Texto: Sociedade Vigiada

Sociedade Vigiada

Vimos anteriormente que as tecnologias eletrônicas possibilitam um novo ambiente – uma aldeia global – na qual o mundo, e as coisas no mundo, estão ao alcance dos homens através das redes eletrônicas. A internet mostra-se como uma dessas redes. Ela sugere que nesse novo ambiente o mundo e as coisas entrelaçam-se como se capturados por uma rede, formando uma aldeia global. 

 

Envolver uma aldeia global sugere, portanto, que as pessoas, a natureza, a mata, os rios e as estradas sejam todos capturados por essa rede. Mas quem lança essa rede ao mundo social? E quem a maneja – a internet, por exemplo? Quem pesca os peixes numa rede não tem, na maioria das vezes, a intenção de devorá-los?

 

 

Uma Óbvia Distinção 

Vivemos a era da tecnologia eletrônica. As diversas tecnologias revelam ao homem um novo ambiente, isto é, uma nova maneira de sentir, perceber e viver o mundo e as coisas no mundo. A internet oferece esse novo ambiente, onde vivências acontecem de fato. As tecnologias eletrônicas propiciam, assim, que os homens sintam e percebam o mundo através de uma tela de computador, tal como sentir e perceber uma cachoeira, por exemplo.

 

 Porém, não se pode vivenciar pela internet a presença experiencial dessa cachoeira. Existe uma distinção óbvia entre o percebido pela internet e o percebido presencialmente no mundo: a vivência de um instante que se põe na intensidade do momento atual, como quando se está em uma guerra entre israelenses e palestinos, por exemplo. 

 

Nessa perspectiva, a percepção do mundo global por meio das redes eletrônicas de tecnologia talvez não seja tão forte e potente, pois, uma vez não vivenciados e experienciados, esse sentir e esse perceber pela internet tornam-se, ao que parece, mais fracos. Existe uma distância real entre aquilo que se sente por uma tela de celular e o que se sente presencialmente, por exemplo, no momento intenso em que se está envolvido pelo vento úmido em Ouro Preto. Como vimos em tópicos anteriores, ver e sentir são pensamentos e, portanto, ver e sentir não se distinguem enquanto pensamentos. Queremos com isso dizer que ver é precisamente sentir, e que tanto ver quanto sentir é pensar.

 

Em que medida, assim, as ruas de Nova York são percebidas pelos tablets e as guerras no Oriente Médio são sentidas daqui, do Brasil, por uma tela de computador? Ora, esse sentir e esse perceber das tecnologias eletrônicas mostram-se distantes do vivido e do experienciado. Parece que a guerra vivida presencialmente por homens, mulheres e crianças no Oriente Médio distingue-se da percepção da guerra que se pode ter pela internet ou meios de comunicação em geral. É óbvio que tal distinção existe. Qualquer estudante e professor sabem disso. 

 

O que não sabemos, ou sobre o que refletimos pouco, é o risco de viver essa vida apenas pela internet ou por outros meios tecnológicos eletrônicos. Convivemos com esse risco o tempo todo, o qual nos distancia das percepções originárias – do tempo presencial e intensivo da vida –, alcançadas não somente por intermédio das telas de computador, mas pela presença intensiva do homem nos acontecimentos e nas situações às vezes comuns de nossos dias, como a chuva.

 

Quem Está nos Vigiando?

Ora, se as tecnologias eletrônicas distanciam-nos das percepções simples (como sentir a chuva correr o corpo) ou das complexas (como os movimentos sociais e políticos que exigem o exercício da cidadania), as tecnologias podem figurar, em certa medida, um distanciamento entre o homem e o meio (meio que envolve não apenas a natureza, mas abarca os povos, nações etc.). 

 

Vê-se aí que, ao contrário de uma aproximação entre homem e vida, homem e natureza, homem e política, as redes eletrônicas sugerem certo distanciamento. Entretanto, o distanciamento e a aproximação talvez dependam, em certa medida, das relações que o homem estabelece com as novas tecnologias. Depende da relação porque o homem pode determinar se as tecnologias potencializam suas relações (homem e vida, homem e natureza, homem e política), ou se as tecnologias distanciam esse homem da vida intensiva, da natureza intensiva, da política intensiva, isto é, vividas de maneira mais participativa. 

 

Refletir sobre o modo de utilizar as tecnologias é uma questão fundamental, pois elas indicam tanto um distanciamento quanto uma aproximação do homem com o mundo e com as coisas que estão no mundo. Certo é que um post cheio de imagens ou de mensagens sobre o amor não vale um beijo real e apaixonado. 

 

Atenção!

Leia literatura clássica. Não se contente com as literaturas comerciais. Prepare-se para ser um leitor de biblioteca e não de livraria somente.

 

Big Brother 

Vigiamos e somos vigiados como que num reality show, um Big Brother global. A internet e os meios eletrônicos em geral – celulares com câmera, por exemplo – testemunham nossas falhas, quer dizer, as ruínas humanas, como as guerras e as tragédias ambientais. Igualmente mostram a terrível beleza da natureza, como um tornado, um tsunami. 

 

Além disso, dizem os noticiários de TV que os Estados Unidos não apenas vigiam, mas também controlam a internet de nossa aldeia global. Isso parece verdade como é verdadeiro que pessoas vigiam tornados e filmam seus vizinhos penteando o cabelo. Certo é que nessa rede eletrônica que interliga o mundo todo, somos, ao mesmo tempo, peixe e pescador, banana e macaco.

 

Daí a necessidade de assumirmos uma postura política como antídoto às ruínas em que se encontram as relações humanas – sentido originário da política –para reconstruirmos, como que num primeiro gesto de coragem, nossa mentalidade, nosso modo de agir e de pensar a vida e as relações políticas em geral. Temos também a necessidade de exercer a cidadania de modo excelente, porém tal alcance não se faz sem estudo, sem busca e pesquisa, enfim, sem filosofar.

 

Em Resumo

As tecnologias sugerem ora distanciamento ora aproximação: aproximação e distanciamento entre o homem e esta breve vida terrena, entre homem e natureza, homem e relações políticas. Refletir sobre a maneira de utilizarmos as tecnologias parece uma questão fundamental de ser levada em conta. Pois, se as tecnologias mais nos afastam da vida do que nos aproximam, tal distanciamento pode ser coisa grave. Ora, dizem os noticiários de TV que os americanos do Norte vigiam o mundo todo. Isso é verdade tanto quanto é verdade que vigiamos uns aos outros, caro estudante. Por isso mesmo, nesta aldeia global, ora somos peixe, ora tornamo-nos pescadores. 

 

Referências

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. São Paulo: Moderna, 2012.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2005.

DESCARTES. Meditações sobre Filosofia Primeira. Tradução de Fausto Castilho. Campinas: Cemodecon-Ifch-Unicamp, 2004.

HOUAISS, Antônio. Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

OS FILÓSOFOS através dos textos: de Platão a Sartre. São Paulo: Paulus, 1997.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.

REALE, Giovanni. História da Filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 1993.

SOARES, Alexandre Guimarães Tadeu de. O filósofo e o autor. Campinas: Unicamp, 2007.

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