Texto: Gênero Dramático e Formas Estruturais

Gênero Dramático e Formas Estruturais

Neste item, apontaremos os principais aspectos referentes ao gênero dramático. Iniciemos com a teoria sobre o drama. 

 

O Teatro e a Teoria do Drama

Em grego, drama significa ação ou acontecimento. Possuía importância fundamental na cultura grega, sendo parte dos rituais religiosos e cívicos. Platão o definiu segundo a ideia de mimese, no sentido de ser uma encenação. Esse gênero pode ser considerado como “uma forma prioritária”, isto é, capaz de ser facilmente distinguida dos demais gêneros textuais por possuir uma característica específica: é um texto destinado à representação.

 

Platão ainda destaca o modo de enunciação, pois as personagens falam o texto diretamente, em primeira pessoa, sem intermediários entre elas e o público.

 

Conservando uma origem religiosa, deve-se mencionar que a tragédia possui o objetivo de atingir à catarse como maneira didática da percepção/purificação dos sentimentos. Isso acontece por meio das personagens superiores (heróis e deuses), destinadas ao sofrimento em sua concepção ampla. 

 

A comédia, fomentada, inicialmente, por Aristóteles, a partir da acepção da tragédia, tem como objeto acontecimentos cotidianos, ocorridos com personagens representantes de diferentes classes sociais, e objetiva realizar uma crítica organizada por meio do riso, da caricaturização, da exposição grotesca das relações sociais e do indivíduo. Observe o quadro: 

 

No gênero dramático, qualquer espécie de mediador “desaparece” e todas as ações e carga emocional são expressas pela personagem em atuação. É um mundo que se autorrealiza, sem necessitar da interferência de nenhum indivíduo:

 

[...] o gênero dramático é aquele “que reúne por si a objetividade da epopeia com o princípio subjetivo da lírica”, na medida em que representa como se fosse real, em imediata atualidade, uma ação em si conclusa que, originando-se na intimidade do caráter atuante, se decide no mundo objetivo, através de colisões entre indivíduos. O mundo objetivo é apresentado objetivamente (como na épica), mas mediado pela interioridade dos sujeitos (como na lírica). (ROSENFELD, 1985, p. 28).

 

Assim, parte-se do pressuposto de que a dramática contém a lírica e a épica. Entretanto, o drama ultrapassa as duas, pois, segundo alguns estudiosos do assunto, mostrar, simultaneamente, objetividade e subjetividade é característica de uma arte sublime perante as demais.

 

 

Existem traços estilísticos importantes que marcam tais obras. O drama é uma arte que utiliza o tempo presente — o que está acontecendo e por acontecer. Assim, difere-se da épica, pois, nesta, os fatos são contados por outrem e já estão concluídos, enquanto no drama, o autor desaparece, dando autonomia às personagens para que estas revelem as ações momentâneas.

 

Você Sabia?

O gênero dramático tem sua maior realização no teatro, arte de representação em que atores, encarnando personagens, simulam viver, perante um auditório, o conflito de suas existências. Sendo voltado para a encenação e, portanto, tendo caráter inerente de arte visual e de arte da atuação realizada diante de uma plateia, fica evidente que o teatro coloca-se como uma arte do espetáculo. Nesse caso, o que tem o teatro a ver com a literatura? 

 

Uma “arte ambígua”, o teatro, na maioria das vezes, tem, como articulador central da representação cênica, a palavra, estruturada em um texto. É essa dimensão do teatro que interessa à literatura: o texto dramatúrgico, enquanto documento escrito e, assim, participante da tradição da estética literária. Há certa confusão na nomenclatura, mas, de modo geral, considera-se que o texto teatral pode ser denominado drama (embora esse termo também possa se aplicar a certa forma teatral que mescla o trágico e o cômico). 

 

O termo “teatro” refere-se ao conjunto do espetáculo como um todo, envolvendo todas as artes que o compõem, sendo um campo dos estudos dramatúrgicos. É a forma concreta do texto teatral – com suas identificações de fala, sua ordem sequencial, sua retórica, convenções e códigos específicos – que define o gênero dramático, área de estudo da teoria literária. 

 

Entretanto, para que o drama cumpra seu papel, são necessários elementos que possibilitem o desenrolar das ações. A estrutura da dramática “pura”, conforme julgam os críticos, é composta de ação, lugar e tempo. A lógica do gênero é aproximar tempo e lugar cênicos do tempo e lugar da plateia, para garantir a verossimilhança, ou seja, fazer com que pareça possível anos de uma vida acontecerem em algumas horas.

 

Outro aspecto importante é a presença dos diálogos: são eles que promovem as ações e relações na falta de um narrador, assim como suscitam a dialética, o conflito. O que se chama, em sentido estilístico, de “dramático”, refere-se, particularmente, ao entrechoque de vontades e à tensão criada por um diálogo através do qual se externam concepções e objetivos, produzindo o conflito (ROSENFELD, 1985, p. 34).

