Texto: Indústria Cultural

Indústria Cultural

Este tópico exige que façamos um exercício duo com um único objetivo. Por que duo? Porque o exercício consiste em relacionarmos as noções expressas no tópico Socialismo, bem como no tópico Linguagem e Comunicação. Pensar a relação das noções expressas nesses dois tópicos – exercício duo – servirá para cumprirmos o objetivo de nosso estudo aqui neste texto: compreender precisamente o significado de Indústria Cultural. E, além disso, vislumbrar as possibilidades de escapar da Indústria Cultural e determinar nosso destino social.

 

 

Retomando o Significado de Pensamento em Linguagem e Comunicação

Alguns livros de história dizem que, em Descartes, pensamento é razão e raciocinar. Porém, mais que isso, pensamento, diz o próprio Descartes, é querer e não querer, amar e odiar, entender, imaginar e, sobretudo, sentir e perceber. Sentir e perceber o mundo, as coisas todas dessa vida.

 

E de que modo o pensamento materializa-se e expressa-se? Ora, em palavras, em música, fotografia, pintura, dança de rua, ciência, literatura, tecnologia, cinema, em poesia, futebol (isso mesmo, o brasileiro inventou, ou melhor, encarnou o pensamento em futebol-arte, no qual os dribles, a ginga, o corpo é encarnação e expressão do que somos). Nenhum outro povo expressa essa arte como o brasileiro. E o pensamento brasileiro, tal como a materialização do pensamento brasileiro, atravessa o futebol-arte.

 

Ora, queremos dizer com isso que, para além do futebol, o pensamento encarna-se –materializa-se – em uma pluralidade de coisas. Ele se encarna nos textos de Machado de Assis, nos contos de Clarice Lispector, na capoeira do baiano, no Grande Sertão de Guimarães Rosa, no celular e no tablet, na poesia do pantaneiro Manoel de Barros, nas músicas de Chico Buarque, Villa Lobos e Cazuza, no maravilhoso Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, e também se materializa em matemática, física, química, história, filosofia, geografia, inglês, português, pão francês e em tantas outras coisas que não caberiam em todos os livros do mundo. O pensamento e a vida são coisas espetaculares, fantásticas e maravilhosas. A cultura brasileira é pluralista e, assim, reflete, como num espelho, nosso pensamento multicultural.

 

Atenção!

Faça uma coisa bela de sua vida: não exerça a politicagem. Partilhe o que produzir com a sociedade. Reconstrua o sentido de política, partilhando todo e qualquer pensamento. Porém, não partilhe um pensamento qualquer. Torne-se bom naquilo que pretenda fazer. Seja um excelente poeta, um ótimo professor, um grande médico, enfim, exerça a cidadania em seu aspecto excelente. Não seja medíocre: “conhece-te a ti mesmo”.

 

Todo ser humano – as crianças, os adolescentes, os adultos – tem o poder de expressar o pensamento, de expressar essa fantástica e terrível vida e, como conseguinte, produzir cultura. Todo e qualquer homem é capaz de expressar o pensamento e torná-lo carne. É justamente por isso que estamos estudando todas as disciplinas na escola: para potencializarmos nossos pensamentos, com o objetivo de torná-los carne, isto é, literatura, arquitetura, engenharia, medicina etc. Alguns farão do pensamento prédios, outros farão dele ciência, ainda outros fá-lo-ão literatura. 

 

Os professores, de modo geral, buscam mostrar aos alunos que expressar o pensamento não é coisa fácil. Muito ao contrário, produzir cultura requer esforço, coragem, estudo e disciplina. Não é nada fácil expressar o pensamento como Romário ou como Neymar. E como eles expressam? Com o corpo! O drible, a ginga, o gol de placa, a garra e a força. Igualmente, não é nada fácil tornar-se um escritor como Machado de Assis. É preciso esforço, estudo, busca e pesquisa. Numa palavra: filosofar.

