Texto: Gêneros Textuais: Conto e Crônica

Gêneros Textuais: Conto e Crônica

Este tópico é dedicado aos aspectos da tipologia narrativa, mais precisamente aos gêneros textuais conto e crônica. Ambos os gêneros são muito presentes no dia a dia, seja no âmbito oral, seja no âmbito escrito. Prepare-se, então, para (re)conhecer esses dois gêneros textuais que usamos bastante e que estão presentes também nos mais diversos vestibulares do país.
 


 
Gêneros Textuais: Conto e Crônica

Conto e crônica são dois gêneros que se aproximam bastante em muitas características. São dois gêneros textuais que estão basicamente estruturados na tipologia narrativa, ainda que o gênero crônica possa, também, apresentar aspectos que se liguem à tipologia dissertativa, configurando a crônica argumentativa. Neste tópico, vamos delimitar as características de cada gênero para que você possa reconhecê-los na leitura e consequentemente na questão objetiva de um vestibular, bem como possa produzir um desses dois gêneros quando solicitado na parte de redação de um concurso.
 
 

Crônica

Para abrir esta seção, vamos ler um trecho do texto produzido por Carlos Drummond, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga para o livro número 1 da coleção Para gostar de ler, da Editora Ática.
 
 
“Crônica é um escrito de jornal que procura contar ou comentar histórias da vida de hoje. Histórias que podem ter acontecido com todo mundo: até com você mesmo, com pessoas de sua família ou com seus amigos. Mas uma coisa é acontecer, outra coisa é escrever aquilo que aconteceu. Então você notará, ao ler a narração do fato, como ele ganha um interesse especial, produzido pela escolha e pela arrumação das palavras.”
 

Para gostar de ler. v. 1. Editora Ática.
 

Nas palavras do fragmento, já podemos extrair aquelas que fazem parte da composição da estrutura da crônica: origem no jornal, sobre a vida de hoje, aspecto narrativo, fatos, escolha das palavras. 
 
 
Para ampliar o conceito de crônica, vamos ler abaixo o que nos diz Antônio Candido:
 
 
“A crônica não tem pretensões a durar, uma vez que é filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa. Ela não foi feita originalmente para o livro, mas para essa publicação efêmera que se compra num dia e no dia seguinte é usada para embrulhar um par de sapatos ou forrar o chão da cozinha. [...]. Por isso mesmo consegue quase sem querer transformar a literatura em algo íntimo com relação à vida de cada um, e quando passa do jornal ao livro, nós verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava”.
 

Antônio Candido. In: Para gostar de ler. v. 5.
 
 
Do jornal ao livro impresso, a crônica mostra-se como um gênero capaz de ganhar vida própria e sobreviver, sendo, dessa maneira, classificada como um gênero híbrido, que transita entre o jornalismo e a literatura. Nesse trânsito, pode muitas vezes ser confundida com o conto. Entretanto, a crônica narra um fato noticiado no jornal ou um fato do cotidiano, do dia a dia das pessoas, ou seja, a crônica registra acontecimentos da vida diária, do cotidiano, com um pé na realidade. E nesse registro, quase sempre se apresenta em texto curto, muitas vezes enviesado de humor, de ironia, dizendo fatos sérios por meio de uma aparente despretensão. Nessa despretensão, tem o objetivo de divertir ou muitas vezes de levar o leitor à reflexão a respeito de um fato social. Outras vezes, retrata simplesmente a vida de forma despretensiosa, num registro da mais pura poesia em prosa. Dessa maneira, a crônica pode se eternizar, como muitas crônicas de Drummond, de Rubem Braga, de Luís Fernando Veríssimo e tantos outros autores.
 
 
Leia abaixo uma crônica de Drummond, em que, aproveitando a data do dia das mães, o autor faz uma leitura social válida até hoje.
 
