Texto: Cruz e Souza

Cruz e Souza

Abordaremos os aspectos fundantes da poética de Cruz e Sousa, seus principais temas e obras. Entendamos, portanto, as razões que fizeram com que poeta recebesse a alcunha de cisne negro ou Dante negro.  
 
 

A Poética de Cruz e Sousa 

Cruz e Souza, assim como Alphonsus de Guimarães, foi um poeta pouco conhecido em seu tempo. A despeito disso, a história soube redimi-lo e reconhecer nele uma das grandes vozes da poesia em língua portuguesa. Em um país regido pela miscigenação étnica e cultural, o poeta negro catarinense sofreu todos os preconceitos econômicos e sociais. Sua maestria foi somente reconhecida postumamente, conforme afirma Sílvio Romero, estudioso da literatura brasileira:
 
 
Este é o caso único de um negro, um negro puro, verdadeiramente superior no desenvolvimento da cultura brasileira. Mestiços notáveis temos tido muitos; negros não, só ele; porque Luis Gama, por exemplo, nem tinha grande talento, nem era negro pur sangue. Assim outros. Sofreu terríveis agrores de sua posição de preto e de pobre, desprotegido e certamente desprezado. Mas a sua alma cândida e seu peregrino talento deixaram sulco bem forte na poesia nacional. Morreu muito moço, em 1898, quase ao findar deste século, e nele acha-se o ponto culminante da lírica brasileira após quatrocentos anos de existência. Fazemos votos para que lhe sejam publicados os inéditos e lido e estudado este nobre e vigoroso artista. (ROMERO, 1949, p. 333).
 
 
 
Esse autor fez versos musicais em que manejava habilmente os decassílabos e alexandrinos, assim como as redondilhas maiores, mas soube também desconstruir em prol da musicalidade, da imagem, do sentido, do ícone, que tomou outra acepção na poesia brasileira depois de sua obra; Cruz e Souza antecipou tendências que se fariam presentes no Modernismo. Tratou da questão da humilhação negra de forma madura e singular, mas, em seus temas recorrentes, veem-se as metáforas coloridas e musicais trespassarem o amor, o sexo, a sublimação da angústia sexual, a morte, o escapismo, a loucura, a transcendência e o misticismo. 
 
 
Esse tom pode levar alguns leitores a estabelecer fortes ligações entre o poeta simbolista e a poesia elaborada por Álvares de Azevedo, porém o abismo que separa essas duas formas poéticas corresponde ao tratamento dado à figura feminina. No poeta da segunda geração romântica, essa imagem se faz por meio de uma frustração melancólica amorosa e sexual; no simbolista, ela transborda o contato físico, a cumplicidade erótica, o gozo, a realização sexual e/ou amorosa, realizada ou não.
 
 
Portanto, uma característica importante deste poeta diz respeito à transfiguração, palavra retirada da obra do autor, que corresponde a um processo psicológico relacionado a uma ânsia em sublimar, próprio do poeta simbolista. Outra questão diz respeito à melancolia, que acaba sendo manifestada em sua poesia, até mesmo devido ao preconceito racial e às catástrofes que sofreu no decurso de sua existência. 
 
 
Considerando essas questões, a temática da angústia sexual aparecerá na obra do poeta mediante a personagem latina Lésbia. O lirismo amoroso permeado pela sexualidade e o erotismo podem ser vistos no poema que leva o nome da personagem em questão. Observe: 
 
 
Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
planta mortal, carnívora, sangrenta,
da tua carne báquica rebenta
a vermelha explosão de um sangue vivo.
 
Nesse lábio mordente e convulsivo,
ri, ri, risadas de expressão violenta
o Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
a morte, o espasmo gélido, aflitivo...
 
Lésbia nervosa, fascinante e doente,
cruel e demoníaca serpente
das flamejantes atrações do gozo.
 
Dos teus seios acídulos, amargos,
fluem capros aromas e os letargos,
os ópios de um luar tuberculose... 
 
