Texto: As Principais Características do Romantismo

As Principais Características do Romantismo

Após um panorama sobre o ambiente em que se elaborou o Romantismo, precisamos discutir os principais aspectos estéticos presentes nas obras artísticas daquele momento. Assim, passemos para uma observação sobre o círculo da tematização das atitudes vividas pelos escritores românticos e pontuemos as principais mudanças no nível estético do texto. Vamos a elas. 

 

Alterações Temáticas e Estilísticas do Romantismo

Victor Hugo, um dos expoentes franceses na poesia romântica, afirmou que “o Romantismo não é nada mais que o liberalismo na arte”. Conforme vimos, é nesse ambiente proposto pelas revoluções burguesas e pelo liberalismo que o Romantismo será desenhado. Entretanto, necessitamos compreender as características que regulam a arte nesse momento. Devemos ter em mente que os aspectos textuais encontrados no movimento se diferem daqueles percebidos em seu final. Podemos notar essas alterações, uma vez que temos um estilo de época modelado no decurso dos acontecimentos históricos, bem como no comportamento dos autores considerados delineadores de uma conduta estética. 

 

Portanto, o marco da visão romântica corresponde à maneira como o sujeito observa o mundo: a subjetividade, as emoções do eu como espaço de criação. O representante burguês não possui lastro social com o mundo aristocrático; entretanto, será ele o representante político e econômico de seu tempo. Esse espaço ocupado pelo progresso econômico está permeado de individualismo, fazendo da arte romântica uma forma de representação do homem burguês, uma vez que a arte deve ser a expressão da interioridade, da expressão do sujeito. Essa expressão da arte como forma de exteriorizar as concepções particulares sobre o mundo viabilizará uma liberdade de criação do sujeito, em outras palavras, uma proposta de liberdade estilística, com versificação e métricas variadas e popularizantes. Para exemplificar essa liberdade criadora, analise o fragmento do poema A valsa, de Casimiro de Abreu. Observe que o poema segue o ritmo da dança e do sentimento do eu lírico: 

 

Tu, ontem,                     Tranquila,

Na dança                       Serena,

Que cansa,                    Sem pena

Voavas                           De mim!

Co’as faces

Em rosas                        Quem dera

Formosas                       Que sintas

De vivo,                          As dores

Lascivo                           De amores

Carmim;                         Que louco

Na valsa                         Senti!

Tão falsa,                       Quem dera

Corrias,                          Que sintas!...

Fugias,                           — Não negues,

Ardente,                         Não mintas...

Contente,                       — Eu vi!...

 

Uma marca relevante a ser ressaltada diz respeito ao idealismo. Essa noção pode ser percebida desde o lema da Revolução Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade), embora a realização do proposto não acontecesse de maneira tão perfeita quanto à mencionada. Para o romântico, o mundo circundante poderia não ser exatamente o desejado, mas ele idealizava tal lugar mediante a fantasia e a imaginação. Isso se manifesta no amor perfeito, ideal e irrealizável, abrindo mão de viver um sentimento para cultivar o amor ideal. O mito do herói romântico também foi elaborado no âmbito da idealização: repleto de predicados, de boas intenções, de sentimentos nobres, pureza e beleza angelical. Observe o fragmento do poema Se se morre de amor, de Gonçalves Dias: 

 

Se se morre de amor! — Não, não se morre,

Quando é fascinação que nos surpreende

De ruidoso sarau entre os festejos;

Quando luzes, calor, orquestra e flores

Assomos de prazer nos raiam n’’alma,

Que embelezada e solta em tal ambiente

No que ouve, e no que vê prazer alcança!

 

Simpáticas feições, cintura breve,

Graciosa postura, porte airoso,

Uma fita, uma flor entre os cabelos,

Um quê mal definido, acaso podem

Num engano ’d’amor arrebatar-nos.

Mas isso amor não é; isso é delírio,

Devaneio, ilusão, que se esvaece

Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes no morrer despedem:

Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,

’D’amor igual ninguém sucumbe à perda.

