Texto: Os Gêneros Literários

Os Gêneros Literários

A teoria dos gêneros literários é matizada ao longo da história da literatura e, em muitos casos, pode indicar uma “tautologia”, definindo-os como “uma categoria que permite reunir, segundo critérios diversos, um grande número de textos”. Definições dessa natureza encaminhariam a uma série de questionamentos sobre critérios adotados, sobre as categorias etc. Tentando fugir dessa repetição, adotamos o posicionamento rudimentar de que o gênero corresponde à estrutura pela qual as obras são variantes. Essa maneira simplificada nos facilita apontar duas abordagens sobre o gênero: uma, de natureza histórica (como se produziram e se distribuíram as obras no tempo, além dos principais representantes da teoria do gênero) e outra, teórica (que características elas podem possuir e que as colocam em determinada regularidade). Diante disso, pontuaremos os principais aspectos do desenvolvimento da teoria do gênero no que diz respeito às perspectivas histórica e teórica. Observemo-las. 

 

A Teoria do Gênero: Passeios pela Perspectiva Histórica e Teórica

 

A palavra “gênero” não é de uso exclusivo da literatura, sendo que a ideia de origem se encontra vinculada, por exemplo, à raiz de genética e genealogia. Também é usada na Biologia, na categorização dos seres vivos. Esse termo deriva do latim genus, generis, em que se procura designar uma família, uma raça, um grupo de seres que têm características em comum. 

As primeiras manifestações da Literatura resultaram numa produção até hoje reconhecida: os textos sagrados, os poemas e cantos que eram entoados para “contar” * a experiência humana diante de realidades percebidas e registradas por meio da palavra. Novos mundos se descortinavam, e a atitude do homem era de deslumbramento e perplexidade. Nas fases subsequentes, ainda na Antiguidade, predominam as grandes narrativas, e a preocupação com a sistematização das diferentes formas de expressão dá origem à elaboração da Poética, área de conhecimento assim denominada pelos seus principais mentores, os gregos Platão e Aristóteles, devido às suas especificidades. Esses dois filósofos gregos foram responsáveis pelos primeiros agrupamentos de textos literários seguindo uma lógica sistemática.

 

* “Contar”, aqui, tem o sentido de “narrar” e o ato de “narrar”, por sua vez, é sempre perpassado pela subjetividade do narrador que sofre a influência do mundo circundante.

 

Temos, portanto, a partir de Platão e Aristóteles, uma nova concepção do “fazer” literário que definirá a produção literária, distinguindo-a de outras formas do homem em se expressar. Mais elaborada e mais preocupada com a função estética que lhe é peculiar, a modalidade do “texto literário” propriamente dito obedece a normas, regras de conteúdos bem definidas, originalmente atribuídas pela concepção de gêneros literários. Ateremo-nos ao sistema aristotélico para pontuarmos a questão dos gêneros na Antiguidade. 

 

Na intitulada Poética, Aristóteles pormenorizou, no livro primeiro, a Epopeia e a Tragédia e, no segundo (o que foi perdido), a Comédia. Nessa obra, é possível enxergar os fundamentos tanto de uma tese sobre os aspectos estruturais quanto de outra a respeito da experiência estética da catarse, sendo esta última um efeito moral/purificador daquele que “experimenta” determinada obra de ficção. Sendo assim, ele visava analisar os textos literários, defini-los, entender sua lógica e função e, por fim, verificar qual ou quais deles teriam maior ou menor valor.

 

Para alcançar seu objetivo, o filósofo elaborou diversas categorias que se cruzam, definindo os gêneros a partir das diferentes combinações, embora não desenvolva todas elas em sua argumentação. Esta tem, como pressuposto, o conceito central da mimese, termo que pode ser traduzido como imitação ou representação.

 

 

Como podemos perceber, Aristóteles categorizou a expressão literária, tendo em vista o que os gregos consideravam como arte superior e inferior. A superioridade está vinculada à sublimação dos sentimentos, os mais diferentes sentimentos nobres que podem elaborar um herói, por exemplo, no momento em que a modalidade inferior pressupõe o caráter vulgar do mundo, ou seja, cotidiano, comezinho, comum, burlesco, próprio da comédia e da paródia.

 

É importante ressaltar que o gênero lírico, embora seja uma expressão artística presente desde os gregos na cultura ocidental, não é pormenorizada pelos referidos filósofos. Tal gênero será colocado em voga pelo poeta clássico latino Horário. Além de difundir o gênero mediante suas poesias, o poeta elaborou uma “didática da poética”, afirmando que a categoria fora explicada por Aristóteles. Na era clássica, os acessos ao conhecimento eram restritos; assim, a validade de um conceito era medido mais por sua antiguidade do que por sua originalidade ou propriedade. Por isso, muitos escritores e estudiosos concederam a um filósofo da Antiguidade a autoria de suas ideias como uma busca de elaborar um argumento de autoridade. Na voz do povo, esse seria o famoso telefone sem fio. 