 
Primeiramente, é importante destacar o lugar histórico de Lésbia.  Conforme os estudos clássicos, na Antiguidade, este foi o pseudônimo dado à Clódia, amante do poeta Catulo, que admirava a poetisa grega da ilha de Lesbos, Safo. Esta poetisa, nascida por volta de 612 a.C., teria tido grande participação política na Grécia, bem como um notável desempenho intelectual, o que lhe garantiu o posto de décima musa. Os dados de sua morte também não são precisos e perspassam o aspecto mitológico, visto que sua obra foi censurada durante a Idade Média por conter aspectos eróticos tematizados. Acredita-se em duas possibilidades: a poetisa teria se suicidado em um penhasco, após não ter seu amor não correspondido pelo marinheiro Faón, ou ela teria simplismente falecido após atingir a velhice. O importante é que a grega, a escola de Lesbos e sua relação com a paixão foram o mote para o poeta falar de seu amor por Clódia.
 
 
Retomando a história afetiva de Catulo, é possível que essa relação tenha se iniciado por volta de 61-60 a.C., em Verona, quando o marido de Clódia, Quintus Metellus Celer, fora governador da Gália Cisalpina. Após a morte do marido, a viúva abandona o amante por outro patrício, Rufo. Essa é uma das razões que faz com que o poeta suspeite de ter sido a ex-amante a responsável pela morte do marido, é também motivo da desilusão com Rufo, seu antigo amigo. O fato é que a lírica catuliana influenciou todas as gerações ocidentais que se propuseram a glorificar o amor, a mulher e a poesia.
 
 
Desse recorte de mais de 2000 anos é que se presentifica a figura de Lésbia no soneto de Cruz e Souza. Pode-se identificar a manifestação de resquícios naturalistas (“Cróton selvagem, tinhorão lascivo”), pois manifesta a angústia sexual nos primeiros versos. No entanto, o texto evidencia um processo de contração e depuração sobre a concepção de amor e de morte, posta na sequência: “o Amor, trágico e triste, e passa, lenta, /a morte, o espasmo gélido, aflitivo...”). Outra análise interessante e complementar a essa corresponde à realizada por Camilo Cavalcanti no artigo Cruz e Souza: orgia das diafaneidades (2007, p.80-81). Segundo o pesquisador,
 
 
A imagem da carne e do sangue contornando a luxúria já é tópos conhecido, e muito antigo: herança possivelmente bíblica nos costumes do Ocidente. No poema, as contrações caracterizam o corpo feminino quando dominado pela lascívia, por isso “a vermelha explosão de sangue vivo”. A imagem poética é hiperbólica e metafórica, evidentemente; por isso abre duas hipóteses de leitura não excludentes: a) talvez se trate de uma implosão, porque o sangue explode dentro do corpo, sendo mais uma erupção subcutânea do que propriamente; b) uma explosão, que resultaria, em última análise, a hemorragia, com possível alusão à menstruação, pelo menos para ratificar a leitura; mesmo nessa hipótese, o sangue teria de, em princípio, amalgamar-se interiormente (primeira hipótese), para depois culminar em erupção ou, no soneto, “explosão”. Note-se que o sujeito lírico identifica “Lésbia” como “cruel e demoníaca serpente”, ambicionando igualar-se a ela, à procura de integração nesse entusiasmo cósmico, na “Lubricidade”, soneto em que reaparece essa mesma “carne báquica”.
 
 
Assim como no poema tomado para estudo, vê-se em toda a lírica amorosa de Cruz e Souza o ritual da sedução do amor, pintado nas cores simbolistas. Além da questão subjetiva, própria da matéria da poesia simbolista, o poeta também se atentou para a questão do homem negro. Para Tasso da Silveira (1997),
 
 
(...) É o negro ferido pelo desprezo do branco, e hostilizado, esmagado pelo orgulho do branco, impelido pelo branco a uma vida de aflição e miséria, e, no entanto, tomado de insofreável paixão pelo branco, pela mulher branca, sobretudo, que ergue os primeiros dolorosos clamores da poesia de Cruz, e procede às misteriosas transmutações que lhe transformam o mundo numa fulguração imensa, e inatingível, de gloriosas brancuras.
 
