Texto: O Realismo e o Naturalismo - Contexto Histórico Brasileiro

O Realismo e o Naturalismo - Contexto Histórico Brasileiro

Buscaremos discutir em que medida as questões históricas brasileiras corroboraram na implementação de uma estética realista e naturalista. Assim, apontaremos as questões que nos foram relevantes do segundo império. 

 

O Quadro Brasileiro x o Realismo/ Naturalismo 

A terceira geração romântica, o romance nordestino de Franklin Távora e os últimos romances urbanos de José de Alencar já acenavam para outro campo estético, haja vista evidenciarem as crises políticas vividas no Brasil. Em 1850, extinguiu-se o tráfico negreiro, acelerando a decadência da economia açucareira. Assim, o eixo da economia brasileira deslocou-se do Norte para o Sul-Sudeste do país, colaborando para o desenvolvimento de concepções liberais, abolicionistas e republicanas. 

 

O historiador e filósofo brasileiro João Cruz e Costa estudou o desenvolvimento de diferentes ideários no Brasil, procurando visualizar suas relações com a realidade política, econômica e social de nosso país. Assim, o catedrático em sua obra Pequena história da República tece a seguinte análise sobre a sociedade do final do século XIX: 

 

 

No quadro da sociedade brasileira da segunda metade do século XIX é possível perceber também a existência de uma incipiente classe média composta de elementos ligados à atividade comercial, ao que se chamaria de alto comércio, aquele que se ligava à exportação e importação, gravitando na órbita da classe senhorial, e o comércio tout court ligado às limitadas transações de um pequeno mercado interno. Além da classe comercial, contava-se o funcionalismo que deriva da amplidão do aparelho do Estado e de características normais à estrutura econômica brasileira em que o Estado se apresenta como empregador por excelência, a válvula propícia à compensação das limitações de um mercado de trabalho onerado pelo escravismo; os elementos das profissões liberais, em grande parte oriundos da classe comercial e do funcionalismo; os militares quase todos moços que ingressavam na carreira das armas para conseguirem instrução que as condições da vida lhes negavam; os intelectuais, quase todos funcionários (como o grande Machado de Assis); os sacerdotes, boa parte oriunda, como os militares, de família pobre, que procuravam os seminários para obterem a instrução que sua família não lhes podia dar; os pequenos produtores agrícolas e, enfim, os trabalhadores, na sua maioria escravos; os trabalhadores livres e os representantes ainda poucos, das primeiras levas de imigrantes. 

 

A partir de 1870, esse complexo de classe média que acabamos de delinear – ou essa burguesia – encontra-se constituída e apta para candidatar-se a um poder que já oscilava nas mãos trêmulas da aristocracia açucareira, que assentava o seu poder na agricultura do norte do país. Essa burguesia não seria capaz, no entanto, de alterar a sociedade! A classe média, a que se incorporavam empregados e funcionários, vai cristalizar-se em torno de uma força nova; essa força é o exército nacional. Não se tem dado, escrevia Sam Tiago Dantas, o relevo devido a este fato capital de nossa história: a identificação do exército com a classe média (COSTA, 1974, [s.p.]). 

 

Portanto, de 1870 a 1890, o pensamento da elite intelectual brasileira iria cada vez mais ao encontro das teses científicas e estéticas desenvolvidas na Europa (essas questões foram analisadas no item correspondente às características do Realismo e do Naturalismo). É nesse contexto que Tobias Barreto, Sílvio Romero e Capistrano de Abreu buscavam conciliar as concepções europeias à realidade brasileira, permitindo a elaboração do Realismo e do Naturalismo no Brasil. Mais adiante, autores como Euclides da Cunha, Clóvis Bevilacqua, Graça Aranha e Medeiros de Albuquerque fariam seu leitor perceber marcas desse movimento estético em contradição com o processo do que chamamos no Brasil de pré-Modernismo. Trataremos disso nos módulos subsequentes. 

