Texto: Revolução Chinesa

Revolução Chinesa

Durante a Guerra Fria, várias nações empreenderam projetos socialistas. No caso da China, que apresenta peculiaridades próprias desse regime, como veremos, o período tratado foi conturbado, acarretando conflitos e um grande número de vítimas, além do prejuízo cultural gerado pela censura aos hábitos burgueses.

 

A Revolução Chinesa 

A China atravessava, no início do século XX, um período difícil, decorrente da colonização imperialista iniciada no século anterior. Grande parte da população, formada por camponeses, apresentava intenso descontentamento em relação ao domínio de países estrangeiros no país – sucessivas rebeliões ocorriam contra os colonizadores. Assim, em 1905, foi criado o Partido Nacionalista Chinês (Kuomintang), representação popular que tinha como principal bandeira de luta a derrubada da monarquia e a instauração de uma república. Além disso, o partido objetivava quebrar o domínio estrangeiro e combater a desigualdade social, sobretudo por meio da reforma agrária. Em 1911, por meio de um processo revolucionário, os membros do partido conseguiram destituir o último imperador chinês. 

 

O novo governo instituído encontrou um cenário pouco propício para aplicar suas reformas, o que deixou a conjuntura política do país cada vez mais conturbada. Isso fez com que os latifundiários se fortalecessem politicamente. Em 1920, militantes chineses criaram o Partido Comunista, à luz da revolução que ocorreu em 1917 na Rússia, e, para viabilizar as reformas, seus membros se aliaram ao Partido Nacionalista. Tal aliança seria rompida posteriormente com a posse de Chiang Kai-Chek que, após um golpe de Estado, iniciou uma intensa repressão contra os comunistas, os quais reagiram por meio de guerrilhas. 

 

A desestabilização chinesa fez com que o Japão invadisse o país em 1931, na região da Manchúria, onde foi construído um Estado dirigido pelo antigo imperador chinês. A reação dos comunistas foi a proposta de uma trégua, mas, sem aceitar, o governo desferiu violenta repressão. A solução encontrada pelos comunistas foi iniciar a Longa Marcha que, com mais de 100 mil integrantes, partiu do sul e percorreu a pé cerca de 10 mil quilômetros, até chegar ao outro extremo do país – restava apenas 10% do contingente inicial. Apesar das perdas, o movimento obteve significativa vitória ao manter intenso contato com a população e desferir ataques bem-sucedidos às tropas do governo. O episódio fez surgir uma das principais lideranças da história chinesa: Mao Tsé-Tung. 

 

Longa Marcha

 

Em 1937, comunistas e governo finalmente se uniram para combater o inimigo japonês, sendo que a China saiu vitoriosa após o término da Segunda Guerra Mundial. Com seguidos sucessos, os revolucionários comunistas tomaram conta de Pequim em 1949 e, no dia 1º de outubro, foi proclamada a República Popular da China – era a vitória do movimento comunista chinês. Chiang Kai-Chek e seus aliados seguiram para a ilha de Formosa, atual Taiwan, onde foi criada a China Nacionalista. Assim como ocorreu na Rússia, o governo revolucionário se manteve isolado, principalmente das nações capitalistas.

 

Convém salientar que a Revolução Chinesa fez com as duas superpotências da Guerra Fria se atentassem para o avanço do comunismo no mundo, uma vez que tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética intervieram nos países vizinhos (Coreias do Norte e do Sul) para conter o avanço do governo comunista chinês. 

 

A Experiência Socialista na China

Liderado por Mao Tsé-Tung, o governo comunista efetivou a reforma agrária e nacionalizou setores da economia. Assim como na União Soviética, foi adotada a estratégia econômica de planificar a economia, pois se esperava promover a rápida industrialização do país e a formação de cooperativas agrícolas. O principal órgão do país passou a ser a Assembleia Popular Nacional – órgão responsável pela elaboração de leis –, que nomeou o presidente e o Conselho de Estado, comandado por um primeiro-ministro. Dessa maneira, o Partido Comunista conseguia concentrar amplos poderes sociais, econômicos e políticos. As medidas, porém, não surtiram os efeitos desejados, e uma severa crise tomou conta do país, o que fortaleceu e aumentou os movimentos de oposição ao governo socialista. 