 
Diante do exposto, verifica-se a presença da temática racial nos poemas de Cruz e Sousa e sua dor frente ao drama inerente à sua cor. Entende-se que o poeta fez uma abordagem significativa sobre sua condição de homem negro e de cidadão preocupado com a situação social dos negros, dos pobres em relação ao homem branco. Diante disso, considerando tanto os aspectos estilísticos do simbolismo quanto a necessidade de engajamento de Cruz e Souza, pode-se realizar uma leitura mais profunda da obra poética do primeiro poeta efetivamente negro dessas terras brasileiras. Essas questões podem ser observadas no poema intitulado Livre:
 

Livre! Ser livre da matéria escrava,
Arrancar os grilhões que nos flagelam
E livre penetrar nos Dons que selam
E alma e lhe emprestam toda a etérea lava.
 
 
Livre da humana, da terrestre bava
Dos corações daninhos que regelam,
Quando os nossos sentidos se rebelam,
Contra a infâmia bifronte que deprava.
 
 
Livre! Bem livre para andar mais puro,
Mais junto à Natureza e mais seguro
Do seu Amor, de todas as justiças. 
 
 
Livre! Para sentir a Natureza,
Para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.
 
 

Atenção!

João da Cruz e Sousa nasceu em Desterro, atual Florianópolis em 24 de novembro de 1861. Seus pais eram escravos e foram libertos pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa, que tutelou o poeta até a adolescência. Em vista disso, recebeu educação exemplar no Liceu de Santa Catarina, bem como o sobrenome do ex-patrão, uma demonstração de afeto do Marechal para com os pais do poeta. Entretanto, com a morte de seu protetor, precisou deixar os estudos, iniciando sua atividade na imprensa catarinense, elaborando crônicas abolicionistas. Aliás, toda sua produção, enquanto esteve em Santa Catarina, abordou o preconceito racial de que fora vítima, o que, inclusive, o impediu de assumir o cargo de Promotor de Laguna para o qual fora nomeado. Em 1890, mudou-se para o Rio de Janeiro, colaborando na Folha Popular e constituindo, junto a Lopes e Oscar Rosas, o primeiro grupo simbolista. Em 1893, Cruz e Sousa publica Missal e Broquéis, consideradas obras inaugurais do Simbolismo no Brasil. 
A vida familiar do poeta influenciou significativamente a elaboração de um poema intimista. Casou-se com a negra Gavita, cuja sanidade mental revelou-se frágil no decorrer do tempo. Tiveram quatro filhos, porém, dois faleceram acometidos pela tuberculose, fato que culminou no enlouquecimento da esposa em 1896. Cruz e Sousa foi o responsável pelos cuidados da esposa na própria casa. Esses fatos foram o mote de muitos de seus poemas.
No ano seguinte, o poeta retirou-se para um sítio, em Minas Gerais, à procura de um clima melhor, busca que se deve ao contágio pela Tuberculose. Faleceu aos 36 anos de idade. 
 
 

Você Sabia?

Cruz e Sousa, nascido em Florianópolis, inspirou, no Rio de Janeiro, os poetas fundadores da Revista Rosa Cruz do Brasil: Saturnino de Meireles, entre eles, C.D Fernandes, Castro Meneses, Rocha Pombo. O Paraná sediou grupos, dos quais participava Emiliano Perneta, reunindo jovens em torno de rodas literárias onde discutiam o sentido da vida, a angústia, a existência de valores transcendentes e a morte como dissipadora de tudo. Essas rodas literárias espalharam-se pelo Rio Grande do Sul, por São Paulo, Minas e Bahia, revelando a necessidade da juventude de explorar seu universo interior, mesmo que formado de sonhos, divagações, contradições e dúvidas não respondidas. A ânsia de explorar “o Tudo e o Nada” encontrou na poesia sua melhor forma de manifestação, sendo que as palavras e suas combinações foram igualmente exploradas em suas possibilidades sonoras, de evocação de cores e perfumes.
 