 

A década de 60 do século XIX foi marcada pela ruptura com o regime escravocrata, bem como com as instituições políticas que permitiam essa forma de trabalho. Assim, diversas declarações abolicionistas e pré-republicanas aconteceram nesse momento, e um grupo progressista do Partido Republicano arquitetou a fusão de tal pensamento à vontade econômica de alguns políticos de São Paulo, desejosos da substituição da mão de obra escrava pela livre. Em 1870, quase 200 mil imigrantes entraram no Brasil e, na década seguinte, esse número chegou a meio milhão. 

 

Nesses termos, a problemática da abolição e a da República foram temáticas discutidas pelo homem desse tempo, indissociáveis. Paulatinamente, a tradição monárquica se desfez em prol de um regime democrático. Na Escola de Recife, Tobias Barreto discutia as ideias de Augusto Comte e Hipólito Taine. Na sequência, Silvio Romero refletiu sobre a realidade frente à consciência cultural. 

 

O século em questão foi marcado pelo desaparecimento do suporte libertário posto no Romantismo. Não há função, portanto, para a nobreza e para o clero, avesso à nacionalização e à liberdade de expressão e religiosa. Em contrapartida, a classe média detentora dos meios de produção, elaborada pelo pensamento burguês durante o Romantismo, encontrou um opositor: o socialismo, devido ao fomento da classe proletária. 

 

De fato, o Brasil e os países latino-americanos em geral eram carentes de indústrias e de centros urbanos desenvolvidos, pois ainda viviam de uma política monárquica e escravocrata, tal como dissemos. Assim, foi preciso ampliar o mercado consumidor: eis um sustentáculo da democracia brasileira. Essa atmosfera de mudanças políticas desejada pelas campanhas abolicionistas e republicanas que tomam corpo em 1870 corresponde ao retrato realizado por Sílvio Romero, em que tais reivindicações culminaram com o fim do segundo império de Dom Pedro II, logo após a Guerra do Paraguai. 

 

Assim, a transposição entre ditos últimos românticos (terceira geração romântica) e a visão objetiva do realista ocorreu por meio do grupo da Escola de Recife. Naquele momento, os autores respondem ao objetivo comum de enfrentamento à subjetividade romântica, acercando-se de impessoalidade para a escrita. Essa sede de objetividade foi a marca do fim do século XIX e assinala a presença das correntes científicas daquele tempo. Parafraseando Alfredo Bosi (1983, p. 168), essa nova maneira de perceber o mundo acontece em planos diferentes, porém, complementares. O primeiro diz respeito ao plano ideológico, em que a explicação da realidade corresponde a um destino imutável e fundado no determinismo. O segundo, o plano estético, o exímio cuidado estilístico, o desejo de elaborar um objeto novo, sem a interferência da história da humanidade, advém do pessimismo e da ideologia determinista. Isso viabilizará que o romance e o conto realistas busquem as tonalidades do naturalismo, fazendo com que as personagens e os enredos se submetam às leis da natureza. 

 

Você Sabia? 

Joaquim Nabuco foi o último grande romântico liberal do século XIX em nosso país. Ele foi um dos representantes da luta contra a escravidão, com alterações em nosso panorama histórico que marcaram o início da estética realista-naturalista. Joaquim Nabuco foi descendente de senhores de engenho, formou-se em direito na Escola de Recife, em seguida elegeu-se deputado e publicou O abolicionismo, em 1883. Para o orador, a escravidão era um egoísmo do senhor, pensamento avesso à formação que tivera. Joaquim Nabuco faleceu em 1910 em Washington quando servia à República exercendo a função de diplomata brasileiro. Veja o documentário Diálogo com Joaquim Nabuco, da TV Câmara, pesquise fontes históricas e perceba os atravessamentos da história em nossa literatura. Bom estudo! 

 

Atenção 

A Guerra do Paraguai (1864- 1870), como pontuamos, foi expressiva para a conjuntura histórica e artística brasileira. Esse conflito gerou inúmeras despesas para o país, que solicitou o auxílio externo (principalmente Inglaterra) para sanar suas despesas. Tal acontecimento também permitiu a modernização e o fortalecimento do Exército Brasileiro. Além disso, devemos ressaltar que a maioria dos oficiais era de homens provenientes da classe média urbana, e os soldados foram recrutados da população mais pobre ou eram escravos, tornando-se uma força de resistência política importante em nosso país, apoiando os movimentos republicanos e abolicionistas. Fique atento! 