 

Num crescer, existem dois pontos importantes para que a obra dramática atinja seu êxito: o espaço físico do teatro e o público. O texto dramático, por atribuir as funções do narrador e do autor às personagens, precisa do palco, do recinto teatral para se completar cenicamente. Quanto à plateia, ele carece dela, entretanto, finge que ela não existe. As cenas são apresentadas como se fosse possível “olhar pelo buraco da fechadura” e presenciar todos os acontecimentos da existência de um determinado grupo de indivíduos.

 

No que se refere à linguagem do gênero dramático, também é preciso realizar alguns apontamentos sobre o diálogo e a encenação. Observando a estrutura do texto teatral, excluídas as marcações existentes, o que permanece é um longo dialogar entre as personagens (o monólogo é considerado um diálogo do personagem consigo mesmo). O drama seria, então, a arte do diálogo, disposto de modo a obter um enredo com início, meio e fim, sem o auxílio da voz excedente do narrador.

 

Embora a narrativa também comporte diálogos, ela o faz dentro da moldura de uma voz elaborada pelo próprio autor, que ajuda o leitor a situar a fala das personagens, indicando se estão tranquilas, angustiadas, alegres, apressadas, etc. Por sua vez, o autor teatral conta com a interpretação dada pelo ator ao diálogo proposto, cabendo a outro artista dar sentido completo à personagem imaginada pelo escritor.

 

Atenção

O tempo, na dramaturgia, também reflete o caráter ambíguo dessa arte. Há o tempo cênico, ou tempo de representação, que consiste na duração do espetáculo. O efeito é de um presente contínuo, materialmente experimentado, mesmo que a ação ocorra no passado ou no futuro histórico. No entanto, esse tempo suspenso não se confunde com o presente histórico; é um tempo à parte, que indica o caráter fictício do palco. Há, ainda, o tempo dramático, ou o tempo da ação, que é submisso ao tempo cênico, pois o autor precisa harmonizar o período dos acontecimentos representados com o prazo disponível para a encenação. Assim, por exemplo, um dia de ação deveria ser concentrado em duas horas de representação. Esse tempo é de natureza literária, pois é construído pelo texto verbal.

 

Uma vez que o tempo da encenação já traz a noção do desfecho, a intriga teatral encaminha para o fim desde o início do texto. O público já espera, de antemão, a solução do conflito elaborado. Para que toda ação (que, na maioria das vezes, encerra uma vida, ou mais) aconteça, o tempo de intriga (tempo de ação) é ampliado por meio das falas, cabendo a diversas técnicas dramatúrgicas (coro, monólogo, flashback, etc.) a expansão da temporalidade rumo ao passado e até o futuro.

 

Mesmo quando só lido, o diálogo teatral pede a presença de um corpo e de uma voz a dizer o texto em alto e bom som, imprimindo-lhe as inflexões, gestos e expressões que a escrita indica. 

 

No texto narrativo, a construção do sentido cabe somente ao acordo entre o texto escrito e a mente do leitor. No texto dramático, a construção do sentido depende de uma multiplicidade de artistas, até que seja concretizado plenamente quando apresentando diante de uma plateia. Sem o palco, o texto teatral é como um esboço, uma proposta latente, esperando ganhar vida plena. O diálogo verbal do texto dramático deve inspirar uma gama de comunicação não-verbal a ele possível de ser incorporado por meio da encenação. Portanto, o diálogo teatral é, em certo sentido, um texto virtual. 

 

Todavia, essa virtualidade é rica na medida em que elabora uma densidade de significação por meio de toda textualidade não-verbal que a acompanha, aproximando-se da multiforme realidade humana em suas vivências e relacionamentos. Se tudo que se tem, para conhecermos a personagem e suas ações, é o diálogo, então, no texto teatral (que conta com a linguagem não-verbal para se totalizar), tudo é sustentado pela palavra
dialógica.

 

É a partir da natureza dialógica do texto teatral que algumas características têm sido apontadas pela crítica tradicional como próprias da linguagem dramática: a economia, a precisão e a concentração de sentido. Por isso, valer-se de recursos externos em demasia (chamadas de didascálias), para suprir as lacunas do diálogo em si, seria prova de fraqueza do texto.  Apenas o diálogo teria valor estético e, portanto, literário.

 

A Questão da Personagem no Teatro

 

A personagem dramática deve ter uma estrutura que permita sua representação mímico-cênica, isto é, ela deve permitir a passagem do modo da imaginação (à qual estão restritas as personagens da ficção narrativa) para o modo da percepção.  Ao serem encarnadas por atores, elas saem da imaginação para se assemelharem com a vida real, com as condições de realidade que o público permite que elas tenham. A maneira pela qual a personagem dramática pode ser encenada é porque ela pode representar-se a si mesma, por meio do diálogo teatral . O que significa que a personagem torna-se, para o público, tudo aquilo que ela diz.

 

A palavra torna-se personagem porque o diálogo dramático é incorporado por um ator cuja presença física e imediata possui semelhança com um “outro” de nós, que, assim como uma pessoa real, só conhecemos de modo fragmentário, por meio do que ela diz e faz (considerando que palavras e ações nem sempre se harmonizam). Por isso, a interpretação de uma personagem teatral pode ser variável de ator para o ator.