 
 
 

Saiba Mais!

Após muitas contendas em sua terra natal, o Palácio Rosado, antiga sede do governo do estado catarinense, foi nomeado Palácio Cruz e Sousa. Localizado no centro histórico de Florianópolis, a antiga sede recebeu personalidades que marcaram a história de nosso país, tais como D. Pedro I, D. Pedro II e Visconde de Taunay. O local também foi referência de alguns episódios dramáticos de nossa história, como a Revolução Federalista, em 1891, e a novembrada, como ficaram conhecidas as inúmeras manifestações contra a ditadura militar de 1979. 
 
 
O palácio somente passou a ter o nome do poeta no ano de 1979; somente em 2007 os restos mortais do poeta foram então acolhidos no palácio. 
 
Atualmente, é possível conhecer detalhes biográficos do poeta no local, bem como visitar as salas de arte e os eventos artísticos ali realizados. 
 
 

Leitura

Algumas canções contemporâneas possuem traços da obra simbolista. Observe a letra da música Trem das Cores, de Caetano Veloso:
 
A franja na encosta
Cor de laranja
Capim rosa chá
O mel desses olhos luz
Mel de cor ímpar
 
O ouro ainda não bem verde da serra
A prata do trem
A lua e a estrela
Anel de turquesa
 
Os átomos todos dançam
Madruga
Reluz neblina
Crianças cor de romã
Entram no vagão
 
O oliva da nuvem chumbo
Ficando
Pra trás da manhã
E a seda azul do papel
Que envolve a maçã
 
As casas tão verde e rosa
Que vão passando ao nos ver passar
Os dois lados da janela
E aquela num tom de azul
Quase inexistente, azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar
 
Teu cabelo preto
Explícito objeto
Castanhos lábios
Ou pra ser exato
Lábios cor de açaí
 
E aqui, trem das cores
Sábios projetos:
Tocar na central
E o céu de um azul
Celeste celestial
 

 

Em Resumo

Cruz e Sousa é considerado um dos mestres do simbolismo no Brasil, iniciando a estética no país por meio das obras Missau e Broquéis. Sofreu muitos contratempos afetivos e sociais que marcaram a sua poesia. É considerado o maior poeta negro de nossa literatura, chamado por muitos de cisne negro ou Dante negro. Sua obra apresenta uma evolução importante por ter abandonado o subjetivismo e as angústias propostas pela estética simbolista e, assim, ter assumido ares universalizantes. O mesmo acontece em relação ao tema da liberdade; ele inicia discutindo a dor e o sofrimento do homem negro e, em seguida, passa a discutir essas problemáticas de maneira universal, ou seja, problemas enfrentados por todo ser humano. É importante notar que a sublimação, a anulação e a libertação da matéria somente poderiam ser obtidas mediante a morte. O erotismo e a angústia sexual também são temáticas importantes para o poeta. 
 
 

Referências

BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1983.
CAVALCANTI, C. Cruz e Souza: orgia das diafaneidades. Revista de Língua e Literatura. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie. v. 1, n. 1, 2007. 
HAUSER, A. História social da arte e da cultura. v. IV. Lisboa: Estante editora, 1964.
PERRY, M. Civilização Ocidental: uma história concisa. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 
ROMERO, S. História da Literatura Brasileira. v. 5, 4ª ed.. José Olímpio, 1949.
SOUSA, C. e. Poesias completas: broqueis, faróis, últimos sonetos.  Introdução de Tasso da Silveira. São Paulo: Publifolha, 1997.
 
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