 

Uma vez que o regime socialista não tinha mais a aprovação da maioria da sociedade, e o regime de Mao Tsé-Tung sofria grandes críticas, sobretudo do movimento estudantil, foi elaborado um plano externo que causou atritos políticos entre a China e a União Soviética. As rivalidades entre os comunistas dos dois países já eram intensas, mesmo antes da vitória da Revolução Chinesa, mas se agravaram após a morte de Stálin, em 1953, que provocou mudanças profundas na União Soviética. Em 196,0 as duas nações romperam suas relações diplomáticas sob a acusação chinesa de que o novo governo dos antigos aliados havia se afastado da luta comunista; logo, a contribuição técnica e financeira que o país recebia dos soviéticos foi retirada. O governo chinês promoveu, então, uma nova política de desenvolvimento econômico e social chamada de Grande Salto para a Frente. 

 

O objetivo do Grande Salto para Frente era mobilizar a população, principalmente os camponeses, para alcançar um maior desenvolvimento econômico num curto espaço de tempo. A falta de estudo e de planejamento, no entanto, levou à produção excessiva de alguns alimentos, à deterioração do solo pela exploração de minas de carvão e à dificuldade de reposição de peças para o maquinário agrícola. O resultado foi um período marcado pelo aumento da fome, e a imagem de Mao Tsé-Tung se abalava cada vez mais. 

 

Mao Tsé-Tung

 

Os fracassos dos planos de reforma aumentaram a crise durante os anos 1960 e fizeram com que a oposição ganhasse cada vez mais força. Diante de tantas adversidades, Mao Tse-Tung iniciou, em 1966, um arrojado projeto: a Revolução Cultural, que se tratava de um projeto de construção de uma nação genuinamente comunista, combatendo o que restava de hábitos burgueses no país. Para tanto, aumentaram-se a repressão e o controle social do regime. 

 

As bases ideológicas desse movimento estavam contidas em um livro, o Pensamento de Mao Tsé-Tung, popularmente conhecido como o Livro Vermelho. Nele estavam reunidas citações que incentivavam a coragem e os atos coletivos e condenavam o individualismo. Distribuído em grande quantidade, a obra era utilizada na alfabetização de jovens e adultos, e lida em manifestações públicas. A Revolução Cultural criou uma cisão na sociedade chinesa: de um lado estavam aqueles considerados maus, por exercerem profissões ou manterem hábitos vistos como burgueses (industriais, intelectuais, escritores e professores); do outro, ficavam os bons (operários, camponeses, soldados e, sobretudo, crianças e jovens). A propaganda maciça fez com os maus fossem perseguidos publicamente, sendo humilhados e presos com frequência. Tal patrulhamento ideológico fez com que a produção cultural do país, no sentido amplo, fosse profundamente prejudicada. 

 

A ditadura de Mao Tsé-Tung chegou ao fim em 1976. A sociedade chinesa, com população estimada em um bilhão de pessoas, ostentava a diminuição da mortalidade infantil e do analfabetismo, enquanto a expectativa de vida aumentava. O governo chinês foi substituído por Hua Kuofeng e posteriormente por Deng Xiaoping que, uma vez no poder, combateu a excessiva exaltação da memória de Mao. A partir da década de 1980, o governo de Xiaoping procurou remodelar a economia, as forças armadas e a produção intelectual.

 

Patrulhamento ideológico

 

Propaganda ideológica

 

Saiba Mais!

O filme A Revolução de 1911, de Jackie Chan (2012), nos apresenta uma perspectiva bastante interessante sobre a Revolução Chinesa.

 

Em Resumo

Em vigor até os dias atuais, a Revolução Chinesa levou o socialismo para o maior país asiático e rendeu, à história, uma experiência diferente da que havia sido aplicada na União Soviética. No entanto, atualmente o regime tem traços de uma economia capitalista de mercado, embora a sociedade viva sob constante vigilância e repressão. 

 

Referências

ARBEX JÚNIOR, José. Guerra Fria: o Estado terrorista. São Paulo: Moderna, 2005. 

CHEVRIER, Yves. Mao e a revolução chinesa. São Paulo: Ática, 1996. 

COGGIOLA, Osvaldo. A revolução chinesa. 3. ed. São Paulo: Moderna, 1989. 

GOLDMAN, Merle; FAIRBANK, John K. China: uma nova história. Porto Alegre: L&PM, 2006.

REIS FILHO, Daniel Aarão. A construção do socialismo na China. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1982. 

SPENCE, Jonathan D. Em busca da China moderna: quatro séculos de história. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 

 
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