Texto: Etnias e Noção de Minorias

Etnias e Noção de Minorias

É muito comum a referência a questões étnicas no mundo de hoje. A televisão nos fala a todo instante desse assunto, basta assistir a um telejornal para se deparar com a cobertura jornalística de um conflito armado ou com uma reivindicação de base étnica, como o conflito árabe-israelense, os massacres contra a minoria muçulmana na Índia, a luta pela independência política dos Curdos que vivem na Turquia, etc. Podemos ver ainda reportagens ou documentários que mostrem os rituais, a alimentação, etc. de uma etnia qualquer, de algum lugar distante, como, por exemplo, o ritual do chá japonês, a dieta à base de insetos na China, etc.

 

Conflitos étnicos

 

No entanto, a questão étnica pode bater diretamente à nossa porta. Se vivemos na mesma cidade ou bairro de grupos minoritários, podemos nos deparar com alguma comemoração típica, como uma festa em honra a uma santa de origem italiana, ou então uma feira japonesa, boliviana, etc. Pode acontecer também de um grupo de ciganos armar suas tendas em um terreno próximo à nossa casa ou, ainda, pelo simples fato de viver numa cidade, nos depararmos com pessoas de hábitos e vestimentas diversos do nosso, como véus nas cabeças das mulheres muçulmanas, roupas e forma de cabelo e barba dos judeus tradicionais, etc. 

 

Em suma, mesmo que não seja do seu interesse pessoal, você certamente já teve contanto com alguma etnia ao longo de sua vida. Esta é uma oportunidade de saber um pouco mais sobre o assunto.

 

Etnia: Uma Visão Existencialista

Num primeiro momento, buscou-se definir as etnias a partir de uma característica essencial ao grupo e, de preferência, que lhe fosse exclusiva. Nesse sentido, a busca para circunscrever um grupo étnico centrava-se na identificação de um ou alguns elementos que lhe fossem marcantes.

 

Assim, quando se pretendia identificar quem eram os italianos que imigraram para o Brasil, era natural buscar quais elementos lhes eram exclusivos, ou seja, quais práticas eram essenciais para defini-los enquanto sujeitos. De início, a tarefa parecia simples: os italianos têm um idioma próprio, uma culinária renomada internacionalmente, um modo bem expansivo de interagir com seus convivas e assim por diante.

 

O problema acontece após alguns anos de vida no Brasil: seus filhos aprendem a falar o português, alguns aspectos da culinária são incorporados pelos brasileiros em geral, seus modos expansivos coincidem com aqueles presentes em parte da população com a qual interagem. Além disso, há outra questão: os próprios italianos que continuaram na Itália acabam por modificar  sua forma de viver, passando a morar em cidades, trabalhar em fábricas, sofrer a influência dos meios de comunicação de massa, etc. Com isso, a Itália sonhada e rememorada pelos imigrantes não coincide mais com a realidade social.

 

Em suma, tanto os italianos que ficaram no seu país quanto os que se mudaram para cá foram afetados pela história e não têm um comportamento ou prática cultural único entre si. Mais ainda: os italianos do Brasil podem ter mais aspectos em comum com os brasileiros de modo em geral do que com seus ancestrais europeus. No entanto, eles podem se considerar como um grupo diferenciado em relação aos demais brasileiros, mas podem também ser percebidos da mesma maneira. Como explicar isso?

 

Bairro Bixiga em São Paulo

 

Por uma Visão Relacional dos Grupos Étnicos

Esse conjunto de fatores mostra que definir o que constitui uma certa etnia não é uma questão facilmente resolvida, mas existem alguns meios de encaminhar a questão. 

