Texto: O Uso da Internet e as Novas Mídias Sociais

O Uso da Internet e as Novas Mídias Sociais

Como sabemos, o desenvolvimento da internet impactou a vida cultural das sociedades contemporâneas. Esse meio de comunicação de massa possibilita uma relativa descentralização na produção cultural, uma vez que cada terminal conectado à rede mundial de computadores pode ser tanto um consumidor, quanto um produtor de obras culturais.

 

 

Tal fato decorre da própria forma de funcionamento da rede, dada a grande facilidade em produzir e veicular conteúdos. Tendo em vista que a internet não é propriedade de ninguém em particular e dispõe de poucas normas que restringem seu funcionamento, as mensagens podem romper as barreiras geográficas, ficando disponíveis a qualquer hora do dia para todos os habitantes do planeta que estejam conectados à rede.

 

Interatividade e Inteligência Coletiva

A internet potencializa a interação das pessoas, instaurando cadeias comunicativas que põem em contato indivíduos das mais variadas origens – e que talvez nunca se conheceriam, não fosse a mediação digital. De fato, essa é uma das características mais celebradas da rede mundial de computadores, uma vez que as articulações formadas independem das classes sociais, das nacionalidades, dos credos religiosos ou mesmo da língua falada (que o digam os tradutores disponíveis em linha).

 

Essa multiplicação dos encontros, das trocas e das colaborações cria aquilo que Pierre Lévy chamou de inteligência coletiva. Segundo Lévy, os saberes e habilidades estabelecidos pela internet não são localizáveis, tampouco emanam de uma pessoa ou entidade localizável. Ao contrário, eles permanecem dispersos, sendo produzidos e atuando em todos aqueles que interagem na rede. Esse fato permite a coordenação, em tempo real, de competências e aptidões presentes em múltiplos agentes, os quais se encontram interligados por uma rede comunicativa. Tal interação dá forma aos conhecimentos, dota as habilidades individuais de uma consistência própria e amplifica as possibilidades criativas, mediante a atuação colaborativa de outros tantos agentes. 

 

 

Com isso, a própria internet cria novos saberes. A rede instaura um tipo de inteligência com características próprias: construída por meio das disposições presentes em indivíduos, mas formando algo novo, com propriedades próprias a essa coletividade instituída pela comunicação digital em tempo real. 

 

 

Um bom exemplo da inteligência coletiva é o site Wikipédia. A proposta da página é ser uma enciclopédia aberta, com verbetes construídos coletivamente, mediante a colaboração dos usuários cadastrados, em múltiplos idiomas. Com isso, as informações disponíveis nesse sítio eletrônico não são fornecidas por uma só pessoa, ou mesmo por um grupo de experts, mas são o produto da colaboração de inúmeros usuários anônimos. Tendo isso em vista, um verbete pode mudar diariamente, pois basta que algum usuário cadastrado no site resolva complementar os dados publicados, ou mesmo discordar das informações disponíveis, para que ele mesmo edite a fonte de dados – tal processo, certamente, não tem fim. 

 

 

Além disso, a internet possui poucas restrições legais, o que permite que as páginas contenham as mais variadas experimentações, tanto nos conteúdos veiculados quanto nas formas de divulgação. Assim, ao navegar pela rede, podem ser encontradas desde páginas dedicadas às religiões – em seus mais variados matizes – até uma infinidade de sites veiculando pornografia, passando por outros de divulgação de partidos políticos e de filosofias de vida alternativas. Os responsáveis pelos sítios eletrônicos podem usar textos, imagens, vídeos, cada qual junto ou separado, visando propagar suas ideias.

 

Dilúvio Informacional

Tendo em vista o que foi acima exposto, pode-se afirmar que a internet opera como uma rede comunicacional-interativa, propiciando uma certa democratização dos meios de produção cultural. Tal fato implica em outra marca da cibercultura: a multiplicação extrema do conteúdo disponível para o acesso dos internautas. Esse aspecto criou dois problemas distintos: de um lado, existe, hoje, um contingente significativo de excluídos digitais; de outra parte, é cada vez mais difícil situar-se perante o dilúvio informacional propiciado pela rede. 

 

 

No que tange ao primeiro problema, vale lembrar que uma parcela significativa dos conteúdos produzidos atualmente está disponível via rede mundial de computadores. Por conseguinte, ter acesso a esses dados passa a ser algo extremamente relevante para as pessoas. Além disso, há pesquisas indicando que o aumento no acesso de pessoas com conexão à internet cria, inclusive, impactos positivos na economia. Entretanto, segundo os dados divulgados no relatório anual da União Internacional de Telecomunicações (UIT), 4,4, bilhões de pessoas permanecem sem acesso à internet – segundo dados desse mesmo relatório, no Brasil, 49,8% das pessoas têm acesso à internet. Tendo em vista tal quadro, muitos agentes têm invitado esforços para ampliar o número de pessoas conectadas. 

 

No entanto, há um outro tipo de problema, pois a abundância de dados disponíveis dificulta o reconhecimento do conteúdo relevante; é como se os internautas estivessem sendo sufocados pelo volume de dados disponíveis, tornando bem difícil encontrar as informações realmente válidas e confiáveis.

