Texto: Cultura e Sociedade

Cultura e Sociedade

Certamente você já ouviu alguém dizer que o homem descende do macaco, certo? 

 

E com base nessa ideia já deve ter escutado, ou até mesmo feito, alguns comentários irônicos, do tipo: os cientistas podem até terem vindo do macaco, mas não eu!; ou, ainda: se o homem veio do macaco, por que nossa espécie evoluiu e a deles não?

 

Na verdade, há uma série de mal-entendidos nessa ideia. Em primeiro lugar, o cientista a quem se atribui essa afirmação, Charles Darwin, nunca disse isso. O que ele propôs, na segunda metade do século XIX, era que se tratasse o homem como um ser pertencente à natureza e, portanto, cuja origem deve ser buscada através dos mesmos mecanismos presentes nas demais formas de vida.

 

 

A Evolução da Espécie Humana em Darwin

Darwin afirmou no livro A origem das espécies, de 1859, que os seres atualmente vivos evoluíram a partir da modificação de outras formas de vida que existiram no passado, muitas delas extintas nos dias de hoje. Segundo essa ideia, o cavalo que existe hoje não teve a mesma aparência e características desde o início dos tempos. Para ser mais exato, ele sequer viveu desde o início dos tempos. Em alguma altura da história houve um ser parecido com o cavalo, que sofreu alguma modificação corporal, a partir de uma mutação genética, originando o belo animal que conhecemos hoje.

 

Agora, a espécie que deu origem ao cavalo também é o produto do mesmo processo, isto é, também é a modificação de um ser que vivia num passado ainda mais remoto, mas que não lhe era idêntico, e assim sucessivamente. Com isso, o antepassado remoto de uma espécie viva pode ser muito diferente dela, chegando mesmo a pertencer a um grupo diferente.

 

 

Darwin explica também como pode haver duas espécies contemporâneas e parecidas entre si. Na verdade, em algum momento de sua trajetória elas teriam tido um antepassado comum, a partir do qual trilharam uma história evolutiva divergente.

 

A Importância da Vida Sociocultural na Origem da Humanidade

Darwin aplicou esses princípios para explicar o processo evolutivo do homem, no livro A descendência do homem e a seleção sexual (1871). Em primeiro lugar, a espécie humana era fruto de alterações ocorridas em seres com características semelhantes a ela. No entanto, quanto mais afastado no tempo fosse o antepassado, mais diferente do homem moderno ele deveria ser. Na época de Darwin não havia provas fósseis que descrevessem um largo período da história pregressa do homem. Na verdade, só havia alguns fósseis do homem de Neanderthal, descobertos em 1848 e em 1856 e que faziam supor que o homem teria uma história muito mais antiga do que a descrevia a Bíblia.

 

Existem duas ideias que chocaram os contemporâneos de Darwin e que seguem causando divergências nos dias de hoje. A primeira é a noção de que alguns primatas vivos, entre eles o gorila e o chimpanzé, teriam um grau de proximidade com o homem e, portanto, teriam se originado de um antepassado comum, embora remoto e desconhecido. Com isso, não haveria uma espécie que parou no tempo, enquanto outra continuou a evoluir. Tanto a humanidade quanto os demais símios próximos ao homem teriam tido uma longa trajetória atrás de si, mas com estratégias evolutivas divergentes, tendo por resultado a criação de espécimes diferentes entre si, ainda que com algum grau de proximidade. Se para os círculos acadêmicos essa ideia não trouxe maiores problemas, para os leigos, e para os religiosos em especial, tal concepção foi considerada inaceitável, um verdadeiro ultraje. Houve uma série de ataques à própria pessoa de Darwin, inclusive com charges publicadas em jornais de época, nas quais o corpo de Darwin tinha a forma de um macaco.

 

 

Outra ideia controversa, inclusive nos círculos acadêmicos, é que para Darwin os predicados psíquicos, emocionais, sociais e comportamentais do homem teriam paralelo com os existentes entre outros animais. Para ele as diferenças não são de natureza, mas de grau, algo que ele reafirma em 1872, no livro A expressão dos sentimentos no homem e nos animais – texto dedicado a mostrar os paralelos entre os homens e os animais.

