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Crise de 1929

A Crise de 1929, também chamada de Grande Depressão, foi a maior depressão econômica da história, tendo se iniciado em 1929 e se estendido até a campanha da Segunda Guerra Mundial. As principais características do período de recessão são as altas taxas de desemprego, grandes quedas do produto interno bruto (soma, em valores monetários, de todos os bens e serviços produzidos no país) de diversas nações, bem como quedas na produção industrial e no valor das ações nas bolsas de valores.

 

Popularmente, o marco inicial da Grande Depressão foi o dia 24 de outubro de 1929, mas os indícios da recessão já haviam se manifestado meses antes. Nos Estados Unidos, a produção industrial caía vertiginosamente desde julho, a queda no fornecimento de produtos fez com que as ações na bolsa de valores (Wall Street) tivessem seus valores drasticamente reduzidos. Na chamada Quinta-Feira Negra, milhares de acionistas literalmente perderam fortunas da noite para o dia. Se a recessão já era realidade, a quebra da bolsa de Nova York serviu para agravá-la ainda mais, e houve deflação (inverso da inflação, diminuição no preço dos produtos), fazendo com que os valores dos produtos chegassem a custar mais barato do que o custo de produção. Esse fato obrigou o fechamento de incontáveis empreendimentos comerciais e industriais, gerando um número crescente de desempregados. O colapso econômico continuou nas chamadas segunda-feira negra (dia 28) e terça-feira negra (dia 29).

 

Os efeitos da Grande Depressão foram sentidos no mundo inteiro. Tanto os efeitos como a intensidade dos mesmos variaram de uma nação para a outra. Dentre os que foram mais atingidos pela recessão, destacam-se os Estados Unidos, Alemanha, Países Baixos, Austrália, França, Itália, Reino Unido e, especialmente, o Canadá. Outras nações pouco industrializadas na época também foram duramente atingidas pela crise, como foi o caso da Argentina e do Brasil, apesar de que a depressão acelerou a industrialização desses dois países. Na União Soviética, país de orientação socialista, a crise não causou nenhum abalo, uma vez que a grande recessão foi causada exclusivamente por aspectos da política capitalista, como a especulação e a superprodução. 

 

O ápice da crise se deu no ano de 1933, quando o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt aprovou uma série de medidas para conter o avanço da recessão. A esse conjunto de ações, deu-se o nome de New Deal. Uma série de políticas econômicas baseadas nas teorias de Keynes foi adotada quase simultaneamente por Roosevelt nos Estados Unidos e por Hjalmar Schacht na Alemanha.

 

O New Deal, juntamente com programas de assistência social realizados em todos os estados norte-americanos, ajudou a minimizar os efeitos da crise nos anos seguintes. A partir de então, a maioria dos países atingidos pela crise pouco a pouco conseguiu se recuperar. Em alguns países, no entanto, a Depressão foi um dos fatores preponderantes para a ascensão de regimes totalitários, como o nazi-fascismo na Itália, na Alemanha e nos países ibéricos. O início da Segunda Guerra Mundial tem, portanto, ligação direta com a Grande Depressão. 

    

As causas da Recessão

O fim da Primeira Guerra abalou a economia mundial, uma vez que o conflito gerou uma série de demandas materiais, aquecendo a dinâmica econômica global. Com o fim da guerra, as economias europeias estavam em crise e houve uma forte retração no consumo de produtos. Como vimos no capítulo anterior, este é o momento em que os Estados Unidos emergem como principal potência capitalista, mostrando um crescimento vertiginoso de sua produção e economia, no chamado “american way of life” (modo de vida americano). Porém, a recuperação da economia europeia e as medidas protecionistas adotadas pelas nações recém-recuperadas da Primeira Guerra fizeram com que as empresas e indústrias norte-americanas mergulhassem numa grave crise de superprodução, levando à quebra da bolsa de Nova York. Esse fato gerou um “efeito dominó” e rapidamente se espalhou por todo o mundo capitalista, fazendo com que grandes fortunas fossem desfeitas da noite para o dia e deixando um rastro de desemprego e desespero. 

 

Durante anos, essa foi a teoria mais aceita para explicar as causas da Crise de 1929, todavia, pesquisadores têm defendido outras teses que têm sido bem recebidas pela comunidade acadêmica. A Grande Depressão permanece sendo um dos eventos mais intrigantes e estudados da economia mundial. Algumas teorias atribuem esse evento à decisão de Winston Churchill de fazer com que o Reino Unido passasse a usar novamente o padrão-ouro em 1925, o que fez com que houvesse maciça deflação ao longo do Império Britânico, levando ao colapso do comércio internacional. Nos Estados Unidos, o Congresso aprovou a Lei Smoot-Hawley, que criava altas barreiras tarifárias para proteger o mercado americano da concorrência estrangeira, aumentando os impostos de cerca de 20 mil produtos importados.

 

Uma das teorias mais aceitas entre economistas é de que a Grande Depressão não foi causada primariamente pela quebra das bolsas de valores de 1929. Ela alega que diversos sinais na economia norte-americana, nos meses, e mesmo anos, que precederam a Grande Depressão, já indicavam que esta Depressão já estava a caminho nos Estados Unidos e na Europa. Segundo o historiador e professor de economia no MIT, Peter Temin, a Grande Depressão foi causada por política monetária catastroficamente mal planejada pela Reserva Monetária dos Estados Unidos, nos anos que precederam a Grande Depressão. 

 

Outro aspecto que pode ser apontado como provável causa da Crise de 1929 é o da superprodução, causada pelos grandes ganhos na produtividade industrial, obtidos graças a tecnologias desenvolvidas e/ou aplicadas em sistemas como o fordismo e o taylorismo. Ford e Keynes haviam alertado sobre os perigos de uma crise de superprodução sem uma dada demanda para absorver ou redistribuir os produtos para serem consumidos. 