 

Essa fantasia encaminha o poeta a perceber que o mundo circundante não corresponde ao sonhado, permitindo o aparecimento de outra característica: a fuga da realidade ou evasão da realidade. Ela pode ser percebida em histórias narradas em locais que nem o público leitor, nem o escritor estiveram antes, recriando aquele lugar por meio da fantasia, elaborando e enaltecendo lugares exóticos ao homem daquele tempo. Outra maneira de fantasiar o mundo se relaciona ao interesse pela Idade Média e pelas suas tradições como uma valorização do passado, pois, à época medieval, os homens eram tidos de maneira relevante: eram cavalheiros e honrados. A valorização do passado individual também entra no escopo do idealismo. A infância perdida, por exemplo, é um assunto comum dos românticos. Assim, o romântico idealiza o homem e o mundo circundante, mediante a valorização do folclore e do sentimento patriótico. Observe o poema Meus oito anos, de Casimiro de Abreu. O tom proposto corresponde a um passado longínquo, como se o poeta fosse um idoso. Nesse contexto, a maioria dos poetas românticos faleceu antes de completar 21 anos de idade, e nesse grupo está Casimiro de Abreu, um jovem de 16 anos cantando a infância perdida. Essa era uma maneira de refugio da realidade. Observe:

 

Oh! que saudades que eu tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

 

Essa fuga da realidade leva, muitas vezes, ao desejo de morte, característica típica do poeta romântico. Tal busca pela morte se dá como uma forma de tentar encontrar, por meio dela, o amor verdadeiro, a felicidade real. Assim, as obras desse momento possuem traços egóticos, em que os sentimentos dos sujeitos são postos em primeiro lugar; bem como aspectos irracionalistas, pois expressam os arroubos sentimentais guiados pela emoção, e não pela razão. Um excelente exemplo dessa fuga pela morte, própria da geração egótica, pode ser observado no poema Se eu morresse amanhã, de Álvares de Azevedo:

 

Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã;

Minha mãe de saudades morreria

Se eu morresse amanhã!

 

Quanta glória pressinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã!

 

Para o romântico, a natureza é um elemento fundamental, fazendo com que ele a cultue, todavia, de maneira distinta da do árcade. No Arcadismo, a natureza representa o equilíbrio, a paz, a tranquilidade, funcionando como uma natureza decorativa. Para o romântico, ela é a única capaz de compreender os mais íntimos sentimentos do poeta; ela representa toda a intensidade do mundo interior que o romântico procura libertar, uma expressiva cúmplice dos sentimentos do poeta. Nos poemas anteriores, é possível notar a natureza funcionando como expressão da interioridade do poeta. Para completar essa relação, observe os trechos de Navio Negreiro, de Castro Alves. Note que essa cumplicidade entre os sentires da natureza e do poeta elaboram um tom retórico pretendido:

 

‘Stamos em pleno mar... Doudo no espaço 

Brinca o luar - dourada borboleta; 

E as vagas após ele correm... cansam 

Como turba de infantes inquieta.

 

‘Stamos em pleno mar... Do firmamento 

Os astros saltam como espumas de ouro... 

O mar em troca acende as ardentias, 

– Constelações do líquido tesouro...

 

Os sentimentos nunca foram tão cantados em um movimento literário como no Romantismo. O sentimentalismo passa a ser a medida de valoração, ou seja, se antes o indivíduo era nobre porque possuía descendência aristocrática, a partir do Romantismo, a notoriedade terá outro valor: o sujeito passará a ser considerado nobre, tendo em vista os sentimentos que cultua. 

 

Vale notar que as alterações provocadas pelo Romantismo também se deram no âmbito estético. Até o Arcadismo, os gêneros poéticos (épico, lírico e dramático) eram o paradigma estético, bem como as formas fixas existentes (epopeia, ode, soneto, rondó, tragédia e comédia, por exemplo). Com o advento do Romantismo, não seria mais possível escrever aos moldes de uma linguagem setecentista, haja vista a liberdade criadora do sujeito em constituir a determinação artística desde os últimos anos do século XVIII.

 

Você Sabia?

Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo em 12 de setembro de 1831 e faleceu no Rio de Janeiro em 25 de abril de 1852, aos 21 anos de idade. O poeta fora patrono da Cadeira n. 2 da Academia Brasileira de Letras, por escolha de Coelho Neto. Uma questão interessante diz respeito à elaboração do poema Se eu morresse amanhã: o poeta o escrevera um mês antes de sua morte, sendo declamado no enterro por Joaquim Manuel de Macedo. Era um típico representante de sua geração. 

 

Em Resumo

Percebemos que as características estéticas do Romantismo correspondem a uma substituição dos moldes cultuados pela Antiguidade Clássica, passando a arte do erudito ao popular. A libertação estilística corresponderá à medida do texto romântico, possuidor de estilo declamatório, pontuação expressiva, mistura de gêneros e versificação variada. O recuso de figuras de estilo transmitirá o manancial de emoções do sujeito, com destaque para a hipérbole. O herói e a natureza serão expressivos nesse momento, assim como o romance burguês configurará a sociedade circundante. 

 
Já é cadastrado? Faça o Login!