Texto: Conceito de Ficção

Conceito de Ficção

Passearemos, agora, sobre um dos conceitos relevantes para o entendimento da literatura, bem como das demais expressões artísticas: o conceito de ficção.  

 

 

Um Olhar sobre o Conceito de Ficção 

 

A ficção — ideologicamente determinada pela sociedade na qual o ser humano desenvolve suas ações, consoante os propósitos vigentes no período histórico em que vive — entremeia-se à realidade e toma forma nas diversas artes, com a tentativa de refletir os questionamentos do/sobre homem. Quando este “procura” a ficção para, aparentemente, devanear, percebe-se que, através do “jogo” com a fantasia, ele passa a analisar  seu comportamento e o da sociedade que o cerca, tentando rever/direcionar conceitos, dogmas, ou mesmo a conduta tomada perante fatos cotidianos:

 

E, assim, é fácil entender por que a ficção nos fascina tanto. Ela nos proporciona a oportunidade de utilizar infinitamente nossas faculdades para perceber o mundo e reconstituir o passado. A ficção tem a mesma função dos jogos. Brincando, as crianças aprendem a viver, porque simulam situações em que poderão se encontrar como adultos. E é por meio da ficção que nós, adultos, exercitamos nossa capacidade de estruturar nossa experiência passada e presente. 

(ECO, 1994, p.137).

 

Entretanto, no intuito de perceber a função e o valor da ficção para o ser humano, observa-se a necessidade de conceituar a arte, visto que ela pode ser considerada como o veículo em que a ficção chega até o homem. A arte é a recriação da realidade sob um ponto de vista específico — o do artista — com o objetivo de despertar no seu público questionamentos sociais, culturais ou emoções — sejam elas as mais diversas. Dentre os vários tipos de arte tem-se a pintura, a escultura, a literatura, a dança, o cinema, a música — essas são apenas alguns tipos de manifestações artísticas —, cada qual se valendo de uma linguagem específica para alcançar sua finalidade.

 

Seria uma “vontade de verdade”: a ficção parte da verossimilhança, da similitude com o real. Diferentes filósofos, críticos literários, historiadores e sociólogos buscaram construir enunciados que explicassem a significação sobre a verdade. O que torna relevante nesse fato é saber que, desde Platão, a partir de sua concepção sobre os universais, passando por diferentes pensadores de nossa história, caminhando em nosso tempo por meio das reações de Nietzsche às propostas filosóficas concernentes à verdade de até então, encontrando a era contemporânea em que vivemos, discutimos sobre esse conceito, suas múltiplas faces e os enunciados sobre ela a serem (re)construídos amiúde. Dessa maneira, finalizamos concordando com Saer (2012), quando esclarece que:

 

A ficção não é, portanto, uma reivindicação do falso. Mesmo aquelas ficções que incorporam o falso de um modo deliberado – fontes falsas, atribuições falsas, confusão de dados históricos com dados imaginários etc. –, o fazem não para confundir o leitor, mas para assinalar o caráter duplo da ficção que mistura, de uma forma inevitável, o empírico e o imaginário. [...] O paradoxo típico da ficção reside em que, se recorre ao falso, o faz para aumentar sua credibilidade. A massa disforme do empírico e do imaginário, que outros têm a ilusão de separar em partes de verdade e falsidade, não deixa ao autor de ficção mais do que uma possibilidade: a de submergir-se nela. Daí, talvez, a frase de Wolfgang Kayser: “Não basta sentir-se atraído por esse ato; também é preciso ter a coragem de levá-lo adiante”. 

 

No entanto, a ficção não pede para ser crível enquanto verdade, e, sim, enquanto ficção. Esse desejo não é um capricho de artista, mas a condição primeira de sua existência, porque somente sendo aceita como tal é que se compreenderá que a ficção não é a exposição romanceada de tal ou qual ideologia, e, sim, um tratamento específico do mundo, inseparável da matéria de que trata. Este é o ponto essencial de todo o problema e há que tê-lo sempre presente caso se queira evitar a confusão de gêneros. A ficção se mantém à distância tanto dos profetas do verdadeiro quanto dos eufóricos do falso. 

 

Atenção!

A concepção sobre os universais em Platão é fundamental para o mundo ocidental. Em linhas gerais, o filósofo aprofunda o conceito de verdade mostrado, pela primeira vez ao mundo Ocidental, em Sócrates. Assim, na doutrina platônica das ideias universais reais admite-se a existência de modelos arquétipos (ou universais metafísicos), os quais não seriam apenas essências ideais, mas reais dos objetos considerados moldados tal qual o ideal. Essas cópias são imperfeitas e fugazes, restando à verdade seu referencial de imitação. Pesquise e discuta em que medida essa questão pode ser relacionada ao conceito de ficção. 

 

Você Sabia?

Segundo Nietzsche, a verdade e a falsidade não mais existem; o homem está destinado à multiplicidade, pois tudo é interpretação. Como toda interpretação é perspectivista, isto é, relativa a certo nível de potência, o bem e o mal seriam relativos, válidos para as relações de poder estabelecidas. Desse modo, os valores estariam para além da moral, pois seriam compostos pelas relações de poder estabelecidas entre os seres humanos. Assim, suas afirmações devem ser tomadas como um “instrumento” que serve para demarcar as possíveis interpretações de mundo, e não como uma verdade.

 

(OLIVEIRA, C. G. M. de. Nietzsche: conceito de vida. Disponível em <http://www.filosofiavirtual.pro.br/vidanietzsche.htm>. Acesso em 14 de jul. de 2007.)

 

Leitura!

“Mais estranho que a ficção”, filme dirigido por Marc Forster e lançado em 2006, pode ser uma forma interessante de entender a relação entre a ficção e a literatura. O filme narra a história de Harold Crick (Will Ferrell), um funcionário da Receita Federal, que, em uma manhã, passa a ouvir seus pensamentos como se fossem narrados por uma voz feminina, acontecendo também a narração de seus mais íntimos sentimentos, bem como a enunciação de atos importantes. Essa sensação intensifica-se quando ele percebe que está prestes a morrer, fato que o leva a tentar deslindar os limites entre a realidade e a ficção.  

 

 

Em Resumo

A ficção utiliza da realidade para elaborar pontos de identificação imediata com o público, que apreciará determinada obra de arte. Assim, essa similitude com a verdade, com o real, viabiliza ao homem identificar no texto lido, na obra assistida, entre outros, o seu mundo com aquele hipotetizado, buscando caminhos outros para a vida em sociedade.

 

Referências

ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 

JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 1977.

SAER, Juan José. O conceito de ficção. Revista Fronteira Z, São Paulo, n. 8, julho de 2012. 

 
Já é cadastrado? Faça o Login!