Texto: Revolução Russa: a Vitória do Socialismo

Revolução Russa: a Vitória do Socialismo

A revolução ocorrida na Rússia no início do século XX­­ reconfigurou, dos pontos de vista social, político, cultural e econômico, a estrutura daquele país. De um regime absolutista, onde o czar – nome que faz menção ao César do Império Romano – governava com plenos poderes, a Rússia passou para um governo popular, que ao longo de todo o século se apresentou como a alternativa da classe trabalhadora: o socialismo.

 

As Causas da Revolução

Para iniciarmos a discussão, expomos os argumentos do historiador Christopher Hill, que aponta como causas gerais da Revolução Russa:

 

  • O deficitário desenvolvimento econômico russo, com boa parte do comércio e da indústria sob a chancela do capital estrangeiro e com boa parte do consumo absorvida pelo próprio Estado.
 
  • Limitado desenvolvimento da burguesia e da classe média, decorrente do atrofiamento do desenvolvimento industrial. A burguesia russa jamais teve a mesma autonomia e o mesmo poder de barganha da burguesia ocidental, uma vez que a sua dependência do Estado era muito grande. O poder concentrado nas mãos do czar pouco espaço deixava para o florescimento do liberalismo, que atingiu apenas uma pequena fração da população - aqueles que eram muito ricos.
 
  • A presença estrangeira no financiamento da industrialização russa tornou a burguesia um apêndice do sistema internacional, fazendo-a procurar proteção junto ao czar, buscando, por exemplo, políticas protecionistas.
 
  • A extraordinária concentração de operários nos grandes centros urbanos do país (aproximadamente 3 milhões) e a exacerbada exploração a que estavam submetidos (o capitalista russo só sabia competir reduzindo os gastos e não implementando tecnologia, levando-o a forçar para baixo o padrão de vida dos operários). Com as possibilidades de participação política limitadas, e sem representação partidária na Duma, os trabalhadores russos optaram pela via radical da revolução, e não da reforma.  
 

 

A Queda do Império Russo

No início do século XX, a maioria das nações europeias adotou regimes políticos orientados pela lógica do liberalismo econômico. Havia uma exceção, a Rússia, o maior país do mundo, inclusive com maior extensão que o restante da Europa, que era governado por uma monarquia absolutista sob o comando de um czar.

 

Com cerca de 176,4 milhões de habitantes, das mais diversas etnias, línguas e tradições culturais, e com aproximadamente 90% dessa população alocada no campo, os súditos do czar eram submetidos a uma exploração praticamente servil pela nobreza russa, dona da maioria das terras agricultáveis do país. O restante da população se amontoava nas cidades em moradias irregulares e sob intensa exploração nas fábricas. Estima-se que cerca de 3 milhões de operários eram submetidos a jornadas de até 12 horas de trabalho, com remuneração irrisória. 

 

Essa conjuntura, como explicado no tópico anterior, fez com que os trabalhadores se organizassem em torno de uma representação política para lutarem contra a opressão do império czarista, o Partido Operário Social Democrata – POSD –, que posteriormente seria cindido em duas dissidências, os social-democratas, mencheviques (minoria), liderados por Martov e Plekanov, e os revolucionários profissionais, bolcheviques (maioria), liderados por Lênin. 

 

Em 1914, a Rússia ingressou na Primeira Guerra Mundial contra os impérios da Alemanha e da Áustria-Hungria. Esse ato foi alimentado pela ambição do czar Nicolau II, que, tendo o maior exército do planeta e guarnecido por cerca de 5 milhões de homens, acreditava que pudesse expandir as extensões do império russo e, deste modo, conter a insatisfação popular. Não deu certo: a ultrapassada estratégia militar do exército russo, a má alimentação e o armamento precário dos soldados fizeram o país sofrer duras perdas na batalha, o que agravou ainda mais a crise interna e aguçou o processo revolucionário. Em dois anos na guerra, o país perdeu quatro milhões de pessoas. O czar foi responsabilizado pela crise e uma onda de protestos tomou conta do país. 