 
A outra senhora 
 
 
A garotinha fez esta redação no ginásio: 
 
 
“Mammy, hoje é Dia das Mães e eu desejo-lhe milhões de felicidades e tudo mais que a Sra. sabe. Sendo hoje o Dia das Mães, data sublime conforme a professora explicou o sacrifício de ser Mãe que a gente não está na idade de entender mas um dia estaremos, resolvi lhe oferecer um presente bem bacaninha e fui ver as vitrinas e li as revistas. Pensei em dar à Sra. o radiofono Hi-Fi de som estereofônico e caixa acústica de 2 alto-falantes amplificador e transformador mas fiquei na dúvida se não era preferível uma tv legal de cinescópio multirreacionário som frontal, antena telescópica embutida, mas o nosso apartamento é um ovo de tico-tico, talvez a Sra. adorasse o transistor de 3 faixas de ondas e 4 pilhas de lanterna bem simplesinho, levava para a cozinha e se divertia enquanto faz comida. Mas a Sra. se queixa tanto de barulho e dor de cabeça, desisti desse projeto musical, é uma pena, enfim trata-se de um modesto sacrifício de sua filhinha em intenção da melhor Mãe do Brasil. 
 
 
Falei da cozinha, estive quase te escolhendo o grill automático de 6 utilidades porta de vidro refratário e completo controle visual, só não comprei-o porque diz que esses negócios eletrodomésticos dão prazer uma semana, chateação o resto do mês, depois encosta-se eles no armário da copa. Como a gente não tem armário da copa e nem copa, me lembrei de dar um, serve de copa, despensa e bar, chapeado de aço tecnicamente subdesenvolvido. Tinha também um conjunto para cozinha de pintura porcelanizada fecho magnético ultrassilencioso puxador de alumínio anodizado, um amoreco. Fiquei na dúvida e depois tem o refrigerador de 17 pés cúbicos integralmente utilizáveis, congelador cabendo um leitão ou peru inteiro, esse eu vi que não cabe lá em casa, sai dessa!
 
 
Me virei para a máquina de lavar roupa sistema de tambor rotativo mas a Sra. podia ficar ofendida deu querer acabar com a roupa lavada no tanque, alvinha que nem pomba branca, Mammy esfrega e bate com tanto capricho enquanto eu estou no cinema ou tomo sorvete com a turma. Quase entrei na loja para comprar o aparelho de ar-condicionado de 3 capacidades, nosso apartamentinho de fundo embaixo do terraço é um forno, mas a Sra. vive espirrando, o melhor é não inventar moda. 
 
 
Mammy, o braço dói de escrever e tinha um liquidificador de 3 velocidades, sempre quis que a Sra. não tomasse trabalho de espremer laranja, a máquina de tricô faz 500 pontos, a Sra. sozinha faz muito mais. Um secador de cabelo para a Mammy!, gritei, com capacete plástico mas passei adiante, a Sra. não é desses luxos, e a poltrona anatômica me tentou, é um tesouro, mas eu sabia que minha mãezinha nunca tem tempo de sentar. Mais o quê? Ah sim, o colar de pérolas acetinadas, caixa de talco de plástico perolado, par de meias, etc. Acabei achando tudo meio chato, tanta coisa para uma garotinha só comprar e uma pessoa só usar, mesmo sendo a Mãe mais bonita e merecedora do Universo. E depois, Mammy, eu não tinha nem 20 cruzeiros, eu pensava que na véspera deste Dia a gente recebesse não sei como uma carteira cheia de notas amarelas, não recebi nada e te ofereço este beijo bem beijado e carinhosão de tua filhinha Isabel.”
 
 
Carlos Drummond de Andrade. Cadeira de balanço. Editora José Olympio, 15ª ed..
 
 

 

Conto

A arte de contar histórias acompanha o ser humano há séculos, desde seus primórdios como sociedade organizada. Podemos dizer que é inerente ao homem contar e ouvir histórias.
 
 
Observe, por exemplo, a imagem abaixo. É uma adaga de aproximadamente 24cm, encontrada em Micenas, de 1600 a.C. Podemos observar que “ela” nos narra uma determinada cena, em que homens atacam e/ou são atacados. Observe que há um homem caído próximo ao leão do centro, sugerindo que o tempo, componente da narrativa, já tenha passado. 
 
