Texto: Sexualidade e Formas de Dominação

Sexualidade e Formas de Dominação

Segundo Michel Foucault, mudanças significativas no controle do corpo aconteceram a partir do século XVIII, no Ocidente. As relações sexuais deslocaram-se do dispositivo de aliança para o dispositivo da sexualidade.

 

Essa mudança teve várias consequências. As relações entre os sexos, antes associadas diretamente ao matrimônio, responsável pelas relações de parentesco, passaram a priorizar as sensações e a qualidade do prazer experimentado pelos corpos.

 

No dispositivo da aliança, o sexo era ligado à economia, com a transmissão do nome e dos bens de família. Nesse sentido, ele expressava uma relação jurídica, cujo momento decisivo era a reprodução humana. A expressão sexual era um agente regulamentador da ordem social, sua função específica era manter as alianças realizadas. 

 

 

Já no século XVIII, o corpo e a sexualidade ganham outra conotação. As sensações corporais e o prazer ganham papel de destaque, mudando a relação do sexo com a economia. O dispositivo que relacionava o controle sexual à circulação de bens e transmissão de títulos passou a coexistir com o dispositivo do prazer, que assume progressivamente o caráter de mercadoria. 

 

 

Corpo e Mercado

O corpo passou a ser um objeto de saber e consumo. Por meio de sua valorização, o dispositivo da sexualidade adquiriu destaque nas relações de poder. A busca pela ampliação das zonas de prazer do corpo esteve associada ao desenvolvimento das estratégias do controle de reprodução. 

 

Essa aparente liberdade individual foi seguida de perto por uma série de medidas, visando disciplinar os corpos. Para além da família, a biomedicina, com suas inúmeras especialidades – psiquiatras, psicanalistas, pedagogos e sexólogos –, surge para estabelecer o que é normal ou não.

 

 

O corpo moderno inseriu a biologia da vida no campo das técnicas políticas e no cálculo do poder. A biopolítica, como diz Michel Foucault, traduz as relações de poder nas experiências corporais. 

 

Na sociedade moderna e industrial, o corpo é uma máquina que deve ser orientada para a aceitação das novas normas vigentes. Hoje, não é apenas necessária a produção de corpos dóceis e disciplinados para as longas jornadas de trabalho na fábrica; na sociedade contemporânea, esse controle se dá em esferas mais íntimas, por meio da privatização do prazer, do gozo e da vida.

 

O desenvolvimento do capitalismo intensifica e generaliza a disciplina e a biopolítica, estendendo o controle às formas de subjetivação da experiência do corpo. 

 

Se em outro contexto o confinamento foi o dispositivo de poder mais eficaz, agora, não mais; o controle é mais sutil, mas não menos eficaz. O próprio corpo e o desejo foram inseridos na lógica de mercado, internalizando, assim, o controle.

 

Saiba Mais!

Michel Foucault

Anthony Giddens

 

Em seus trabalhos sobre o crime, o corpo, a loucura e a sexualidade, Foucault analisou a emergência de instituições modernas como as prisões, os hospitais e as escolas que desempenharam um papel crescente no controle e na monitorização da população social. Queria mostrar que existia “um outro lado” das ideias iluministas acerca da liberdade individual, que dizia respeito à disciplina e à vigilância. Foucault avançou com ideias importantes acerca da relação entre o poder, a ideologia e o discurso com os sistemas organizacionais modernos.

[...]

 

Segundo Foucault, o poder funciona por meio do discurso para moldar as atitudes populares em relação a fenômenos como o crime, a loucura ou a sexualidade. O discurso de especialistas, estabelecido pelos que têm poder ou autoridade, pode, muitas vezes, ser combatido apenas pelo discurso de especialistas concorrentes. Desse modo, os discursos podem ser utilizados como uma ferramenta poderosa para limitar formas alternativas de pensamento ou expressão. O conhecimento torna-se uma força de controle. Um tema proemimente entre os trabalhos de Foucault é o modo como o poder e o conhecimento estão ligados às tecnologias de vigilância, execução da lei e disciplina.

 

Fonte: GIDDENS, Anthony. Sociologia. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p.677.

 

Em Resumo

Neste tópico, vimos que assim como as noções tradicionais de gênero, a vida sexual das pessoas também se transformou com a sociedade moderna. Nas sociedades tradiconais, a sexualidade estava estreitamente ligada ao processo de reprodução, hoje, o prazer e as sensações corporais são elementos centrais. Esse processo, que deveria representar uma conquista enorme da liberdade individual, mascara transformações da economia e da sociedade, bem como de suas formas de controle. 

 

Referências

DANZIATO, Leonardo José Barreira. O dispositivo de gozo na sociedade do controle. In: Psicol. Soc., Florianópolis, v.22, n.3, set./dec. 2010.

GIDDENS, Anthony. Sociologia. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.

Já é cadastrado? Faça o Login!