Texto: Sociedade Sem Classes

Sociedade Sem Classes

Há um pressuposto bastante difundido nas ciências sociais, segundo o qual as diferenças econômicas servem de base para a existência dos distintos grupos sociopolíticos. Geralmente, essas análises consideram que as sociedades sem classes seriam a primeira forma de organização social da humanidade. Por conseguinte, essas abordagens tratam da sociedade sem classes para explicar o surgimento de outros tipos de vida social, ou ao menos as razões da existência marginal desse padrão associativo em relação às sociedades com divisões socioeconômicas. Nesse sentido, quase sempre indica-se alguma insuficiência presente nessa forma de viver que levaria a sua autossupressão ao longo do tempo. 

 

 

Decerto, existem sociedades atuais com divisões socioeconômicas, mas em cujo passado remoto as classes sociais não eram existentes. Com isso, o tipo de vida social vigente hoje em dia é o resultado de uma verdadeira mutação dos vínculos humanos. Todavia, isso não implica que esse tipo de modificação deva ocorrer em todos os casos.

 

Isso posto, há que se responder ao menos duas questões: será que existe realmente uma lacuna nesse tipo de organização social que reclama sua supressão ao longo do tempo? Será que esse tipo de vida social dispõe de elementos capazes de articular satisfatoriamente a vida social? Nas próximas páginas, tentaremos responder a essas questões.

 

A Antropologia Política: Parentesco e a Abordagem das Sociedades Sem Classe

Foi preciso aguardar o ano de 1940 para a construção de fundamentos empíricos e teóricos capazes de lidar com essas questões. Nessa data, os antropólogos Meyer Fortes e Edward Evan Evans-Pritchard organizaram um livro intitulado Sistemas políticos africanos. Essa obra reuniu vários colaboradores, todos com trabalhos etnográficos desenvolvidos em sociedades africanas, visando construir um painel comparativo dos tipos de sistemas políticos existentes no continente.

 

A apresentação da obra, escrita por Fortes e Evans-Pritchard, tornou-se uma referência clássica para a antropologia política. Nesse texto, os autores empreendem a primeira classificação dos sistemas políticos presentas na África, os quais seriam de dois tipos: haveria, de um lado, as sociedades com Estado e, de outro lado, aquelas sem Estado. Em suma, seria a presença ou a ausência da instituição estatal que demarcaria a singularidade dos tipos políticos dessas sociedades. 

 

 

Ao descrever as características de cada tipo de sociedade, eles apontaram que aquelas com Estado dispõem de divisões internas de riqueza, privilégio e status, as quais fundamentam a distribuição de poder e de autoridade. Já nas sociedades sem Estado, esses tipos de distinção social seriam inexistentes e, por conseguinte, elas acionariam outros meios para dar consistência aos grupos humanos. Fortes e Evans-Pritchard, apoiados nos dados empíricos obtidos pelos autores que colaboraram nessa obra, indicam que seria o sistema de parentesco que forneceria os códigos sobre os quais as unidades sociais se fundamentariam. 

 

 

Tendo isso vista, os estudos posteriores debruçaram-se sobre os grupos formados pelo parentesco (parentelas, clãs, linhagens, etc.) e sobre como eles atuariam na constituição de várias sociedades do mundo.

 

Como já foi indicado no tópico 4, do quarto módulo do primeiro ano, a obra de Radcliffe-Brown mostrou que o sistema de parentesco pode servir de base para as relações sociais. Retomemos alguns aspectos da obra desse autor.

 

A aplicação dos termos de parentesco indica quais são as pessoas que nós devemos considerar parentes consanguíneos. Tal processo, por si só, já implica na definição de uma série de obrigações e direitos de parte a parte. Um dos princípios mais importantes nesse processo é a definição de qual grupo de parentes será verdadeiramente consanguíneo: ou os paternos, ou os maternos.

 

 

Mesmo na sociedade brasileira, cujo sistema não diferencia formalmente nenhuma das duas parentelas, há uma prerrogativa dos parentes paternos sobre os maternos. Assim, a criança é ensinada a chamar de tios tanto os irmãos de sua mãe quanto os de seu pai, criando uma série de obrigações semelhantes para com os dois grupos. Todavia, o sistema de nominação brasileiro tem uma tendência patrilateral, pois somente os filhos homens levam o nome de família para seus filhos por duas gerações ou mais. Quanto às filhas, elas carregam o nome de seu pai e de sua mãe, mas ao se casarem assumirão o sobrenome do marido, assim como seus filhos.

 

Assim, o sistema de parentesco vale-se de alguns poucos princípios - com destaque para as noções de gênero (masculino ou feminino) e de geração (a mesma, ascendente, descendente) - para a definição da conformação dos grupos humanos, bem como das obrigações e direitos que unem as pessoas de tais grupos.

 

A Troca Como Fundamento da Vida Social

Vale notar que tais unidades não podem se reproduzir de modo independente, mas precisam entrar em acordo com outros grupos similares, visando tanto a reprodução da espécie humana quanto das unidades parentais. Decorre daí a descoberta da importância da aliança para a reprodução das unidades familiares. De fato, trata-se da existência de uma série de dons e contradons, ofertados na forma do presente voluntário e fortuito, mas no fundo estritamente obrigatório. Coube a Marcel Mauss sublinhar a importância da troca na vida social, mas foi Claude Lévi-Strauss quem indicou a existência de um sistema de trocas envolvendo bens, palavras e pessoas como o fundamento de todas as sociedades humanas. 