 

Saiba Mais! 

O Segundo Reinado (1840-1889) foi marcado pelo regime parlamentarista, considerado por muitos como uma organização política às avessas dessa proposta de governo. No caso brasileiro, o imperador Dom Pedro II escolhia os senadores ou deputados para o cargo de primeiro-ministro, manipulando seus interesses e utilizando os de uma classe dominante, alternando entre liberais e conservadores. O Brasil desse momento encontrava-se ainda vinculado ao latifúndio e à economia cafeeira (responsável por retirar o país e o império de uma crise econômica), sendo ainda visto como escravocrata. Com o advento de uma série de leis e retaliações internacionais (Tarifa Alves Branco, Bill Aberdeen, entre outras), o Brasil foi forçado a proibir o tráfico e, posteriormente, o uso de mão de obra escrava, fazendo com que o capital outrora investido no tráfico de escravos fosse liberado para outros ramos da economia, tal como a indústria e, assim, incentivando a presença de imigrantes europeus no Brasil. A presença da indústria e a miscigenação cada vez mais intensa das raças viabilizavam o surgimento da classe média urbana insatisfeita com a falta de representatividade, bem como com as condições da vida humana. É mediante esse contexto caótico que as correntes cientificistas serão difundidas pelo país nas obras Realistas e Naturalistas. 

 

Leitura 

Em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, abolindo definitivamente a escravidão do Brasil. Entretanto, esse foi o documento final de um processo instituído no país. Como dissemos, Nabuco elaborou, dissertou e defendeu a causa abolicionista em diferentes ocasiões, assim como notamos no texto que se segue. A questão corresponde a refletir em que medida essa problemática se extinguiu no Brasil e a constatar se ela findou ou assumiu outras nuances. Leia! Reflita! Discuta! 

 

O ideal abolicionista 

Compare-se com o Brasil atual da escravidão o ideal de Pátria que nós, abolicionistas, sustentamos: um país onde todos sejam livres; onde, atraída pela franqueza das nossas instituições e pela liberdade do nosso regímen, a imigração europeia traga, sem cessar, para os trópicos uma corrente de sangue caucásico vivaz, enérgico e sadio, que possamos absorver sem perigo, em vez dessa onda chinesa, com que a grande propriedade aspira a viciar e corromper ainda mais a nossa raça; um país que de alguma forma trabalhe originalmente para a obra da humanidade e para o adiantamento da América do Sul. 

 

Essa é a justificação do movimento Abolicionista. Entre os que têm contribuído para ele e cedo ainda para distribuir menções honrosas, e o desejo de todos deve ser que o número dos operários da undécima hora seja tal que se torne impossível, mais tarde, fazer distinções pessoais. Os nossos adversários precisam, para combater a ideia nova, de encará-la em indivíduos, cujas qualidades nada têm que ver com o problema que eles discutem. Por isso mesmo, nós devemos combater em toda a parte tendo princípios, e não nomes, inscritos em nossa bandeira. Nenhum de nós pode aspirar à glória pessoal, porque não há glória no fim do século XIX em homens educados nas ideias e na cultura intelectual de uma época tão adiantada como a nossa, pedirem a emancipação de escravos. Se alguns dentre nós tiverem o poder de tocar a imaginação e o sentimento do povo de forma a despertá -lo da sua letargia, esses devem lembrar-se de que não subiram à posição notória que ocupam senão pela escada de simpatias da mocidade, dos operários, dos escravos mesmos, e que foram impelidos pela vergonha nacional, a destacarem-se, ou como oradores, ou como jornalistas, ou como libertadores, sobre o fundo negro do seu próprio país mergulhado na escravidão. Por isso eles devem desejar que essa distinção cesse de sê-lo quanto antes. O que nos torna hoje salientes é tão-somente o luto da pátria: por mais talento, dedicação, entusiasmo e sacrifícios que os Abolicionistas estejam atualmente consumindo, o nosso mais ardente desejo deve ser que não fique sinal de tudo isso, e que a anistia do passado elimine até mesmo a recordação da luta em que estamos empenhados. 