 

Foi Fredrick Barth, em 1969, quem ajudou a entender melhor esse aparente paradoxo. Segundo ele, os grupos étnicos não se definem a partir de um elemento fixo, mas constroem suas características distintivas a partir da relação com outros grupos da mesma natureza. Sendo assim, é a partir dessas relações que cada um deles irá retirar os elementos para se distinguir e se definir. Com isso, um elemento específico a uma etnia não é algo que sempre existiu, mas é produto histórico das relações que ela vai estabelecendo com outros grupos. Às vezes, uma diferença étnica é produzida a partir de uma origem comum, não só do isolamento.

 

Mas, como explicar o fato de os grupos assim formados terem conflitos entre si?

 

Há muitas questões envolvidas aí. Primeiro é preciso dizer que as pessoas não estão fingindo algo para parecerem diferentes dos demais; essas diferenças realmente existem; os agentes acreditam que produziram, por si mesmos, algo somente deles; crêem que a versão que têm é mais verdadeira que a dos demais; como exemplo disso, tem-se as várias religiões construídas a partir de uma matriz comum: todas elas têm a certeza de ter encontrado o caminho para a verdade, enquanto as demais estão equivocadas.

 

Assim, a necessidade de afirmar a particularidade com e contra os outros cria a etnia. Mas qual a razão da noção de etnia se articular com frequência à de minoria (e não é raro se falar em minoria étnica)? Isso acontece por vários motivos: pode acontecer de haver poucas etnias numa Nação e uma delas ser numérica e politicamente superior às demais, impondo aspectos de suas escolhas de vida às demais etnias que compõem a sociedade, como indica o caso da Guerra do Kosovo (vide o quadro Você Sabia?).

 

Pode ser que haja tantas etnias em um país que nenhuma delas consiga se impor como maioria numérico-política, tampouco consiga compor uma coalisão entre si. Com isso, os conflitos pela direção do Estado eclodem e tornam-se quase insuperáveis.

 

Enfim, pode acontecer de um mesmo povo, com língua comum ou muito próxima entre si, costumes compartilhados, etc., desenvolver elementos diferenciadores entre uma parcela de seus membros. Assim, quando os europeus chegaram ao litoral brasileiro no século XVI, encontraram um intenso conflito envolvendo Tupiniquins e Tupinambás. Embora eles compartilhassem todos os pormenores de sua cultura, havia uma arraigada disputa entre eles. Aliás, a se crer em algumas análises contemporâneas, seria justamente a existência desse conflito a origem da criação dos elementos que distinguiriam os dois grupos.

 

Todos esses fatos indicam que as etnias estão longe de deixar de existir, uma vez que são formas estáveis e constantes de construção das identidades no seio da humanidade.

 

 

Saiba Mais!

Uma etnologia dos índios misturados? Situação colonial, territorialização e fluxos culturais.

João Pacheco de Oliveira Filho

 

A etnologia das perdas deixou de possuir um apelo descritivo ou interpretativo e a potencialidade da área do ponto de vista teórico passou a ser o debate sobre a problemática das emergências étnicas e da reconstrução cultural. E é orientado por essas preocupações teóricas que se constituiu, do início dos anos 1990 para cá, um significativo conjunto de conhecimentos sobre os povos e culturas indígenas do Nordeste, ancorado na bibliografia inglesa e norte-americana sobre etnicidade e antropologia política, e — é importante acrescentar — nos estudos brasileiros sobre contato interétnico. […]

 

O processo de territorialização não deve jamais ser entendido simplesmente como de mão única, dirigido externamente e homogeneizador, pois a sua atualização pelos indígenas conduz justamente ao contrário, isto é, à construção de uma identidade étnica individualizada daquela comunidade em face de todo o conjunto genérico de índios do Nordeste. Os pajés Pankararu podem ensinar a comunidades de parentes desgarrados como se faz um praiá (cerimonial em que as máscaras dançam representando os encantados), mas cada nova aldeia (assim como cada grupo étnico dali surgido — como os Pankararé, os Kantaruré e os Jeripancó) irá levantar sua própria casa dos praiás, instituindo a sua própria galeria de encantados e instaurando uma relação específica com os encantados mais antigos.