 

Poetar como Manoel de Barros exige conhecer as regras da gramática. Encarnar o pensamento em forma de poesia requer esforço. Requer, num primeiro momento, que se aprendam as regras das linguagens, seja a linguagem do futebol ou da dança de rua, seja do teatro ou da poesia

 

De modo geral, é indispensável conhecer as regras da gramática para expressar o pensamento em forma de poesia ou de romance. É igualmente indispensável aprender as regras do cinema para que se faça um filme.

 

Qual seria, assim, um dos objetivos de estudar? Como já vimos em tópicos anteriores, é para exercer a cidadania em seu aspecto excelente, que se pode traduzir na seguinte afirmação: encarnar o pensamento e, assim, produzir cultura. O estudante, então, está sendo educado, isto é, capacitado, para encarnar pensamentos – seja em forma de arte, ciência ou tecnologia etc. Por isso, mais que “ir às urnas”, é preciso dominar a língua portuguesa, estudar filosofia e sociologia, ter noções de arte e igualmente compreender o próprio corpo, isto é, educar o corpo (educação física) não só para jogar futebol, mas também para dançar, atuar no teatro, entender sua sexualidade, suas ações, escolhas, seus jeitos, sua mentalidade. Porém, tudo isso não acontece da noite para o dia, mas através de um exercício constante de estudo, pesquisa e busca: de filosofar, portanto. 

 

Você Sabia?

Machado de Assis era autodidata. Ele aprendeu a ler em francês, latim e grego, assim como a escrever. Lia com frequência os textos de Platão, Aristóteles, Marx, Descartes, Shakespeare, Goethe e tantos outros. Era autodidata porque aprendeu essas línguas, a ler esses livros e a escrever sozinho, sem professor. Existe um lugar no Rio de Janeiro que se chama Academia Brasileira de Letras. Esse lugar protege todos os livros que ele leu, bem como os rabiscos que ele fez em cadernos. Dizem alguns que ele era um gênio. Acredito que, muito mais do que isso, ele estudava muito e, por isso, encarnou seu pensamento em romances, contos, crônicas e poesias. Ele estudava todos os dias e buscava ser um bom escritor todos os dias, segundos, minutos, enfim, a cada instante. Machado de Assis era um gênio que estudava muito e tornou-se um escritor genial.

 

Duo com Marx

Alguém certamente questionará a si mesmo: “será que realmente determino quem eu sou, quer dizer, o que penso, o que gosto, o que leio, a música que amo, meu conceito de amizade, meu conceito de amor, de família, de futebol, de literatura, de filme?”. Igualmente esse alguém poderá perguntar: “qual a relação do pensamento com o socialismo?”. Aliás, qual a relação entre pensamento e indústria cultural? É fácil entender; difícil é ir além de entender. Que significa isso?

 

Vimos com Marx que os proprietários dos meios de produção (os capitalistas) detêm o poder econômico, e que os governantes (Estado) nada mais são do que administradores dos negócios comuns de toda a classe burguesa. Mas de que modo os proprietários da Indústria Cultural servem-se para determinar o destino da sociedade, ou seja, de que modo eles se servem para determinar nosso modo de ser, pensar, agir, gostar, isto é, como sugerem – os que detêm o poder econômico – que encarnemos nossos pensamentos? 

 

Em primeiro lugar, os proprietários das indústrias (bem como o Estado) oferecem uma educação de qualidade a poucos e, assim, oferecem à grande parte da população o exercício da cidadania apenas em seu aspecto minúsculo: o direito ao voto. 

 

Em segundo lugar, a indústria (com a bênção do Estado) produz e vende pensamento encarnado (cultura), o qual impede que essa grande maioria (a massa) desenvolva o próprio pensamento para o exercício da cidadania em seu aspecto excelente, isto é, que desenvolva e participe da produção do pensamento humano a fim de produzir cultura, e não apenas consumi-la. Mas, como essa indústria faz isso?