 

O cotidiano Durante a Crise

Durante a recessão, a pobreza e o desemprego se alastraram pelo mundo. Diante de tanta dificuldade, a população dos países afetados pela crise adotou um modo de vida em que produtos considerados supérfluos deveriam ser cortados do orçamento. Esse fator colaborava ainda mais para o agravamento da crise, por causa da diminuição do consumo. 

 

 

Por causa da crise, milhões de pessoas perderam seus postos de empregos, deixando uma grande quantidade de desempregados nas cidades. Sem fonte de sustento, essas pessoas não tinham condições de alimentar a si próprias nem suas famílias. Para piorar, a maioria desses trabalhadores morava em residências alugadas ou estava sendo paga através de prestações. Milhares de famílias foram eventualmente expulsas de seus lares por não terem como pagar os aluguéis ou as prestações de suas casas. Ademais, o cardápio familiar ficou restrito apenas a alguns gêneros alimentícios, o que fez com que a subnutrição atingisse boa parte da população. Milhares de pessoas foram mortas por causa da subnutrição. 

 

 

Algumas pessoas ou famílias inteiras optavam por se mudarem para a casa de parentes, quando eram destituídos de seus lares. Porém, a maioria das famílias se alocou em regiões periféricas. A paisagem urbana ficou repleta de moradias rústicas feitas com telas de metal, madeira, papelão, dentre outros materiais. As condições de vida nessas habitações eram precárias. 

 

 

Muitos produtores rurais, nos Estados Unidos, Canadá, Brasil, entre outros países, foram duramente atingidos pela crise. Muitos fazendeiros se endividaram e foram obrigados a cederem suas terras como pagamento. No caso dos Estados Unidos e do Canadá, houve grandes períodos de seca, invernos e pragas que agravaram ainda mais a crise. Diante de tal situação, muitas famílias se deslocaram da zona rural e tentaram a sorte nas cidades. 

 

Você Sabia?

Durante a crise, inúmeras favelas foram formadas nos Estados Unidos, as quais eram chamadas de Hoovervilles – em referência ao presidente Hoover.

 

 

Nem toda a população foi igualmente assolada pela Crise de 1929, mesmo nos países mais afetados pela recessão, muitas pessoas conseguiram manter seus empregos ou dispunham de uma poupança que lhes permitisse manter um padrão confortável de vida. Muitos trabalhadores sofreram grandes cortes em seus salários; todavia, a deflação fez com que os preços dos produtos caíssem brutalmente, dando uma compensação. 

 

O Brasil na Crise

A economia brasileira foi duramente abalada pela crise, já que em 1929 o país dependia fundamentalmente da exportação de um produto agrícola, o café. A crise de superprodução mundial provocou mudanças importantes no país, econômicas, sociais e políticas, inclusive acabando com um pacto político interno que já se arrastava por cerca de três décadas, a política do café-com-leite. Nesta política, os estados de São Paulo (grande produtor de café) e Minas Gerais (grande produtor de leite) revezavam-se no poder, alternando seus representantes no governo federal, ou seja, se em uma eleição o presidente eleito era de São Paulo, na seguinte seria de Minas Gerais, e vice-versa.

 

Entre 1894 e 1930, a república brasileira foi governada por paulistas barões do café num mandato, e no outro por pecuaristas mineiros. Essa hegemonia política era garantida, sobretudo pela oligarquia cafeeira de São Paulo, que garantiu a formação de uma economia essencialmente agrícola, baseada na monocultura de exportação: o chamado plantation

 

Em 1929, o Brasil possuía uma enorme dívida externa, que deveria ser paga, sobretudo, com a exportação de café. Além da queda nos preços, a recessão provocou uma enorme queda na venda do café. O valor da saca de café caiu 90%, chegando a estar muito mais barata do que o seu custo de produção. 

 

Saiba Mais!

Saiba mais sobre a crise de 1929 através dos filmes:

 

  • Loucura americana, Frank Capra (1932). 
 
  • Our daily bread, King Vidor (1934). 
 
  • As vinhas da ira, John Ford (1940). 

 

Na tentativa de conter a queda dos preços, o governo federal adquiriu e incinerou 80 milhões de sacas de café. A medida consistia em evitar que houvesse uma grande oferta de café no mercado, para controlar o valor do produto, mas, também, para livrar a oligarquia cafeeira de maiores prejuízos. 

 

A crise foi fundamental para o desvio do foco do poder para que Getúlio Vargas iniciasse um processo de industrialização do país. Embora defendesse a cafeicultura, com políticas de equilíbrio de preços e proteção contra a superprodução, ele introduziu uma série de políticas protecionistas e estimulou a criação de indústrias, aumentando consideravelmente a contribuição das indústrias na economia brasileira. 

 

Em Resumo

Neste tópico vimos:

 

  • Esboço histórico sobre os principais aspectos que levaram à eclosão da Grande Depressão de 1929 e suas principais consequências no mundo capitalista.  
 
  • Discussão sobre as diversas interpretações das possíveis causas ou aspectos que contribuíram para causar a recessão econômica.
 
  • Descrição de como a população dos países atingidos sentiu a crise.
 
  • Exposição dos efeitos políticos, econômicos e sociais da crise de 1929 no Brasil.
 

Referências

POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. Editora Campus, 1980.

SHERWOOD, Robert E. Roosevelt e Hopkins: uma história da Segunda Guerra Mundial. Nova Fronteira, 1998.

LIMONCIC, Flávio. Os inventores do New Deal. Civilização Brasileira, 2009.

TEMIN, P. WIGMORE, B. A. The end of one big deflation. Explorations in Economic History, n. 27, p. 483-502, 1990.

 
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