 

Assim, não é de se admirar que algumas das maiores fortunas tenham sido construídas com base na exploração dos serviços de busca de informações (motores ou ferramentas de busca), como o Yahoo, o Bing, o Altavista (serviço incorporado ao Yahoo), o Cade? (primeiro buscador brasileiro, hoje incorporado ao Yahoo) e o Google.  Mediante uma busca, feita a partir da digitação de algum termo ou expressão, essas ferramentas permitem ao usuário acessar as páginas que hospedam os dados solicitados, exibindo os resultados na ordem de relevância – isto é, com base no maior número de acessos. 

 

No entanto, nem sempre os resultados das buscas feitas nos motores de busca resultam nas informações desejadas pelo internauta. Pode haver algum tipo de imprecisão na ferramenta de recuperação dos dados; ou, então, a sugestão de um volume gigantesco de páginas; ou, ainda, os dados indicados podem simplesmente não coincidir com o interesse do usuário. Em todos esses casos, o resultado é o mesmo: os sites de busca nem sempre conseguem situar o internauta diante do mar de informações disponível na rede mundial de computadores.

 

As Comunidades Virtuais e a Contextualização das Informações da Internet

É assim que as comunidades virtuais têm atuado como um poderoso meio de seleção dos conteúdos relevantes para as pessoas. De fato, a imagem tradicional sobre a formação de laços comunais baseia-se na existência de pessoas com elementos em comum, cuja simpatia recíproca baseie-se no compartilhamento de relações de vizinhança, da existência de nexos de parentesco, ou pela simples existência de um gosto comum. Ora, essa imagem tradicional das comunidades contrastaria com o mundo moderno, cuja vida citadina basear-se-ia no rompimento dos elementos responsáveis pela sustentação desses vínculos sociais.

 

 

Todavia, descobriu-se que nem as comunidades tradicionais são tão estáticas e baseadas em nexos de contiguidade especial e/ou parentesco, nem a vida urbana é tão avessa à construção de nexos comunais. Com isso, a comunidade surge com um poderoso elemento de articulação da vida social contemporânea, mesmo que baseada em aspectos heterodoxos, como a paixão por um mesmo time de futebol, o mesmo gosto musical ou artístico, ou, ainda, a adesão aos mesmos ideais políticos.

 

É nesse campo relacional que as comunidades virtuais irão se formar, atuando como um poderoso meio de aproximação de pessoas com interesses comuns. Com isso, um certo tipo de relações interpessoais servirá como filtro da torrente de informações disponíveis na internet. Confiar no conteúdo produzido ou divulgado por pessoas com as quais compartilho o gosto por algo é o melhor meio de se situar diante do dilúvio de informações.

 

 

Em nossos dias, boa parte das pessoas têm algum contato com alguma rede social virtual, nem que seja por intermédio de uma pessoa que participe de alguma delas. De fato, existem muitos desses espaços na internet e, atualmente, é raro encontrar alguém que utilize a rede mundial de computadores e ignore por completo o Facebook, o MySpace, o Google+, o Twitter, o Orkut, o LinkedIn, o Flickr, os blogs e veblogs, entre outros congêneres. Aliás, o mais provável é se deparar com pessoas que participam de dois ou mais desses espaços virtuais voltados à troca de informações e de experiências. 

 

Essas ferramentas têm atuado como um meio de aproximação das pessoas. Elas permitem a divulgação de informações ligadas a seus gostos pessoais e a troca direta de mensagens entre os internautas. Com isso, firmaram-se como importantes meios de formação das comunidades virtuais, justamente por meio da seleção de dados que indiquem a simpatia comum às pessoas.

 

Saiba Mais!

Marco Civil da Internet

 

O Marco Civil da Internet é um projeto de lei, de número 2126/2011, que visa regulamentar o uso e o acesso aos serviços da internet no Brasil. Embora as primeiras iniciativas ligadas à matéria tenham surgido em 2009, a proposta de lei ganhou um impulso em 2013, com a divulgação dos escândalos de espionagem feitos pelo governo dos Estados Unidos.

 

Todavia, a proposta é mais ampla e não trata diretamente desse ponto polêmico, mas, sim, da regulação das relações entre os usuários da rede e a tentativa de agilizar os procedimentos jurídicos ligados aos assuntos virtuais.

 

Fonte: A tramitação do projeto está acessível no link abaixo:

http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=517255

 

Em Resumo 

Neste tópico, destacamos o impacto da internet na produção de bens culturais e na criação de vínculos sociais. Buscamos mostrar como esses dois aspectos estão ligados à inteligência coletiva que emana da rede e como tal processo reconfigura os vínculos comunais nas sociedades contemporâneas.

 

Referências

COSTA, R. Por um novo conceito de comunidade: redes sociais, comunidades pessoais, inteligência coletiva. Interface: Comunicação, Saúde, Educação. v. 9, n. 17, p. 235-48, mar/ago 2005.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed 34, 1999.

______. A inteligência coletiva. São Paulo: Loyola, 2007.

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