 

Essa tese implica no reconhecimento de que o homem não é um ser naturalmente diferente de outras espécies. Em outras palavras, a vida subjetiva humana teria proximidade com a desenvolvida por outros seres, tanto aqueles ainda existentes no presente quanto em relação aos seus antepassados diretos. 

 

 

Essa ideia, levada às últimas consequências, significa que a cultura não foi algo criado tardiamente, mas sim que se trata de algo presente na vida humana ao longo de toda sua trajetória evolutiva. Decorre daí que vários antepassados do homem tenham deixado algum resquício fóssil testemunhando que suas atividades eram parecidas com as praticadas pelo homem moderno.

 

A presença da cultura, portanto, não foi algo supérfluo, descartável. Se a forma de vida adotada depende do aprimoramento de determinadas características físicas, é lícito supor que a cultura dirigiu, ao menos em parte, o processo de seleção e aprimoramento delas. 

 

Assim, a necessidade de falar depende da presença de determinadas características mentais, emocionais e físicas do homem. Esses atributos só podem ter se desenvolvido em conjunto, articulados entre si. Por exemplo: é pouco provável que primeiro tenha se desenvolvido o aparelho fonador para em seguida se ter desenvolvido a fala. A necessidade de falar, por conta de pressões sociais e individuais, levou à pressão seletiva de atributos físicos e cognitivos que melhorassem o aparelho fonador.

 

Sendo assim, é preciso entender a vida social e cultural do homem como uma força ativa na produção da própria espécie. Caso não houvesse desde sempre a necessidade de cooperação ativa entre os membros do grupo, de encontrar soluções originais para os problemas antigos e novos, enfim, caso não houvesse vida sociocultural, o homem sequer existiria. Esse aspecto de sua existência, com frequência negligenciado, é um dos elementos centrais de que trataremos ao longo dos próximos tópicos.

 

Saiba Mais!

Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem 

Friedrich Engels

 

O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem. Há muitas centenas de milhares de anos, numa época, ainda não estabelecida em definitivo, daquele período do desenvolvimento da Terra que os geólogos denominam terciário provavelmente em fins desse período, vivia em algum lugar da zona tropical – talvez em um extenso continente hoje desaparecido nas profundezas do Oceano Índico – uma raça de macacos antropomorfos extraordinariamente desenvolvida. Darwin nos deu uma descrição aproximada desses nossos antepassados. Eram totalmente cobertos de pelo, tinham barba, orelhas pontiagudas, viviam nas árvores e formavam manadas. 

 

É de supor que, como consequência direta de seu gênero de vida, devido ao qual as mãos, ao trepar, tinham que desempenhar funções distintas das dos pés, esses macacos foram-se acostumando a prescindir de suas mãos ao caminhar pelo chão e começaram a adotar cada vez mais uma posição ereta. Foi o passo decisivo para a transição do macaco ao homem. 

 

Todos os macacos antropomorfos que existem hoje podem permanecer em posição ereta e caminhar apoiando-se unicamente sobre seus pés; mas o fazem só em casos de extrema necessidade e, além disso, com enorme lentidão. Caminham habitualmente em atitude semiereta, e sua marcha inclui o uso das mãos. A maioria desses macacos apoiam no solo os dedos e, encolhendo as pernas, fazem avançar o corpo por entre os seus largos braços, como um paralítico que caminha com muletas. Em geral, podemos ainda hoje observar entre os macacos todas as formas de transição entre a marcha a quatro patas e a marcha em posição ereta.