 

A Revolução é Deflagrada

No início de 1917, houve uma crise de abastecimento em São Petersburgo e o governo instituiu o racionamento. A população se rebelou, preparou uma manifestação contra o império e os trabalhadores deflagraram greve geral. Em uma rápida sequência de acontecimentos, o exército entrou em confronto com a população, no entanto, os militares já estavam desgostosos com o imperador e pouco a pouco ingressaram na luta pelo lado revolucionário. Em 27 de fevereiro, a capital do império (até então São Petersburgo) foi tomada pelos revoltosos. Foi instituído um governo provisório com a participação de liberais e mencheviques, e o czar Nicolau II foi deposto. Era o fim do czarismo na Rússia. 

 

Inaugurava-se a primeira fase da revolução, o novo governo trouxe uma série de mudanças significativas. As associações de trabalhadores foram legalizadas e os exilados políticos puderam retornar para seus lares. A jornada de trabalho também foi reduzida. Vale ressaltar que os gestores deste governo não tinham interesse em sanar os grandes problemas sociais que afligiam tanto os camponeses quanto os trabalhadores fabris.  

 

Formou-se em São Petersburgo uma grande coligação entre militares e trabalhadores, dando origem a uma grande entidade que controlava parte do poder, como as forças armadas, os meios de transporte e de comunicação. Eram os sovietes, os mesmos que se auto-organizaram contra a opressão czarista em 1905. Surgiram pela Rússia várias organizações similares, que frequentemente se confrontavam contra a Duma. Uma das principais questões a que se opunham as duas instituições, Sovietes e Duma, era a permanência da Rússia na Primeira Guerra Mundial. 

 

Em julho de 1917, o soviete de Petrogrado (como passou a ser chamada a capital do país em fevereiro de 1917) organizou uma manifestação, onde os bolcheviques reivindicaram a retirada da Rússia da guerra. Sob o lema Paz, Terra e Pão, os revolucionários reivindicavam um governo popular. Tais propostas ganharam o apoio da população e, diante da repercussão do movimento, o partido bolchevique foi declarado ilegal e seus principais líderes foram exilados.  

 

Em setembro de 1917, Leon Trotsky assumiu a liderança do soviete de Petrogrado. A onda revolucionária se iniciou novamente. Com o respaldo da população, os bolcheviques conseguiram colocar em prática uma efetiva onda de protestos. Em outubro, uma reunião entre os líderes do grupo decidiu pelo início da revolução, com base em um plano traçado pelo líder do Exército Vermelho, Leon Trotsky. 

 

Por meio do exército vermelho, os sovietes tomaram a capital russa. Alexandre Kerensky, chefe do governo provisório, fugiu do país; outros líderes, porém, foram presos. Em 25 de outubro de 1917, os revolucionários tomaram o poder e instituíram um governo socialista na Rússia. Era o fim da segunda fase do processo revolucionário. 

 

Os Bolcheviques no Poder

Sob o comando de Lênin, foi instituído o Conselho de Comissários do Povo, entidade que tinha como função ditar os rumos que o país deveria adotar após a tomada do poder pelos socialistas. Trotsky foi o líder encarregado por tratar das relações exteriores e Josef Stálin, dos negócios internos. 

 

Dentre os atos iniciais do novo governo, a retirada da Rússia da Primeira Guerra Mundial e o início do projeto de reforma agrária (que fixou a medida máxima do lote de terra que o camponês poderia adquirir) figuram como as determinações mais importantes. A propriedade privada dos meios de produção foi abolida, o sistema financeiro e as indústrias foram estatizados por decreto do novo governo, várias delas possuíam capital estrangeiro. 