 

De forma geral, nosso modo de produzir o pensamento, e também de gostar do produto do pensamento, isto é, das artes, da dança, dos livros, das amizades, dos amores, das músicas, de literatura, família, casamento, carro, futebol, ciência, tablet etc., é sugerido (muitas vezes determinado)    pelos proprietários do poder econômico, os donos dos meios de produção, que visam unicamente o lucro, e nunca promover o bem público ou o exercício da cidadania em seu aspecto excelente. Um banco, seja qual for, nunca fará uma ação social se tal ação não lhe proporcionar um retorno financeiro maior que o investimento. Esqueça as propagandas bonitas com crianças brincando ao sol: os bancos são lobos. Eles não irão realizar uma ação política e social se isso não lhes for rentável. Não lhes interessa se existem crianças que não estão na escola ou que passam necessidades básicas, como comer.

 

Além dos bancos, o que os donos das indústrias culturais querem? Ora, vender cultura e lucrar muito. Mas que tipo de cultura? Isso depende. Depende do público-alvo. Se a maioria das pessoas gosta de música de três acordes, é justamente isso que a indústria cultural irá vender. Geralmente as pessoas gostam de música de três acordes. Se a maioria das pessoas gosta de livros de autoajuda, é justamente esse tipo de livro que será produzido pela indústria. Se o objetivo dos clubes de futebol é produzir “craques de bola” para lucrar com o “passe do jogador”, é justamente nisso que a indústria cultural transforma o futebol: num comércio. Isso sem falar no valor das entradas aos estádios.

 

Antes de 2014, por volta de 1990, uma entrada ao Maracanã custava de dois a cinco reais. Em dias atuais, os verdadeiros donos da bola transformaram o futebol num comércio tosco, o futebol-arte em investimento monetário, pois uma entrada ao Maracanã hoje custa por volta de sessenta reais. O jogo de futebol nas mãos dos grandes empresários tornou-se, assim, mais comércio do que arte, e os jogadores se tornaram apenas fantoches desse comércio, reiterando o velho fantasma da divisão de classes e o ritmo acelerado das fábricas. 

 

 

Assim, os donos das indústrias – que detêm tanto o poder econômico quanto os meios de produzir cultura – arrogam o direito de determinar o destino social a partir dessa nova ordem: a ordem econômica. Porém, de que maneira isso se dá? E de quais meios os proprietários das indústrias – os capitalistas – utilizam-se para determinar tal destino? Um dos meios é transformando pensamento e cultura em fast food, como se fossem comida rápida, barata, saborosa e sem muito preparo. Isto é, vendem pensamento e cultura que não nutrem a vida, antes, reiteram as velhas noções de alienação do trabalho, distinção de classes e exploração do trabalhador. Além disso, o produto que a indústria cultural oferece às massas promove o fenômeno de pessoas mais tolas e de péssimo gosto musical, literário e artístico em geral, não menos que um péssimo modo de viver a vida. 

 

Em outras palavras, a indústria cultural, em vez de promover aos cidadãos o espírito cheio, torna-os balofos. Incha-os de tantas porcarias que seu espírito continua vazio. Montaigne disse que não adianta ter a barriga cheia de comida se não a digerimos, se não assimilamos o conteúdo, se tal conteúdo não nos fortalece e não nos faz crescer na vida. Cultura que engorda a barriga, mas deixa magro o espírito, a mentalidade, a própria expressão do pensamento, não é vida nem pensamento, antes é miséria de espírito. 

 

Leitura

Leia Dom Quixote. Esse livro dispensa qualquer apresentação. Leia ouvindo o blues de Robert Johnson.

CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. São Paulo: L&PM Editores, 2007

 

Em Resumo

O pensamento é uma coisa fantástica e maravilhosa que se encarna –materializa-se – em cultura, isto é, em tudo que o pensamento humano é capaz de encarnar e de ser encarnado. Num livro, por exemplo, há pensamento encarnado. Porém, ninguém se torna bom sem que se esforce, lute, busque e, além disso, sem que conheça a si mesmo. A indústria culturalque detém o poder econômico e o poder de produzir cultura – sugere o consumo de pensamento como de fast food. Porém, para ser um bom médico, um excelente poeta, um grande músico, é indispensável outro movimento: “slow food”. Sem filosofar, ou seja, sem busca e pesquisa, ninguém é bom naquilo que faz. Por isso, estude e seja feliz.

 

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