Texto: As Fases do Romantismo em Portugal

As Fases do Romantismo em Portugal

Neste item, abordaremos os aspectos fundamentais constitutivos dos momentos ou fases do Romantismo em Portugal e os seus principais representantes. Esse panorama viabiliza entender o processo de elaboração do Romantismo brasileiro, uma vez que muitos escritores do nosso país residiram em terras lusitanas. 

 

O Primeiro Momento do Romantismo

Duas grandes figuras são Almeida Garrett –de quem comentamos em um capítulo anterior –, e Alexandre Herculano. Pontuemos em que medida esse autor contribuiu para o fomento do Romantismo em Portugal.

 

Herculano foi o iniciador do romance histórico em Portugal, pois soube como ninguém aliar as características do Romantismo ao registro histórico. Suas narrativas combinam a erudição do historiador, a forma minuciosa com que reconstitui os ambientes e costumes, e a imaginação do literato em recriar e tencionar os acontecimentos. Dentre as obras publicadas, elaborou: Lendas e narrativas, conjunto de contos e novelas dedicados a temas históricos; romances, tais como O bobo, Eurico, o presbítero e O monge de Cister. Também publicou poesias e uma intensa produção jornalística, criticando os problemas sócio-político-econômicos de seu tempo. A fim de entendermos a obra do autor, leiamos o fragmento do conto A morte do lidador, da obra Lendas e narrativas:

 

“Pajens! Ou arreiem o meu ginete murzelo; e vós dai-me o meu lorigão de malha de ferro1  e a minha boa toledana2 . Senhores cavaleiros, hoje contam-se noventa e cinco anos que recebi o batismo, oitenta que visto armas, setenta que sou cavaleiro, e quero celebrar tal dia fazendo entrada por terras da frontaria3  dos Mouros.”

 

Isto dizia na sala de armas do castelo de Beja4  Gonçalo Mendes da Maia, a quem, pelas muitas batalhas que pelejara e por seu valor indomável, chamavam Lidador. Afonso Henriques, depois do infeliz sucesso de Badajoz, e feitas pazes com el-rei Leão, o nomeara fronteiro da cidade de Beja, de pouco tempo conquistada aos Mouros. Os quatro Viegas, filhos do bom velho Egas Moniz, estavam com ele, e outros muitos cavaleiros afamados, entre os quais D. Ligel de Flandres e Mem Moniz, tio dos quatro Viegas.

 

“À la fé”, disse Mem Moniz, “que a festa de vossos anos, Sr Gonçalo Mendes, será mais de mancebo cavaleiro que de capitão encanecido e prudente. Deu-vos el-rei esta frontaria de Beja para bem a haverdes de guardar, e não sei se arriscado é sair hoje à campanha, que dizem os escutas, chegados ao romper d’alva, que o famoso Almoleimar correr por estes arredores com dez vezes mais lanças do que todas as que estão encostadas nos lanceiros desta sala de armas.” 

 

“Voto a Cristo”, atalhou o Lidador, “que não cria em que o Sr. Rei me houvesse posto nesta torre de Beja para estar assentado à lareira da chaminé, como velha dona, a espreitar de quando em quando por uma seteira se cavaleiros mouros vinham correr até a barbacã, para lhes cerrar as portas e ladrar-lhes do cimo da torre da menagem5 , como usam os vilãos. Quem achar que são duros de mais os arneses6  dos infiéis pode ficar-se aqui.”

 

“Bem dito! Bem dito!”, exclamaram, dando grandes risadas, os cavaleiros mancebos. 

 

“Por minha boa espada!”, gritou Mem Moniz, atirando o guante7 ferrado  às lájeas do pavimento “que mente pela gorja quem disser que eu ficarei aqui, havendo dentro de dez léguas em redor lide com mouros. Sr. Gonçalo Mendes, podeis montar em vosso ginete, e veremos qual das nossas lanças bate primeiro em adarga8  mourisca.”

“A cavalo! A cavalo!”, gritou outra vez a chusma, com grande alarido. 

 

Dali a pouco, ouvia-se o retumbar dos sapatos de ferro de muitos cavaleiros descendo os degraus de mármore da torre de Beja e, passados alguns instantes, soava só o tropear dos cavalos, atravessando a ponte levadiça das fortificações exteriores que davam para a banda da campanha por onde costumava aparecer a mourisma 

 

(HERCULANO, 1959, p. 41-51). 