 
Adaga, 1600 a.C. Museu Arqueológico Nacional, Atenas
 

Também estruturado na tipologia narrativa, o conto apresenta, portanto, personagens, espaço, tempo, narrador e o enredo. Diferente da crônica, no conto há uma concentração dos dados, focando o essencial que se quer narrar. Muitas vezes, o conto estrutura-se também na seguinte sequência: apresentação da ação a ser desenvolvida, depois o conflito, o clímax e, por fim, o desfecho, sendo que essa ordem pode se alterar. 
Outro dado do conto é que nele, diferente do romance, o número de personagens é bastante reduzido, muitas vezes com um ou dois personagens, somente. Sintética, portanto, é a estrutura do conto e seu tamanho pode variar. Geralmente curto, mas em Machado de Assis, por exemplo, os contos muitas vezes giram em torno de cinco, seis páginas e esse mesmo autor tem um conto mais extenso, que é O Alienista. Por outro lado, há hoje o chamado miniconto, com poucas linhas. Enfim, o conto é a arte de contar histórias de forma condensada. Abaixo,
 
 
A pílula – Stephen Leacok
 
 
Leio nos jornais que o Professor Plumb, da Universidade de Chicago, inventou recentemente um novo tipo de alimento, de altíssima concentração orgânica. Todos os elementos essenciais para a nutrição estão nele contidos e condensados sob a forma de tabletes deglutíveis que contêm de duas a trezentas vezes a substância normal de uma onça de qualquer espécie de alimento. Esses tabletes, quando dissolvidos em água, de preferência água aquecida, proporcionam tudo quanto é necessário para se viver. Quanto ao professor Plumb, ele confia estar bem próximo de operar uma verdadeira revolução no atual sistema alimentar do mundo todo.
 
 
Ora, as coisas deste gênero andarão sem duvida muitíssimo bem, mas não sem alguns inevitáveis enganos, pelo menos no princípio. E mesmo no esplendoroso futuro previsto pelo professor Plumb não seria difícil imaginar fatos como o que passo aqui a narrar.
 
 
Nossa pequena família estava alegremente sentada na sala de jantar. Sobre a mesa, preparada de uma maneira sofisticada, havia apenas uma grande panela de água quente, e cada um de nós, as crianças também, tinha diante de si uma tigela. Minha mãe, alegríssima, sorria para todos nós naquela oportunidade solene de ceia de Natal, contida ela inteira dentro de um dedal que repousava em cima de uma ficha de jogo de cartas. Estávamos todos em silencio quando meu pai, levantando-se da cadeira na cabeceira de mesa, virou o dedal de cabeça pra baixo e mostrou finalmente uma pequena pílula em cima da ficha de plástico que era usada como bandeja. Continha a pílula ao mesmo tempo o peru, o molho, a farofa de castanhas, a torta e o pudim. Tudo estava ali, naquela pílula mínima, que não esperava outra coisa senão ser dissolvida em água quente. Foi então que meu pai, com ar contrito e olhos devotos, mirando ora a pílula ora o céu, começou a habitual oração abençoando o alimento.
 
 
Um grito de horror seguiu-se a estas palavras da minha mãe:
 
 
- Ah, Harry, depressa, depressa! O pequeno Peter engoliu a pílula!
 
 
Era verdade, o anjinho de cabelos dourados chamado Peter, no meio tempo da oração, agarrara toda a ceia de Natal e a havia colocado na boca, sorrindo, muito satisfeito com sua alegre gaiatice. E eis que 175 quilos de alimentos desciam pelo esôfago do inocente abaixo.
 
 
- Que alguém bata nas costas dele! - gritou mamãe, torcendo as mãos, acometida de um enlouquecido desespero. 
 
 
- Dá-lhe um pouco d’água!
 
 
Pois esta ideia foi fatal para o pequeno Peter. A água, ao se encontrar com a pílula, subitamente fez com que ela se expandisse. Ouviu-se um triste e profundo ruído e, logo depois, um tremendo estrondo. Peter acabara de explodir por sobre a mesa do nosso primeiro Natal em pílulas. 
 
 
Quando juntaram as migalhas do corpinho do meu irmão, seus lábios ainda arvoravam um sorriso: o sorriso de uma criança que havia comido treze ceias de Natal de uma só vez.
 
 

Em Resumo

Neste tópico, estudamos a respeito dos gêneros textuais crônica e conto. São dois gêneros que se estruturam na tipologia narrativa e que, portanto, apresentam ações, personagens, tempo, entre outras características. Tanto o conto como a crônica são textos curtos, condensados. A crônica, geralmente, é publicada no jornal, constituída por um fato, para depois ser publicada em formato de livro, apresentando então essa relação de efemeridade que o jornal possui. O conto está na esfera da ficção e apresenta 1 ou 2 personagens que vão estruturar toda a narrativa. Fique atento às diferenças entre esses dois gêneros!
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