 

Tais medidas provocaram reação instantânea de diversos grupos sociais, principalmente a nobreza russa e os liberais. Com o apoio de tropas estrangeiras enviadas por França, Inglaterra, Japão e Estados Unidos, que temiam que a onda socialista se espalhasse pelo mundo, eles se organizaram e passaram a combater as forças comunistas. As forças contrarrevolucionárias ficaram conhecidas como Brancos, em oposição ao Exército Vermelho

 

Deste modo, iniciou-se, em 1918, a terceira fase da revolução, caracterizada por uma intensa guerra civil que perdurou por três anos, deixando um rastro de destruição que contabilizou 15 milhões de mortos, entre vítimas dos combates e óbitos ocasionados pela fome extrema e doenças. Diante de tal devastação social, diversas etnias se rebelaram contra o governo russo, buscando autonomia. Ao mesmo tempo, os combatentes estrangeiros intensificaram o apoio aos Brancos. 

 

Para fazer frente às forças brancas, foi decretado o comunismo de guerra – conjunto de medidas emergenciais e temporárias para enfrentar a guerra civil, que, dentre outras medidas, preconizava a centralização pelo Estado de grande parte dos bens produzidos no país (incluindo alimentos), posteriormente distribuídos à população. Tais medidas apontavam novos rumos: a coletivização da sociedade. 

 

A guerra chegou ao fim em 1921, com a vitória dos revolucionários. O êxito pode ser creditado a dois fatores: a habilidade do Exército Vermelho, comandado por Trotsky e composto de camponeses e operários dispostos a defender as conquistas da revolução, e a união dos revolucionários diante das divergências apresentadas pelos opositores. Todavia, a Rússia estava devastada, faltavam alimentos para a população e havia ainda o risco de novas rebeliões populares. 

 

 

Um passo para Trás, Dois para Frente

Ao fim da guerra civil, o governo socialista colocou em prática a Nova Política Econômica (NEP). Como Lênin havia afirmado, era necessário que a Rússia desse “um passo para trás, para dar dois para frente”. Dentre as medidas preconizadas na nova política, havia elementos capitalistas, como o estímulo à iniciativa privada em casos como a instalação de oficinas particulares, o comércio varejista, a venda de excedentes agrícolas, a liberdade de negociação entre patrões e empregados e a obtenção de empréstimos no exterior. O objetivo era fortalecer a produção, gerando recursos para sustentar o governo. A NEP ficou em vigor até 1928, e foi bem sucedida no estímulo à indústria, à agricultura e ao comércio. 

 

Em 1922, foi implantada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS –, uma tentativa de contornar o problema da desagregação da Rússia, uma vez que muitas etnias insistiam em reivindicar independência. A reação do mundo capitalista foi o esforço para isolar o país e evitar a propagação da revolução para outras partes do mundo, numa política conhecida como cordão sanitário.

 

Saiba Mais!

 

Saiba mais sobre a Revolução Russa através dos filmes:

 

  • Outubro, Sergei Eisenstein, 1928.
 
  • A Revolução dos Bichos, John Stephenson, 1999.
 
  • Leia também o livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell.

 

Em Resumo

Neste tópico vimos:

 

  • As causas da revolução: panorama sobre os principais aspectos que ocasionaram o levante revolucionário da população russa.  
 
  • A queda do império russo: eventos que levaram ao fim do império do czar Nicolau II e pôs fim ao último regime absolutista ainda em vigor na Europa.
 
  • A revolução é deflagrada: discussão sobre a rebelião popular que instaurou o primeiro regime socialista da história.
 
  • Os bolcheviques no poder: diretrizes adotadas pelos bolcheviques para conter a crise interna que se instaurou com a guerra civil após a tomada do poder pelos socialistas.
  • As ações adotadas pelo governo socialista a fim de conter os movimentos emancipacionistas das diversas etnias. 

 

Referências

ARRUDA, José Jobson e PILETTI, Nelson. Toda a História. São Paulo, Editora Ática, s/d.

CROUZET, Maurice. História Geral das Civilizações. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1969.

MANDEL, David. The Petrograd workers and the soviet seizure of power. London, Macmillan, 1984.

MEDVEDEV, Roy. Era Inevitável a Revolução Russa. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, s/d.

PIPES, Richard. História Concisa da Revolução Russa. São Paulo, Editora Record, s/d.

 
Vamos Praticar?
Já é cadastrado? Faça o Login!