 

Cada grupo étnico repensa a mistura e afirma-se como uma coletividade precisamente quando se apropria dela segundo os interesses e crenças priorizados. A idéia da mistura está presente também entre os próprios índios, sendo acionada muitas vezes para reforçar clivagens faccionais. Assim é que os Xukuru e Xukuru-Kariri, dentre outros, fazem distinção entre os índios puros (de famílias antigas e reconhecidas como indígenas) e os braiados (produto de intercasamento com brancos ou outros já mestiçados). 

 

 

Referência Bibliográfica: OLIVEIRA FILHO, J. P. Uma etnologia dos índios “misturados”? Situação colonial, territorialização e fluxos culturais. MANA. 4(1):47-77, 1998, p. 53, 60-1.

 

Leitura

O Cidadão Norte-Americano

Ralph Linton

 

O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo padrão originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão, cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos esses materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz uso dos mocassins que foram inventados pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções europeias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestiário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito.

 

Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário têm a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do séc. XVII. Antes de ir tomar o seu breakfast, ele olha a rua através da vidraça feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver chovendo, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central e toma um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas.

 

De caminho para o breakfast, para comprar um jornal, pagando-o com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a colher vem de um original romano. Começa o seu breakfast, com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia africana. Toma café, planta abssínia, com nata e açúcar. A domesticação do gado bovino e a ideia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando como matéria prima o trigo, que se tornou planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de maple inventado pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos. Como prato adicional talvez coma o ovo de alguma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no norte da Europa.

 

Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado pelos índios americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente do México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-europeia, o fato de ser cem por cento americano.

 

Referência Bibliográfica: LINTON, R. O homem: Uma introdução à antropologia. 3ª ed., São Paulo: Livraria Martins, 1959. Citado em LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 16ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.106-108. Disponível em: http://www.consciencia.net/2004/mes/02/linton-citacao.html

 

Você Sabia?

A guerra do Kosovo, uma região dos Bálcãs que fazia parte da antiga Iugoslávia, é sempre mencionada como um exemplo de guerra ocasionada por conflitos étnicos. Após a desagregação da Iugoslávia, a província do Kosovo foi integrada ao Estado sérvio. No entanto, a maioria da população local era de origem albanesa e a religião majoritária era a islâmica. Com isso, essa região buscou se separar da Sérvia, cuja maioria é cristã ortodoxa, declarando, de modo unilateral, sua independência em março de 1999. Isso desencadeou uma guerra extremamente dura, com o massacre da população civil kosovar. Após a intervenção militar da Organização das Nações Unidas (ONU), os conflitos cessaram e, hoje, algumas nações já reconhecem o Kosovo como um país independente.

 

Há alguns filmes que retratam bem esse conflito. É o caso de Beautiful people, dirigido por Jazmin Dizdar e lançado no mercado internacional em 1999. O filme se passa na Inglaterra e narra quatro histórias de pessoas que, direta ou indiretamente, estavam associadas ao conflito em Kosovo.

 

 

Em Resumo

Neste tópico discutiu-se a noção de etnia, mostrando como essa categoria não pode ser definida a partir de elementos fechados. A definição dos grupos étnicos ocorre através da relação com seu exterior, mediante a negociação de significados e de elementos que irão caracterizar o grupo frente os demais.

 

Referências

BARTH, F. Grupos étnicos e suas fronteiras. In: POUTIGNAT, P.; STREIFF-FENART, J. Teorias da etnicidade. Tradução Elcio Fernandes. 2ª reimpressão. São Paulo: UNESP, 1998.

CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. Os (des)caminhos da identidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais. v. 15, nº 42 , pp. 9-21, fevereiro/2000.

OLIVEIRA FILHO, João Pacheco. Uma etnologia dos índios “misturados”? Situação colonial, territorialização e fluxos culturais. MANA. 4(1):47-77, 1998

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