Texto: Novos Ventos na América

Novos Ventos na América

No final dos anos 1990 houve, na América Latina, uma série de governos de orientações políticas e práticas comuns à esquerda, alguns com traços socialistas mais intensos do que os demais. Observou-se isso a partir de maciços investimentos em áreas sociais, da realização da reforma agrária em alguns países e da nacionalização de empresas. Atualmente, a América Latina tem contestado a hegemonia política dos Estados Unidos. 

 

A Revolução Bolivariana

Uma das figuras mais importantes da história recente da América Latina foi o presidente Hugo Chávez. Vítima de câncer, ele faleceu em 2013 após 14 anos de um governo sequencial que poderia durar até 2019, completando duas décadas em eleições consecutivas.     

    

Figura controversa no cenário internacional, Chaves foi eleito para seu primeiro mandato em 1998, com aproximadamente 57% dos votos e, ao longo dos anos, suplantou os protestos da oposição e uma tentativa frustrada de golpe em 2002 – tais medidas lhe renderam significativo respaldo da população. Em 2009, foi aprovada uma emenda constitucional que permitia a reeleição indeterminada para presidente, o que garantiu a Chávez outras três vitórias em 2002, 2006 e 2012. 

 

Hugo Chávez

    

No poder, Chávez foi a principal liderança latina na articulação da chamada Revolução Bolivariana, um programa de reformas estruturais de cunho notadamente socialista que visa implantar uma democracia popular e participativa na Venezuela. Externamente, Chávez se empenhou em fortalecer os laços entre as nações latino-americanas. 

    

As duas principais características do governo de Hugo Chávez foram o fortalecimento do poder executivo, que permitiu ao presidente grande intervenção na economia, e a abertura para a participação direta da população nos rumos da política venezuelana, por meio de comitês e frequentes consultas populares. 

 

Saiba Mais!

Sobre a revolução na Venezuela, o filme A revolução não será televisionada, de Kim Bartley e Donnacha O’Briainsobr (2003), apresenta uma perspectiva ímpar. Vale a pena conferir!

 

Evo Morales e a Bolívia

Embora seja um rico produtor de gás, a Bolívia é um país cuja maioria da população padece de grande pobreza. Tendo desde meados da década de 1980 suas riquezas naturais como gás, cobre e petróleo privatizadas por organismos internacionais, o país mergulhou em uma intensa dificuldade econômica, levando a maioria da população a buscar sua sobrevivência nas lavouras de coca. No entanto, como essa planta é matéria-prima para a fabricação de diversas drogas, foi aprovada uma lei em 1988 que impunha limitações ao seu cultivo. 

 

Sob a liderança do índio aimará Evo Morales, foi criado, em 1997, o Movimento ao Socialismo (MAS), uma entidade que representava os plantadores de coca no combate às imposições colocadas por outras nações, sobretudo os Estados Unidos. Em 2002, o MAS conseguiu eleger um número expressivo de parlamentares no Congresso. 

 

Evo Morales

    

Posteriormente, eclodiu na Bolívia uma onda de manifestações populares contra a exploração do país e as intenções do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada de exportar o gás natural boliviano para os Estados Unidos. Pressionado, Lozada renunciou ao cargo, e seu vice, Carlos Mesa, resistiu apenas 20 meses no poder. Em 2005, foram realizadas novas eleições presidenciais, nas quais Evo Morales foi eleito no primeiro turno, com 53% dos votos. 

    

Uma vez no poder, Morales nacionalizou a exploração dos hidrocarbonetos e elevou os impostos sobre a exploração desses recursos. Nos anos seguintes, setores como metalurgia e comunicação foram nacionalizados. Em 2006, iniciou-se o processo da reforma agrária, e após dois anos, em 2008, foi iniciado um movimento de oposição ao governo de Morales, alegando a ilegitimidade de suas medidas – tal iniciativa foi duramente reprimida, e as ações do presidente foram endossadas por um referendo que contou com 67% de aprovação no que dizia respeito às ações do governo. 

 

Colômbia: uma Guerra contra o Narcotráfico 

Diferentemente das outras nações latinas, a Colômbia possui laços diplomáticos estreitos com os Estados Unidos, fato que provoca enfrentamentos no continente. Um dos principais entraves do país é o narcotráfico: há décadas, o país enfrenta uma guerrilha contra as Forças Armadas Revolucionárias (FARC). Esse movimento, fundado em 1964, tem como molde o movimento que impôs a ditadura socialista em Cuba. 

    

A partir de 1996, as Farc adotaram a prática de sequestros de políticos e pessoas públicas de expressão, o que fez com que os Estados Unidos incluíssem a organização na lista de combate a entidades terroristas. Outro fator que motivou essa medida foi a acusação de que as Farc têm envolvimento com o narcotráfico. 

 

A guerra contra o narcotráfico tem gerado situações delicadas no continente, como o debate sobre a atuação de forças militares norte-americanas em solo latino e operações como a invasão do território equatoriano para a captura de guerrilheiros, por exemplo, o caso de Raúl Reyes, em 2008.

 

O Golpe em Honduras 

Em 2005, Manuel Zelaya foi eleito presidente de Honduras, na América Central, mas, em 2009, foi vítima de um golpe conduzido pelo exército e obrigado a se retirar do país, partindo para a Costa Rica. Roberto Micheletti assumiu o Congresso hondurenho em seu lugar. 

 

Manuel Zelaya refugiado na embaixada brasileira

 

Para os golpistas, o ex-presidente foi afastado de suas funções pela suposta pretensão de realizar no país um plebiscito que teria como finalidade alterar a Constituição, de modo a permitir sua reeleição, o que não é permitido pela Carta Magna do país. O golpe foi criticado por todos os países da América. 

 

Ex-candidata à presidência, Ingrid Betancourt

 

Em Resumo

Apesar dos esforços pela integração regional, há vários conflitos e contradições na América Latina. Os motivos são diversos, como a pobreza, a instabilidade política e o controle de recursos naturais. Outro entrave são os grupos dominantes, geralmente orientados por políticas avessas ao que tem sido desenvolvido no continente. 

         

Referências

BETHELL, Leslie (Org.). História da América Latina. São Paulo: Edusp; Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 2004. 6 v.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

 
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