 

A narrativa de Alexandre Herculano é carregada de elementos poéticos. Basta uma breve leitura em voz alta para notarmos a expressividade. Nessa primeira parte do conto, percebe-se Lindador, D. Gonçalo Mendes, disposto a comemorar sua luta contra os mouros. Entretanto, o título já prenuncia que o herói findará por morrer: morte honrada, digna de um guerreiro medieval. 

 

Perceba o cuidado em reconstituir o ambiente medieval, utilizando, para tal, um vocabulário próprio da época: nomes de armas, fortalezas e instituições. O linguajar grandiloquente e expressões da época (à la fé, por exemplo) colaboram para montar a figura do herói medieval: honrados e leais.

 

A reconstituição da Idade Média tem uma função educativa: expor aos leitores os valores que o autor considerava efetivamente nacionais, sem interferências dos históricos contratempos entre portugueses, franceses e ingleses. Para a burguesia em ascensão, exaltar a nacionalidade portuguesa era uma forma de negar as pretensões da arte aristocrática. Mesmo assim, observe que o texto evidencia a característica que apontamos no início desse estudo: o espírito romântico, mas ainda com traços do clássico na tessitura da obra, devido à personificação da sobriedade, do equilíbrio e do rigor crítico.

 

Dessa forma, podemos afirmar que o trabalho do escritor, juntamente com o de Almeida Garrett, corresponde à fundamentação do Romantismo em Portugal. Passemos, agora, para o segundo momento do Romantismo português. 

 

1 - Lourigão de malha de ferro é uma malha de escamas de metal, usada pelos cavaleiros na Idade Média. 

2 - Toledana diz respeito à espada feita em Toledo, Espanha. 

3 - Frontaria é o exercito que fica próximo à fronteira. O capitão recebe o nome de fronteiro. 

4 - Beja corresponde a uma cidade ao sul de Portugal, definitivamente reconquistada pelos mouros em 1162. 

5 - Seteira, barbaã e torre de menagem são termos relacionados à arquitetura dos castelos medievais. Seteira é a abertura feita nas muralhas para atirarem flechas; barbacã, o antemuro das muralhas; e torre de menagem é a torre principal do castelo. 

6 - Arneses são as armaduras. O arnês é a armadura completa do cavaleiro. 

7 - Guante ferrado é a luva de ferro da armadura. 

8 - Adarga é um escudo de couro oval com duas braçadeiras que era utilizado para proteção. 

 

O Segundo Momento do Romantismo

Em 1836, Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) publicou os poemas Os ciúmes do bardo e Noite no Castelo. Nesses dois textos, predomina a temática do amor obsessivo, traiçoeiro, encaminhando ao crime, ao suicídio e à loucura. Os cenários são os típicos desse momento: cenas medievais e fúnebres, tais como castelos escuros, desenhados pela luz do luar, povoados e cavaleiros sombrios; típico cenário fantasmagórico. Essa ambientação proposta por Feliciano de Castilho viabilizará a instituição do ultrarromantismo em Portugal. 

 

Nessa segunda geração, os escritores, à medida que desfaziam dos laços arcádicos que os inibiam, intensificavam a presença das características românticas, as quais são levadas ao exagero, fazendo com que eles recebam a alcunha de românticos descabelados – é o chamado ultrarromantismo. 

 

Embora o ultrarromantismo incorpore mais o gênero lírico, várias de suas características aparecem também na prosa. A poesia encontra-se vinculada a escritores de Coimbra, enquanto a prosa depende do ambiente elaborado na cidade do Porto. Muitos foram os representantes dessa geração, sendo que Soares Passos e Camilo Castelo Branco são os mais populares. O ultrarromantismo português fora divulgado principalmente em revistas e jornais, tais como O trovador e O novo trovador, ambos de Coimbra, e A lira da mocidade, O bardo e A grinalda, da cidade do Porto.

Camilo Castelo Branco

 

O Terceiro Momento do Romantismo

Na decadência do Romantismo em Portugal, situa-se o tardio florescimento da terceira geração. Até 1860, esse período é marcado pela presença de poetas como João de Deus, Tomás Ribeiro, Bulhão Pato, Xavier de Novais e Pinheiro Chagas, além de um prosador, Júlio Dinis. Encontrados em um processo de finalização da estética romântica, veremos ora uma atitude de purificação das características românticas, ora um processo de transição estética. Sob tal perspectiva, esse pode ser considerado o momento em Portugal de prenúncio para o Realismo, haja vista alguns autores se distanciarem das características românticas iniciais. Destacam-se nesse caso, João de Deus e Júlio Dinis.

