Texto: Movimentos Nacionalistas na Ásia

Movimentos Nacionalistas na Ásia

No continente asiático, o de maior dimensão territorial do planeta, três áreas representam preocupações quando pensamos em conflitos e tensões nacionalistas, sendo que elas envolvem potências nucleares, risco de fragmentação e expansão territorial.

 

A primeira delas, e mais problemática, é a questão fronteiriça envolvendo Paquistão e Índia. Esses dois países eram mantidos sob o mesmo governo na época da colonização britânica e abrigavam duas nacionalidades distintas, muçulmanos e hindus. Após o bem-sucedido movimento de independência liderado por Mahatma Gandhi ter conseguido o fim da colonização, em 1947, os muçulmanos reivindicaram sua separação em um Estado próprio, o que foi conseguido após uma guerra com a criação do Paquistão, emergindo também a rivalidade entre esses dois novos Estados nacionais. 

 

A criação do Paquistão em si já se apresentou complexa. Devido à ocupação dos muçulmanos em áreas separadas, esse país emergiu como um Estado dividido em dois territórios, Paquistão Ocidental e Paquistão Oriental, tendo entre eles a Índia. Após outro processo conflituoso ocasionado por insatisfações, o Paquistão Oriental conseguiu sua separação em 1971 com o apoio da Índia, que queria enfraquecer seu vizinho e rival.

 

Mas as nacionalidades distintas que conviveram juntas durante tanto tempo não conseguiram uma completa separação entre seus territórios, restando uma pendência que perdura até hoje e que é motivo de constantes incidentes entre Índia e Paquistão. O território da Caxemira, localizado ao norte dos dois países e na fronteira com a China, é a raão reinante da rivalidade. Nesse território, atualmente sobre o controle indiano, a maioria da população, cerca de 95%, tem origem muçulmana e quer se juntar ao Paquistão. O motivo pelo qual a Índia mantém o controle desse território é de caráter estratégico. Nele estão importantes nascentes de rios da região, sendo que o principal rio que atravessa o Paquistão, o Indo, também passa pelo território indiano, na Caxemira. Outra questão primordial é que a Caxemira faz fronteira com a China, que é rival da Índia e a principal aliada do Paquistão; logo, sua manutenção pelos indianos é essencial. 

 

Território da Caxemira (em laranja), alvo da disputa entre Índia e Paquistão

 

A disputa pelo território levou paquistaneses e indianos ao conflito diversas vezes nos anos de 1947, 1965 e 1971. Essa tensão obrigou os dois países, que apresentam graves problemas sociais internos, a investirem pesadamente em armamentos, gerando uma corrida armamentista até que ambos desenvolvessem armas nucleares. Primeiro foram os indianos, ao explodirem uma ogiva em 1974. O Paquistão conseguiu seu engenho nuclear apenas em 1998, realizando testes nucleares duas semanas após a Índia fazer o mesmo, em claro sinal de tensão. Desse modo, os conflitos que haviam cessado no período em que somente a Índia contava com a arma voltaram a ameaçar a região, eclodindo numa pequena guerra entre os dois no fim dos anos 1990 na região de Kargil, só que agora com o risco de guerra nuclear.

 

A China, aliada do Paquistão na região, é responsável por parte da manutenção da rivalidade entre esse país e a Índia, assim como por outra questão envolvendo o nacionalismo na Ásia. Após a Revolução Chinesa de 1949, com a instauração de um governo comunista liderado por Mao Tsé-Tung, tropas daquele país invadiram o Tibete, anexando esse território como uma província. Com isso, o líder espiritual e político do povo tibetano, Dalai Lama, retirou-se para a Índia, formando um governo no exílio que não aceitava a anexação de seu território pela China.