 

Mas para nenhum deles a posição ereta vai além de um recurso circunstancial. E posto que a posição ereta havia de ser para os nossos peludos antepassados primeiro uma norma, e logo uma necessidade, daí se depreende que naquele período as mãos tinham que executar funções cada vez mais variadas. Mesmo entre os macacos existe já certa divisão de funções entre os pés e as mãos. Como assinalamos acima, enquanto trepavam as mãos eram utilizadas de maneira diferente que os pés. As mãos servem fundamentalmente para recolher e sustentar os alimentos, como o fazem já alguns mamíferos inferiores com suas patas dianteiras. Certos macacos recorrem às mãos para construir ninhos nas árvores; e alguns, como o chimpanzé, chegam a construir telhados entre os ramos, para defender-se das inclemências do tempo. A mão lhes serve para empunhar garrotes, com os quais se defendem de seus inimigos, ou para os bombardear com frutos e pedras. Quando se encontram prisioneiros realizam com as mãos várias operações que copiam dos homens. Mas aqui precisamente é que se percebe quanto é grande a distância que separa a mão primitiva dos macacos, inclusive os antropóides mais superiores, da mão do homem, aperfeiçoada pelo trabalho durante centenas de milhares de anos. O número e a disposição geral dos ossos e dos músculos são os mesmos no macaco e no homem, mas a mão do selvagem mais primitivo é capaz de executar centenas de operações que não podem ser realizadas pela mão de nenhum macaco. Nenhuma mão simiesca construiu jamais um machado de pedra, por mais tosco que fosse.

 

Por isso, as funções, para as quais nossos antepassados foram adaptando pouco a pouco suas mãos durante os muitos milhares de anos em que se prolongam o período de transição do macaco ao homem, só puderam ser, a princípio, funções sumamente simples. […]. Antes de a primeira lasca de sílex ter sido transformada em machado pela mão do homem, deve ter sido transcorrido um período e tempo tão largo que, em comparação com ele, o período histórico por nós conhecido torna-se insignificante. Mas havia sido dado o passo decisivo: a mão era livre e podia agora adquirir cada vez mais destreza e habilidade; e essa maior flexibilidade adquirida transmitia-se por herança e aumentava de geração em geração. 

 

Vemos, pois, que a mão não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele. Unicamente pelo trabalho, pela adaptação a novas e novas funções, pela transmissão hereditária do aperfeiçoamento especial assim adquirido pelos músculos e ligamentos e, num período mais amplo, também pelos ossos; unicamente pela aplicação sempre renovada dessas habilidades transmitidas a funções novas e cada vez mais complexas foi que a mão do homem atingiu esse grau de perfeição que pôde dar vida, como por artes de magia, aos quadros de Rafael, às estátuas de Thorwaldsen e à música de Paganini. 

 

Fonte: ENGELS, F. Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem.  In MARX, Karl; ENGELS, F. Obras escolhidas. 2º vol. São Paulo: Alfa-Omega, s/d.

 

Você Sabia?

Os primeiros fragmentos de esqueletos identificados como pertencentes ao homem de neandertal (Homo neanderthalensis) foram descobertos em agosto de 1856 na gruta de Feldhofer, localizada próxima ao rio Düssel, um afluente do rio Reno, na Alemanha.

 

O local da descoberta ficava no Vale de Neander (em alemão Neandertal), que foi utilizado para designar a espécie descoberta. Este vale, por sua vez, recebeu seu nome em homenagem ao compositor Joachim Neumann (1650-1680), mais conhecido como Joachin Neander, pois ele usava publicamente seu nome traduzido para a língua grega, segundo um hábito familiar. O termo neandertal é a junção de Neander e tal que significa vale na língua alemã e pode ser traduzido como “vale do homem novo”.

 

 

 

Em Resumo 

Nesse tópico discutimos a origem do homem enquanto espécie natural e o papel das relações socioculturais na formação da humanidade.

 

Referências 

DARWIN, Charles. A expressão das emoções nos homens e nos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

______. A origem das espécies e a seleção natural. Tradução Eduardo Nunes Fonseca. Ilustrações Edmundo Rodrigues. São Paulo: Hemus, 2010.

______. A origem do homem e a seleção natural. São Paulo: Hemus, 2010.

GEERTZ, Clifford. 1966. A transição para a humanidade. In: Sol Tax (org.). Panorama da antropologia. Rio de Janeiro, Fundo de Cultura.

_____. O impacto do conceito de cultura sobre o conceito de homem. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

MORIN, Edgar. O Enigma do Homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

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