Texto: Formas Contemporânias de Gêneros Textual

Formas Contemporânias de Gêneros Textual

As novas tecnologias utilizadas na comunicação viabilizaram uma nova configuração para a linguagem como um todo e para a literatura de maneira particular. Tanto a leitura como a escrita, hoje, encontram-se relacionadas ao chamado texto digital. Essa nova forma de comunicação e expressão artística encontra-se relacionada aos e-gêneros, a exemplo dos blogs, onde encontramos a webliteratura, uma forma de expressão artística contemporânea com características próprias dessa forma de escrita. Assim, apontaremos aspectos relevantes dos blogs como uma nova forma de expressão literária. 

 

A Webliteratura: o Futuro da Escrita e da Leitura

Sendo o ciberespaço um dos futuros da leitura e da escrita no que consiste à virtualização da linguagem, por que não transformar a Internet e os gêneros textuais digitais em ferramentas eficazes para uma nova forma de experimentação da obra literária? O texto literário pode ser considerado a materialização da linguagem por meio do uso da língua e os gêneros literários correspondem à forma de trabalhar a linguagem em formato escrito. O texto digital é um documento de circulação social. Uma vez lançado na web, torna-se uma publicação pronta para ser lida, discutida e modificada. Um espaço de socialização, fazendo jus ao pensamento de Bakhtin de que “a linguagem é o modo mais puro e sensível de relação social”.  

 

E, quando os textos, por meio do suporte digital, manifestam gêneros literários específicos por intermédio de um determinado gênero do discurso eletrônico em hipertexto, ou seja, o texto que associa a escrita à imagem e ao som no ambiente online, dentre outras linguagens, a exemplo dos blogs, temos uma novíssima e diferenciada forma de manifestação artística a multiplicar as potencialidades do texto. Assim, o espaço da cibercultura corresponde a um fenômeno representativo do homem contemporâneo. Nesse sentido, podemos concordar com Lévy (1999, p. 29), quando afirma que

 

O ciberespaço é o terreno onde está funcionando a humanidade hoje. É um novo espaço de interação humana que já tem uma importância enorme e sobretudo no plano econômico e cientifico e, certamente, essa importância vai ampliar-se e vai se estender a vários outros campos, como na pedagogia, estética, arte e política. O espaço cibernético é a instauração de uma rede de todas as memórias informatizadas e de todos os computadores. 

 

Portanto, as propriedades da ciberliteratura correspondem à habilidade de criar traços multinivelados, reproduzir em cores, habilidade para dar à composição qualidades cinéticas, uma composição que se move enquanto é exibida, ser capaz de programar elementos, eventos, deixar o mundo da rigidez e entrar em um mundo da textualidade que é mais múltipla, variável e vibrante. Em síntese, entre as mais poderosas das qualidades da literatura eletrônica, estão a intermidialidade (diferentes tipos de mídias presentes em um mesmo texto), a hibridização (diferentes gêneros textuais presentes no texto literário), a interatividade (relação entre os sujeitos) e a permutabilidade (troca e ressignificação de informações). 

 

Para Pedro Barbosa (1996, p. 5), no estado atual em que se encontra, são três os gêneros ou tendências literárias elaboradas no ciberespaço:

 

- A Poesia Animada por Computador que, na continuidade da poesia visual, introduz a temporalidade na textura frequentemente multimediática da escrita em movimento no ecrã;

 

- A Literatura Generativa que, mediante “geradores automáticos”, apresenta ao leitor um campo de leitura virtual constituído por infinitas variantes em torno de um modelo;

 

- A Hiperficção ou narrativa desenvolvida segundo uma estrutura em labirinto assente na noção de hipertexto, ou texto a três dimensões no hiperespaço, em que a intervenção do leitor vai determinar um percurso de leitura único que não esgota a totalidade dos percursos possíveis no campo de leitura.

 

Um exemplo, inclusive mencionado em itens anteriores, corresponde à poesia neoconcreta de Arnaldo Antunes.

 

Leitura

grupo mineiro Seminovos marca por sua originalidade e atualidade das temáticas, muitas delas presentes no cotidiano de jovens do mundo todo. A música intitulada “Ela não sai do Facebook” evidencia essa roupagem contemporânea do grupo, bem como mostra a influência das novas tecnologias nas relações pessoais. Leia, divirta-se e reflita: como você utiliza essas mídias, essas linguagens em seu cotidiano? 

 

Eu chego em casa, quero a mulher do meu lado

Mas ela tá lá no Facebook!

Eu vou pra cama, todo bem intencionado...

E ela ainda tá no Facebook...

 

Agora deu pra adicionar ex-namorado

Como “Amigo” lá no Facebook!

Um pôs a foto de calção, quase pelado

E ela comentou: “Curti o look!” [...]

 

Eu sei que o site é uma ameaça pra quem é comprometido

Já causa um terço dos divórcios lá no Reino Unido...

Se eu não fizer alguma coisa agora tô f(*)!

Vem cá pra me curtir

Sem me compartilhar

Não dá pra cutucar

Se eu não te encostar

Ela insiste em registrar sua rotina

Todo dia lá no Facebook!

Tem que contar se faz exame de urina

Ou se o cachorro aprende algum truque!

 

Nossos amigos fazem festa, ela não vai...

Só manda abraço pelo Facebook!

Como viver com uma mulher que nunca sai...

Sem que essa indiferença machuque?

Eu já não sei mais o que faço

pra salvar meu casamento

Como é que a gente pode ter um relacionamento...

Se ela vive feito gado em confinamento? 

 

Vem cá pra me curtir

Sem me compartilhar

Não dá pra cutucar

Se eu não te encostar

 

Vem cá pra me curtir (Face to face)

Sem me compartilhar (Face to face)

Não dá pra cutucar (Face to face)

Se eu não te encoxar (Face to face)

 

Em Resumo

Tratamos de um dos assuntos bastante discutidos em torno das novas manifestações da linguagem, dentre elas, a literatura. O avanço tecnológico propiciou essas e outras tantas metamorfoses que estão sofrendo, em geral, as indústrias culturais. Essa revolução, como tantas outras, subverteu o mundo, com a promessa de um mundo melhor. As consequências em torno da cultura são inimagináveis, em razão da mudança da forma de consumo das manifestações artísticas, da maneira como nos divertimos e relacionamo-nos com o outro. Assim, tais mudanças, sem dúvida, radicais, simplificaram nossas vidas, mas, também, despertaram angústias e o mal-estar próprio do homem contemporâneo. O choque dessa representação da simplificação do cotidiano com seu estranhamento é uma das questões com as quais se preocupa a literatura contemporânea e sua quebra de regras canônicas. 

 

Referências

BARBOSA, Pedro. A ciberliteratura: criação literária e computador. Lisboa: Edições Cosmos, 1996.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.

______. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 2000.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. O hipertexto como um novo espaço de escrita em sala de aula. In: AZEREDO, José Carlos de (Org.). Língua portuguesa em debate: conhecimento e ensino. Rio de Janeiro: Vozes, 2000. 

 
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