 

Também por isso, o efeito mimético teatral (de representar a realidade) é o mais intenso de todas as formas de criação literária. No teatro, a ilusão de realidade quase supera o efeito da realidade em si, não sendo raro que algum espectador confunda o ator com a personagem. Essa é a razão pela qual, no teatro grego antigo, os atores usavam máscaras (chamadas de personas), indicando a existência transitória (restrita ao palco) da personagem encenada. O ator “desaparecia” atrás da personagem, da máscara. Algumas personas são marcantes: a protagonista (personagem central da ação dramática), a antagonista (personagem que se opõe ao protagonista) e o coro (conjunto de atores que comentam a ação ao longo da peça).

 

Leitura 

Sófocles foi um poeta ateniense significativo para o momento em que viveu, pois elaborou muitas tragédias gregas, assim como Ésquilo e Eurípedes. Esses filósofos/dramaturgos elaboraram mais de 100 peças, dentre as quais destacamos Édipo Rei, Antígona e Electra. Tais obras são tão relevantes para o mundo ocidental que, ao final do século XIX, Sigmund Freud se valeu da tragédia de Édipo para elaborar uma das mais famosas teorias da psicanálise: o Complexo de Édipo. 

 

Na tragédia em que se baseou Freud, Laio, rei de Tebas, e sua esposa, Jocasta, tiveram um filho, Édipo e, como rezava o costume da época, foram saber o destino do jovem em um oráculo. Este, por sua vez, informou a Laio e Jocasta que o filho mataria o pai e casar-se-ia com a mãe. Temendo tanto sangue e luto, abandonam o filho em uma mata. Édipo é, então, adotado pelo rei de Corinto, que não conta ao filho a maneira como o encontrou. Já adulto, Édipo procura o oráculo, que lhe dita a mesma profecia; temendo matar o rei de Corinto, foge para Tebas e acaba cumprindo seu destino: mata Laio e casa-se com Jocasta. Quando a verdade vem à tona, Jocasta se mata e Édipo cega a si mesmo e parte para o exílio. 

 

Leia o seguinte diálogo entre Jocasta e Édipo. Na cena anterior, o irmão de Jocasta, Creonte, acusa Édipo de ter matado Laio. A acusação parte de uma consulta com um adivinho, também muito frequente naquela cultura: 

 

JOCASTA – Mas, pelos deuses, Édipo, dize-me: por que razão te levaste a tão forte cólera?

ÉDIPO – Vou dizer-te, minha mulher, porque te venero mais do que a todos os tebanos! Foi por causa de Creonte, e da trama que urdiu contra mim.

JOCASTA – Explica-me bem o que houve, para que eu veja se tuas palavras me convencem.

ÉDIPO – Ele presume que tenha sido eu o matador de Laio!

JOCASTA – Mas... descobriu ele isso, ou ouviu de alguém?

ÉDIPO – Ele insinuou isso a um adivinho, um simples impostor, porquanto ele próprio nada se atreve a afirmar.

JOCASTA – Ora, não te preocupes com o que dizes; ouve-me, e fica sabendo que nenhum mortal pode devassar o futuro. Vou dar-te já a prova do que afirmo. Um oráculo outrora foi enviado a Laio, não posso dizer se por Apolo em pessoa, mas por seus sacerdotes, talvez... O destino do rei seria o de morrer vítima do filho que nascesse de nosso casamento. No entanto — todo o mundo sabe e garante —, Laio pereceu assassinado por salteadores estrangeiros, numa encruzilhada de três caminhos. Quanto ao filho que tivemos, muitos anos antes, Laio amarrou-lhe as articulações dos pés, e ordenou que mãos estranhas o precipitassem numa montanha inacessível. Nessa ocasião, Apolo deixou de realizar o que predisse!... Nem o filho de Laio matou o pai, nem Laio veio a morrer vítima de um filho, morte horrenda, cuja perspectiva tanto o apavorava! Eis aí como as coisas se passam, conforme as profecias oraculares! Não te aflijas, pois; o que o deus julga que deve anunciar, ele revela pessoalmente!

 

Em Resumo

O gênero dramático abrange os textos literários destinados à representação. O drama teve sua origem nas festas em homenagem a Dionísio (Baco), por ocasião das vindimas (colheitas das uvas). Os rituais ao deus do vinho eram entoados em coral e, nele, destacava-se um ator principal, chamado corifeu. Os demais personagens do coro chamavam faunos e sátiros. 

 

Referências

CARDOSO, Zélia de Almeida. Literatura latina. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

LEHMANN, Hans-Thies. Teatro pós-dramático. São Paulo: Cosac-Naify, 2007.   

MOISÉS, Massaud. A criação literária: Prosa II. 18. ed. São Paulo: Cultrix, 1997.

ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. São Paulo: Editora Perspectiva, 1985.

STALLONI, Yves. Os gêneros literários. 3.ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2007. 

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