna. 1. ed. São Paulo: Ática, 2012. (Projeto Teláris: História)
DEMANT, Peter. O mundo muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004.
FRANCO JUNIOR, Hilário; ANDRADE FILHO, Ruy de Oliveira. In: PELLEGRINI, Marcos César. Vontade de saber história – 7º ano. 1. ed. São Paulo: FTD, 2009. (Coleção Vontade de Saber)
LEWIS, Bernard. Os árabes na história. Lisboa: Estampa, 1982, p. 45-47. 
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