 

Primeiramente, observaremos o principal representante do terceiro momento romântico no que tange ao gênero lírico: João de Deus. Sua obra pode ser organizada em lírico-amorosa e satírica, sendo a primeira de maior relevância para o momento. Vale salientar que o amor é razão frequente da poesia de João de Deus, conseguindo descobrir âmbitos novos do “amor piegas” elaborado pelo ultrarromantismo. Assim, permaneceu fiel a si próprio, ganhou respeito de seus contemporâneos, terminando por ser o mais romântico de todos os poetas românticos de Portugal. O poeta realizou uma poesia de sedução, de corte, sobre um amor experimentado ou por se realizar, adquirindo expressão por meio de canções, odes e idílios. Para tanto, observemos o poema Aroma e ave: 

 

Eu digo, quando assoma 

o astro criador:

 

– Deus me fizesse aroma

 de alguma pobre flor!

 

E digo, quando passa

uma ave pelo ar:

 

– Deus me fizesse a graça

de asas para voar!

 

Aroma da janela

me evaporava eu,

me respirava ela

e me elevava ao céu!

 

E quem, se eu fosse uma ave,

me havia de privar

a mim da luz suave

daquele seu olhar?

 

Avesso aos excessos ultrarromânticos e evitando o formalismo parnasiano, João de Deus elaborara uma poesia expressiva, repleta de versos leves e imagens singelas. Em versos curtos (hexassílabos) organizados em quadras de rimas alternadas (abab-cdcd-efef-gdgd), ele formula uma melodia adequada à imagem singela do poema. O eu-lírico manifesta seu desejo de se transformar em aroma e em ave com o objetivo de se aproximar da mulher amada, tornando-se, pois, objeto de seu olhar. Nos dois casos, percebe-se a necessidade do eu lírico de se elevar para conseguir chegar até a mulher amada. O amor, visto como um sentimento de índole espiritual, marca a concepção amorosa presente na lírica portuguesa desde a Idade Média. Podemos dizer, portanto, que o poema segue as tradições líricas portuguesas, bem como evidencia a influência neoplatônica de João de Deus. 

 

Agora, realizemos alguns apontamentos sobre o ficcionista Joaquim Guilherme Gomes Coelho, conhecido pelo pseudônimo Júlio Dinis. São raros os enredos em que o autor buscou retratar a sociedade burguesa da cidade do Porto, tal como acontece em Uma Família Inglesa. A maioria de seus romances passa-se no campo, cenário que corrobora para o desenrolar de histórias de personagens sem ambição e tranquilas, guiadas pela certeza na bondade humana, na ordem e na justiça. É na pintura desse otimismo que Julio Dinis emaranha os casos amorosos, desenrolados de maneira sublime. 

 

Quando o terceiro momento do Romantismo chega a seu termo, tem-se uma nova geração em processo que, avessa ao Romantismo, tomará novamente os preceitos franceses para organizar a nova estética. Eis que se iniciam o Realismo e o Naturalismo na Europa. 

 

Saiba Mais!

Nada melhor para um roteirista que utilizar obras renomadas da literatura para servirem de inspiração em seu trabalho. A obra do ficcionista português Júlio Dinis também obteve seu espaço na teledramaturgia brasileira. Seu principal romance, As pupilas do Senhor Reitor, publicado inicialmente em 1866 em caráter de folhetim, transformou-se em novela em 1994. Observe que a obra fora lançada durante o período do Romantismo como uma forma de entretenimento, publicando-se os capítulos semanalmente, para observar o gosto do leitor.

 

Em Resumo

O Romantismo português pode ser organizado em três fases. Na primeira, percebemos uma transição do Arcadismo para o Romantismo, sendo os principais autores Alexandre Herculano e Almeida Garret. No segundo momento, temos o ultrarromantismo, representado especialmente por Soares de Passos e Camilo Castelo Branco. Por fim, há o terceiro momento ou geração, quando a estética romântica começa a abrir espaço para o Realismo em elaboração na Europa. Nele, temos como principais representantes João de Deus, na poesia e Júlio Dinis, na prosa.

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