Texto: Santo Agostinho

Santo Agostinho

Nascido em 357 depois de Cristo, Agostinho escreveu importantes obras para a Filosofia. Dentre elas, destaca-se suas Confissões e a Cidade de Deus. Profundamente influenciado pelo platonismo, esse filósofo buscava conciliar a fé e a razão. Apesar de não parecer, antes de se converter ao cristianismo, Agostinho passou por vários caminhos: do maniqueísmo ao ceticismo. Enfim, encontrou na Igreja Católica as respostas que tanto procurava. 

 

Além de filósofo, Agostinho se destacou por ser um excelente escritor. Sua literatura encantou várias gerações e até hoje é motivo de alegria de muitos leitores. 

 

Contexto Histórico

Agostinho viveu num tempo em que o Império Romano desfacelava-se. A queda de Roma é um marco do fim de um tempo. Seus pais fizeram um grande esforço para o mandar estudar na Universidade de Cartago, uma das grandes metrópoles romanas. Em vez disso, Agostinho preferiu se dedicar a uma vida de prazeres e orgias sexuais, tanto que ficou famosa sua frase: “Senhor, torna-me casto, mas não ainda”.

 

É só com 32 anos de idade que ele abraça a fé que o tornaria célebre e à qual ele ergueria uma grande defesa. A primeira grande tarefa dele, como filósofo, foi pensar sobre Deus. 

 

Deus

Apoiando-se no conceito platônico de Mundo das Ideias, Agostinho conceberá Deus como um ser que pertence a um Reino de verdades que nunca mudam. Um Reino atemporal e eterno. Da mesma maneira que Platão, esse estado de coisas não poderia ser alcançado pelos sentidos, mas pela razão. Acontece que o fato de sermos feitos à imagem e semelhança de Deus nos possibilita esse conhecimento: uma parte desse reino existe dentro de nós e pode ser identificado com a alma.

 

Dentro de nós : esta é outra ideia chave para se conhecer o pensamento de Agostinho. Em sua busca filosófica, ele almeja descobrir a interioridade, a essência do ser humano. Por isso, Agostinho é considerado por muitos um dos primeiros filósofos a pensar uma psicologia.

 

Ainda seguindo uma interpretação platônica, Agostinho chega à conclusão de que o Mal não existe em si mesmo. Só a ideia de Bem tem esse status e essa existência. Ora, se o mal não existe em si, o que seria o mal experimentado neste mundo? Para ele, o Mal não é uma realidade, é, na verdade, a falta do bem. A partir daí, Agostinho percebeu, então, que as coisas são boas porque são obras de Deus. Sendo assim, o Mal é resultado da forma como utilizamos o livre arbítrio. Por causa do lívre arbítrio, portanto, o homem pode se afastar de Deus e das coisas boas e experimentar, por isso, o Mal. É como se disséssemos que o Mal é a ausência de Bem. Acontece que, de alguma forma, todos buscam a felicidade e o Bem. Eis, então, o problema: como reconhecer aquilo que é bom e chegar à felicidade? Agostinho chega à conclusão de que a felicidade somente pode ser encontrada em Deus e que nós temos esse conhecimento em nosso íntimo, naquilo que ele chama de Mestre Interior. É aqui que ele inicia uma de suas mais importantes teorias: a teoria da Iluminação Divina.

 

A Iluminação Divina

Agostinho verifica que existem certas ações que nos aproximam de Deus, enquanto outras nos afastam dele. Ele tenta, então, demonstrar como a luz divina ajuda-nos a continuarmos no caminho do Bem. Acima do homem, existem verdades que não dependem dele, pois suas leis são universais e necessárias, como as verdades matemáticas, a estética e a moral. Acima e antes de tudo isso está Deus, que cria as verdades e torna possivel seu conhecimento, que deve, agora, ser buscado no interior do próprio homem.

Deus ilumina essas verdades que, de algum modo, já estão em nosso espírito. A Iluminação Divina é, pois, uma luz imaterial que nos atinge quando encontramos o conhecimento da verdade. É como se o homem, por meio dessa iluminação, se relembrasse de Deus cada vez que conhece algo verdadeiro. E quanto mais verdades conhece, mais próximo de Deus se torna. 

 

Acontece, porém, que Deus não retira de nós o livre arbítrio e impõe sua iluminação. Muito pelo contrário. O livre arbítrio permite, inclusive, que nos afastemos dessa luz ou que a sufoquemos em nós mesmos. É dessa liberdade que provêm todos os males do mundo. Ao virar as costas para a luz interior, o homem encontra trevas e sofrimento. Entretanto, pode, a qualquer momento, voltar-se novamente para a luz. O próprio Agostinho é testemunha disso: ao escolher uma vida desregrada, ignorava a luz que tentava iluminá-lo. Uma célebre frase resume essa ideia: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu fora. Estavas comigo e não eu contigo. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz.”, encontrada em suas Confissões.