 

A Divisão dos Gêneros Literários

Quais seriam esses gêneros? Horácio reconhecia uma variedade maior de gêneros, mas analisou somente o épico e o dramático, reconhecidos por Aristóteles. Ao longo dos séculos, várias listas de gêneros foram feitas por diversos pensadores, mas a divisão mais consagrada até hoje foi elaborada no século XVIII pelo abade francês Charles Batteux, cujo tratado sobre belas-artes foi muito influente em sua época – tal divisão é conhecida como “Tríade de Gêneros”. Entretanto, Batteux atribuiu seu conceito a Aristóteles, gerando um equívoco que ainda perdura; de fato, Aristóteles nunca definiu o gênero lírico. Assim, o gênero épico/narrativo diz respeito à imitação de uma ação narrada pelo poeta, o dramático, à imitação de uma ação encenada por atores e, por fim, o lírico, à imitação de um sentimento expresso pelo poeta. 

 

 

Atenção!

Inicialmente propostos como instâncias absolutas, inflexíveis e imutáveis, os gêneros literários, com o passar dos anos e das civilizações, adquiriram diferentes contornos até assumirem novas configurações impostas pela incansável luta empreendida pelo homem em busca de realização e de felicidade, refletidas em suas criações. Tanto é assim que, para cada época e para cada civilização se encontram, mesclados ao “tecido” literário, elementos históricos, sociais, culturais, religiosos, entre outros que constituem múltiplas identidades. Fique atento!

 

Você Sabia?

Você já ouviu falar das Mil e uma noites? Muitas produções cinematográficas comerciais abordam as temáticas desse livro em que vemos inúmeras histórias da cultura árabe sendo presentificadas, tais como “Ali Babá e os quarenta ladrões”, “Aladim e a lâmpada maravilhosa”, entre outras histórias de renome mundial. A coleção de contos tem como moldura a história de Sherazade, uma mulher que, para escapar da morte, sempre conta a seu marido, o Sultão, uma história, deixando-o sempre na expectativa dos acontecimentos posteriores, fato que o leva a adiar, todos os dias, a morte da esposa. Para a teoria literária, ela é vista como um narrador, assim como os primeiros de nossa história, buscando perpetuar a cultura de seu povo mediante os relatos ao pé do fogo. Vale a pena a leitura!

 

Saiba Mais!

A organização das fitas que compõem uma molécula de DNA é antiparalela, isto é, uma das fitas tem a direção 5’/3’, enquanto a outra está invertida, no sentido 3’/5’. Espacialmente, uma fita se enrola na outra, criando o aspecto espiralado que caracteriza o DNA. 

Você sabia que os atores do teatro grego foram os predecessores dos tão conhecidos saltos altos femininos? É verdade! A altura do salto, juntamente com as máscaras, era uma forma de compor a personagem e indicar, por exemplo, a classe social a que pertencia: quanto mais alto, maior o poder aquisitivo representado. 

 

Leitura!

Em muitas letras músicas, podemos encontrar a mistura de gêneros que citamos, e a canção intitulada Vinte e Nove, do grupo de rock Legião Urbana, é um desses exemplos. Observe a história contada, marca significativa do gênero narrativo; o carpir do indivíduo e a sublimação de seus sentimentos, própria do gênero dramático; a expressão do sentimento do eu lírico em cada um desses momentos, bem como a estrutura dos textos poéticos, como marcas do gênero lírico. Ouça, leia e confira! 

 

Perdi vinte em vinte e nove amizades

Por conta de uma pedra em minhas mãos

Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes

Estou aprendendo a viver sem você

(Já que você não me quer mais)

Passei vinte e nove meses num navio

E vinte e nove dias na prisão

E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno

Decidi começar a viver.

Quando você deixou de me amar

Aprendi a perdoar

E a pedir perdão.

(E vinte e nove anjos me saudaram

E tive vinte e nove amigos outra vez)

 

Em Resumo

A teoria dos gêneros literários desenvolveu-se a partir do pensamento platônico-aristotélico, reconhecendo-o como modelo de perfeição. Ela adquiriu caráter normativo, pretendendo ditar regras a serem obedecidas pelos autores e conhecidas pelos leitores. Há três gêneros considerados como principais, os quais trataremos em tópicos posteriores: lírico, épico/narrativo e dramático.  

 

Referências

HAUSER, Arnold. História social da arte e da cultura. Lisboa: Estante, 1964. v. 4.

PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 

STALLONI, Yves. Os gêneros literários. 3. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2007.  

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