 

A anistia, o esquecimento da escravidão; a reconciliação de todas as classes; a moralização de todos os interesses; a garantia da liberdade dos contratos; a ordem nascendo da cooperação voluntária de todos os membros da sociedade brasileira: essa é a base necessária para reformas que alteiam o terreno político em que esta existiu até hoje. O povo brasileiro necessita de outro ambiente, de desenvolver-se e crescer em meio inteiramente diverso. 

 

Nenhuma das grandes causas nacionais que produziram, como seus advogados, os maiores espíritos da humanidade, teve nunca melhores fundamentos do que a nossa. Torne-se cada brasileiro de coração um instrumento dela; aceitem os moços, desde que entrarem na vida civil, o compromisso de não negociar em carne humana; prefiram uma carreira obscura de trabalho honesto a acumular riqueza fazendo ouro dos sofrimentos inexprimíveis de outros homens; eduquem os seus filhos, eduquem-se a si mesmos, no amor da liberdade alheia, único meio de não ser a sua própria liberdade uma doação gratuita do Destino, e de adquirirem a consciência do que ela vale, e coragem para defendê-la. As posições entre nós desceram abaixo do nível do caráter; a maior utilidade que pode ter hoje o brasileiro, de valor intelectual e moral, é educar a opinião (feliz do que chega a poder guiá-la), dando um exemplo de indiferença diante de honras, distinções e títulos rebaixados, de cargos sem poder efetivo. Abandonem assim os que se sentem com força, inteligência e honradez bastante para servir à pátria do modo mais útil, essa mesquinha vereda da ambição política; entreguem-se de corpo e alma à tarefa de vulgarizar, por meio do jornal, do livro, da associação, da palavra, da escola, os princípios que tornam as nações modernas fortes, felizes e respeitadas; espalhem as sementes novas da liberdade por todo o território coberto das sementes do dragão; e logo esse passado, a cujo esboroamento assistimos, abrirá espaço a uma ordem de coisas fundadas sobre uma concepção completamente diversa dos deveres, quanto à vida, à propriedade, à pessoa, à família, à honra, aos direitos dos seus semelhantes, do indivíduo para com a nação, quanto à liberdade individual, à civilização, à igual proteção a todos, ao adiantamento social realizado, para com a humanidade que lhe dá o interesse e participação – e de fato o entrega tacitamente à guarda de cada um – em todo esse patrimônio da nossa espécie. 

 

Abolicionistas são todos os que confiam num Brasil sem escravos; os que predizem os milagres do trabalho livre, os que sofrem a escravidão como uma vassalagem odiosa imposta por alguns, e no interesse de alguns, à nação toda, os que já sufocaram nesse ar mefítico, que escravos e senhores respiram livremente; os que não acreditam que o brasileiro, perdida a escravidão, se deite para morrer, como o romano do tempo dos Césares, porque perdera a liberdade. 

 

Isso quer dizer que nós vamos ao encontro dos supremos interesses da nossa pátria, da sua civilização, do futuro a que ela tem direito, da missão a que a chama o seu lugar na América; mas, entre nós e os que se acham atravessados no seu caminho, quem há de vencer? É esse o próprio enigma do destino nacional do Brasil. A escravidão infiltrou-lhe o fanatismo nas veias, e, por isso, ele nada faz para arrancar a direção daquele destino às forças cegas e indiferentes que o estão, silenciosamente, encaminhando. 

(Joaquim Nabuco. O abolicionismo, 1883.) 

 

Em Resumo 

O Realismo e o Naturalismo no Brasil na segunda metade do século XIX, tendo como pano de fundo o segundo império, a Guerra do Paraguai, os movimentos abolicionistas, a vinda dos imigrantes para a substituição de mão de obra. Esse quadro permitira a instauração da estética realista, observando minuciosamente a realidade, bem como a naturalista, em que se buscou discutir as patologias sociais vividas por meio das correntes científicas elaboradas na Europa. 

 

Referências 

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1983. 

COSTA, João Cruz. Pequena história da república. 3. ed. Rio de Janeiro: Record; Civilização brasileira, 1974. 

HAUSER, Arnold. História social da arte e da cultura. Lisboa: Estante, 1964. v. 4. 

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 

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