 

O Tempo

Outra reflexão importante é sobre a noção de tempo. Pensar sobre o tempo não é fácil como pode parecer num primeiro momento. Estamos tão acostumados a ele que não percebemos o quanto ele pode ser desafiador e intrigante. Agostinho é um dos primeiros a se debruçar sobre esse problema e mostra-nos como é difícil entender de que modo as ideias de futuro e passado existem. Embora você use essas noções o tempo todo, dificilmente reflete sobre elas.  De fato, não há como defender que passado e futuro possuam existência real, pois o passado, justamente por ser passado, já não existe mais, e o futuro, esse além que se apresenta diante de nós, ainda não existe.

 

Como, então, medimos o tempo, se o passado não existe e o futuro também não? Como medir o que não existe? Nem mesmo se o passado teve uma duração longa podemos afirmar, pois não há o que possa ter sido longo já que ele não existe mais no momento em que o dizemos. O mesmo raciocínio aplica-se à noção de futuro. Como pensá-lo ou medi-lo se ele é, para nós, uma incógnita?

 

A única certeza que temos é que o presente existe, ao menos de algum modo. Se ele pode ser longo ou curto, esta é uma outra questão, que inclusive Agostinho se propõe a enfrentar. Para tanto, ele usa um famoso exemplo. Ele nos coloca para pensar num tempo que durasse cem anos presentes. Serão eles longos ou curtos? - pergunta Agostinho. Ora, mas o primeiro desses cem anos é presente, e os outros 99 são futuros e, portanto, ainda não existem. Quando o primeiro ano passar, o segundo será presente, o primeiro, passado, e os outros 98, futuros. Logo, cem anos não podem ser presentes. Mas se formos mais rigorosos, perceberemos que o ano subdivide-se, também, em semanas, e o mesmo problema se apresenta. No entanto, também a semana subdivide-se em dias, e os dias em horas, e as horas em minutos, e assim por diante. O que resta, então, que não possa ser subdividido e que, portanto, seja, de fato, presente? A resposta é: um instante que não tem duração: o momento. O presente nada mais é do que um instante.

 

Contudo, apesar desse problema, somos capazes de perceber o tempo passando e de prever e medir sua duração. Mas como fazemos isso, medindo o que não existe mais? A solução de Agostinho para o problema é engenhosa e totalmente inovadora. Ele diz o seguinte: o passado e o futuro só existem no presente. Pois o passado existe enquanto lembrança do que já foi e o futuro existe enquanto antecipação do que ainda será. Dessa maneira, somos capazes de medir o tempo, no presente, lembrando e antecipando as coisas. Ao dizermos que algum poema ou texto, por exemplo, é longo, sabemos disso porque lemos o texto e, ao passo que lemos, ao mesmo tempo, guardamos na memória o que já passou daquele texto. Além disso, projetamos no futuro o que ainda vamos ler, num processo de imaginação. Ao terminarmos o poema, tudo virou lembrança, ou seja, virou passado. 

 

Fé e Razão

Por fim, vamos compreender, um pouco, a relação entre fé e razão. Para Agostinho, sem pensamento não seria possível a fé. Por outro lado, a inteligência não elimina a fé, mas a fortalece e, de alguma maneira, a torna mais clara. Para Agostinho, a fé não substitui e muito menos elimina a inteligência. Desse modo, elas não devem ser tratadas como realidades antagônicas, mas convergentes. Em sua perspectiva, a fé estimula e promove a razão. Para ele, a fé traduz-se como um modo de pensar com assentimento por parte daquele que pensa. Sem o pensamento não haveria fé. Ainda que as verdades da fé não sejam demonstráveis, isto é, passíveis de prova, é possível demonstrar o acerto de se crer nelas, e essa tarefa cabe à razão. E pode-se dizer o mesmo em relação à razão. O homem não pode crer em alguma coisa desprovido de um conhecimento daquilo que o faz crer. Desse modo, fé e razão são realidades que se entrecruzam. 

 

Em Resumo

Vimos que Agostinho de Hipona tentou conciliar os elementos da fé cristã com a razão filosófica. Com sua Teoria da Iluminação, ele demonstra como as verdades podem ser alcançadas pelo homem e que noções importantes como Bem e Mal devem ser pensadas à luz do livre arbítrio. Agostinho demonstra, ainda, como o tempo pode ser um problema filosófico. Por ser um dos grandes pensadores da Igreja Católica, Agostinho – hoje considerado um santo – foi um dos maiores defensores da fé católica. Entretanto, ele não fazia isso apenas com pregações. Sua filosofia dava sentido a sua fé e ajudava as pessoas a também crerem. 

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