 

Cordilheira do Himalaia

 

Situado na cordilheira do Himalaia, região com maior altitude do planeta, o Tibete tem em sua cultura budista uma de suas principais características, e em suas riquezas minerais, um dos interesses chineses pela região. A ocupação chinesa levou a uma intensa repressão religiosa, tentando diminuir os vestígios nacionais e a representação política por intermédio de Dalai Lama. Apesar de manter certa autonomia do governo central de Pequim, o Tibete continua sob controle chinês, o que não deve mudar devido ao forte interesse em seus solos ricos, essenciais para a expansão tecnológica da economia chinesa, além do fato de a região abrigar nascentes de importantes rios chineses.

 

Mapa da China, com suas divisões provinciais, mostrando o Tibete em vermelho

 

O terceiro caso nacionalista envolve a Rússia, maior país do globo e que luta pela manutenção de seu status territorial. Após a fragmentação soviética no início dos anos 1990, a Rússia manteve grande parte do poderio e economia que sustentavam o antigo bloco socialista. Entretanto, a onda de movimentos de independência gerada pelo declínio da URSS influenciou pequenos grupos que viviam sob a tutela do Estado russo a requerer sua libertação política, sendo que a Chechênia representou o caso mais grave.

 

Historicamente, a Rússia sempre se constituiu como um Estado polinacional, contando com mais de 100 nacionalidades e mais de 30 etnias dentro de seu território. Geograficamente, tal diversidade pode ser explicada pela imensa extensão territorial do país, pertencendo a dois continentes e atravessando diversas regiões com enorme variedade cultural. 

 

O território checheno, no sul da Rússia e à beira do Mar Cáspio, é um relevante ponto de passagem para vários dutos de petróleo e gás russos, representando um ponto estratégico para o país que tem parte de suas receitas baseadas na exportação de hidrocarbonetos. Exatamente por isso, quando líderes chechenos declararam independência logo após a separação das repúblicas soviéticas, o governo de Moscou reagiu com firmeza, impedindo a desagregação dessa república. Um aspecto importante nessa questão é a religião: enquanto a maioria do povo russo se declara como cristão, os chechenos seguem o islamismo.

 

Duas guerras eclodiram nesse território. A primeira ocorreu entre 1994 e 1996, quando o presidente russo Boris Ieltsin enviou tropas para impedir a separação chechena, que foi fortemente repelida por rebeldes até o cessar-fogo. A segunda, já no governo de Vladimir Putin, começou em 1999 e durou cerca de um ano, marcando o restauro do controle russo na região. Ambos os conflitos tiveram pesadas baixas e foram bastante impopulares perante a opinião pública internacional, já que a Rússia foi acusada de vários crimes de guerra contra cidadãos chechenos. Por outro lado, os rebeldes chechenos perpetraram vários atentados contra cidadãos russos, sendo que a invasão de um teatro em Moscou, em 2002, e de uma escola, em 2003, terminaram com centenas de reféns mortos pelos terroristas separatistas.

 

Uma questão geopolítica que se soma à relevância econômica da Chechênia é levar em conta que, segundo a estratégia russa, caso essa república consiga sua independência, isso abrirá precedentes para que outras nacionalidades que estão sobre a tutela de Moscou sigam o mesmo caminho, levando ao colapso do país e, possivelmente, a guerras civis. Por isso, o interesse russo em manter esse território é evidente, mesmo que utilizando força bruta.

 

Repúblicas russas do Mar Cáspio, onde se vê o território da Chechênia

 

Em Resumo

Os movimentos nacionalistas na Ásia podem ser representados por três situações conflituosas bastante atuais. A primeira envolve a Caxemira, território em disputa entre Índia e Paquistão, que já levou a três guerras entre os dois países e representa risco mundial em virtude da posse de armas nucleares por ambos. Já o Tibete foi invadido pela China nos anos 1950, sendo anexado como província desse país, que não reconhece o líder espiritual e político tibetano, Dalai Lama. Em terceiro apontamos a Chechênia, ponto de tensão da Rússia que gerou dois conflitos de grande escala nos últimos 20 anos e atentados realizados por rebeldes que querem a independência da Rússia que, por sua vez, não a concede devido a interesses geopolíticos na região.

 
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