 

 

As normas de uma sociedade podem determinar que cada elemento acima mencionado dispõe de um circuito próprio - como ocorre no capitalismo, no qual a circulação dos bens é regida pela lógica econômica própria. Todavia, isso não quer dizer que as trocas fiquem restritas a esse campo exclusivo. Assim, quando alguém ganha de presente um bem material, a pessoa geralmente retribui tal gesto com uma mensagem cordial, antes de dar outro presente em troca – muitas vezes outro bem, que não pode ser idêntico, mas tem de ser equivalente, em meio à oferta de um rito/festa especialmente preparado com esse objetivo.

 

Sendo assim, as operações postas em marcha pela troca permitiriam a reprodução das unidades existentes nas sociedades sem classe. Detalhe: para haver troca matrimonial, primeiro as famílias têm que existir enquanto tais. Decorre daí que não existe sociedade completamente amorfa. Todas têm de contar com grupos parentais e com uma série de normas que prescrevem quais seriam as operações por meio das quais o entendimento das pessoas se instaura.

 

 

O Conflito e seu Papel na Criação das Unidades Sociais

Na década de 1960, a obra de Pierre Clastres procura mudar o foco de análise. Pierre Clastres critica as abordagens consagradas às sociedades sem classe/Estado, pois elas partiriam do princípio de que falta algo a esse tipo de sociedade. Até mesmo a nomenclatura evidenciaria tal fato: seriam sociedades sem Estado, marcada pela falta de uma instituição capaz de lhes dotar de uma estrutura perene. Com isso, Clastres se interroga: será que existe algo que define essas sociedades positivamente?

 

 

Para Pierre Clastres, haveria um mecanismo de violência que seria capaz de instituir positivamente as unidades sociais desses povos. Segundo ele, tais formações sociais estariam inteiramente devotadas à guerra e isso traria um efeito em sua organização social: as unidades sociais nunca seriam perenes, mas sempre estariam prestes a se desmanchar e reconstruir.

 

A falta de grupos e instituições perenes seria a marca característica dessas sociedades, expulsando o risco de centralização do poder político ao redor de uma pessoa ou grupo. Com isso, essa modalidade de organização social seria mais bem descrita como sendo contra o Estado, por esconjurar de antemão a possibilidade da formação desse tipo de instituição. Segundo Clastres, seria a unificação do poder político que levaria à desigualdade econômica e à consequente mutação da sociedade primitiva numa sociedade estatal - isto é, no segundo tipo de sociedade encontrada por Fortes e Evans-Pritchard em 1940. 

 

Saiba Mais!

texto a seguir sistematiza alguns estudos feitos para mensurar a eficácia das atividades econômicas de povos caçadores e coletores. O autor escolhe propositalmente povos que vivem em ambientes inóspitos, como desertos, e conclui que essas populações vivem razoavelmente bem, produzindo até algum excedente para os padrões que elas se impuseram.

 

A primeira sociedade da afluência

Marshal Sahlins

 

As necessidades do povo são facilmente satisfeitas na esfera dos bens não alimentares. Em parte, tal abundância material depende da facilidade de produção e, em parte, da simplicidade da tecnologia e da democracia da propriedade. […]

 

Pode-se [
] dizer que os caçadores e coletores trabalham menos do que nós; e mais do que trabalho contínuo, a coleta de alimentos é intermitente, o descanso abundante; e existe maior quantidade de sono no tempo diário per capita/anual, do que em qualquer outra condição social […]

 

A alimentação diária per capita produzida pelos bosquímanos dobe era de 2,140 calorias. Entretanto, levando em consideração o peso do corpo, as necessidades habituais e a composição por sexo e idade da população dobe, Lee estima que tal população exigia somente 1.975 calorias per capita. Provavelmente, parte do excedente em alimentos era dado aos cachorros […]

 

Os caçadores e coletores possuem a força de suas fraquezas. Movimento e limitação periódicos na riqueza e na população são ao mesmo tempo imperativos da prática econômica e das adaptações criativas. São, de qualquer modo, necessidades transformadas em virtudes. Mobilidade e moderação colocam os fins dos caçadores dentro dos limites de seus meios técnicos. Portanto, um modo de produção fundado em técnicas rudimentares pode ter um alto rendimento. A vida do caçador não é tão difícil quanto parece vista de fora. 

 

Fonte: SAHLINS, Marshall. A primeira sociedade da afluência. In: CARVALHO, Edgard de Assis (Org.). Antropologia econômica. Livraria Editora Ciências Humanas, 1978, p. 16, 20, 28, e 39

 

Em Resumo 

Este tópico tratou das sociedades cujas unidades sociais são formadas sem que haja uma desigualdade econômica. Mostrou-se como o parentesco dá forma a essas sociedades, tanto pelo estabelecimento de linhagens, como pela necessidade de aliar os grupos parentais, pela troca de bens, mensagens e pessoas. Por último, buscou-se indicar como a guerra e os conflitos também podem atuar na construção das unidades sociais.

 

Referências

CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. 5. ed. Tradução de Theo Santiago. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.

______. Arqueologia da violência. São Paulo: Cosac & Naif, 2004.

FORTES, Meyer; EVANS-PRITCHARD, E. E. Sistemas políticos africanos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 1981.

LÉVI-STRAUSS, Claude. O princípio da reciprocidade. In: As estruturas antropológicas do parentesco. Trad. de Mariano Ferreira. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1976.

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. In: Sociologia e Antropologia. Tradução de Paulo Neves, São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 185-314. 

RADCLIFFE-BROWN, A. R. Estrutura e função na sociedade primitiva. Petrópolis: Vozes, 1973.

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