Texto: A Crise na Zona do Euro

A Crise na Zona do Euro

A recente crise na União Europeia (UE) colocou em cheque o modelo de integração que até hoje é o mais avançado do planeta. Tendo atingido países com histórico de problemas internos, a crise levou a diversos debates sobre a validade de se adotar uma moeda comum aos membros da UE, com economias tão diferentes entre si.

 

Os países europeus da orla do mediterrâneo conviviam com problemas econômicos já há algum tempo, e vinham subsidiando alguns setores para não sucumbirem à concorrência com outros países do bloco. Isso levou a um aumento substancial da dívida externa, tornando impossível o seu pagamento. Na maioria dessas nações, o governo incentivou o consumo de bens com a concessão de crédito, muitas vezes a longos prazos e com elevado risco. Vários dos que conseguiram esse crédito, principalmente para a compra de imóveis, se viram impossibilitados de pagar suas dívidas, levando a um efeito em cadeia que, primeiramente, afetou os bancos e logo em seguida os seus governos, que assumiram parte da dívida dos bancos para impedir uma falência em massa. Essa ação bastante criticada foi feita em um momento de crise internacional, já que nos Estados Unidos a crise gerada por motivos semelhantes havia se expandido para o restante do planeta.

 

O acrônimo PIIGS é uma forma pejorativa de fazer referência a cinco países europeus (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) que outrora foram potências e agora se encontram afundados em crise econômica

 

Em 2009, o governo da Grécia, país que contava com elevada taxa de endividamento, deu sinais de que poderia deixar de pagar os juros da dívida externa, o que aumentou o temor de calote na Europa. Isso abalou de maneira substancial o mercado de valores, fazendo emergir uma crise de confiança sobre os devedores europeus, o que reduziu os investimentos na Grécia e nos países que estavam caminhando para uma situação semelhante. Entre essas nações se encontram, além da Grécia, Portugal, Itália, Irlanda e Espanha. Tal agrupamento resultou no surgimento de uma sigla pejorativa para se referir a eles, PIIGS, iniciais dos nomes dos países em inglês e que, nesse idioma, significa porcos. A taxa de crescimento negativo da Grã-Bretanha (Reino Unido) por um curto período nos últimos anos levou o seu acréscimo à sigla, adotando mais um “G” aos PIIGGS.

 

A dívida externa desses países, assim como de outros ao redor do mundo, precisa ser paga com datas pré-combinadas. Para conseguir o dinheiro, muitas vezes o governo emite títulos da dívida, que são papéis vendidos sob condições de retorno garantido ao comprador, com juros geralmente maiores que os de mercado. Assim, um investidor pode comprar títulos da dívida externa de um país e, no futuro, resgatar esse valor com juros. Porém, dadas as condições econômicas com que se encontravam essas nações, criou-se uma dúvida sobre a possibilidade real do pagamento de tais valores, o que fez com que os investidores se recusassem a comprar novos títulos, aumentando a crise.

 

Os países da Europa associados às siglas PIGS, PIIGS e PIIGGS. Todos eles tiveram problemas econômicos devido à crise na zona do euro

 

A saída escolhida por esses países, para manter os compromissos assumidos e remediar a crise interna que naquele momento já havia se espalhado para outros setores da economia, provocando sérias perdas, foi a busca por empréstimos externos. A escolha pelas economias mais fortes do bloco, Alemanha e França, além do Fundo Monetário Internacional (FMI), não veio sem que medidas fossem adotadas pelos países que receberiam os empréstimos. Dentre essas ações se encontravam as de austeridade fiscal como as mais significativas, o que faria com que os governos diminuíssem os investimentos em saúde, educação e o pagamento de aposentadorias. Tais medidas, altamente impopulares, geraram uma onda de protestos, sobretudo na Grécia, contra o governo grego e o alemão, acusado de espoliar os países do bloco. Os protestos que se seguiram avançaram por quase todos os países do bloco, já que a crise afetou diretamente grande parcela da população e as medidas de austeridade ameaçavam avançar também para outras nações. Uma das questões levantadas pela população era que, além dos empréstimos que aprofundariam ainda mais a crise nesses países, a Alemanha já se beneficiava com a fuga de capitais dos países pobres, em que os títulos da dívida pública alemã eram altamente procurados.

 

Espanhóis fazem protesto contra as medidas de austeridade fiscal nas ruas de Madrid, capital do país

 

Os empréstimos concedidos aos PIIGS chegaram a 100 bilhões de euros, no caso de Grécia e Portugal, e à soma de 130 bilhões de euros para a Espanha. Porém, a crise que ainda ocorre nessas nações tem sérias consequências para sua produção que dificilmente serão resolvidas em curto prazo. Em 2013, a taxa de desemprego atingiu 26% na Espanha e chegou a 27% da Grécia. Portugal, Itália, Irlanda e França apresentaram índices acima de 15%.

 

Um dos fatores envolvidos na crise e que mais gerou discussões sobre a real eficácia da integração diz respeito à adoção de uma moeda única. O euro, programado para ser utilizado a partir dos anos 2000, se expandiu para quase todos os membros do bloco, com a importante exceção da Inglaterra, que continuou a usar a Libra esterlina. A nova moeda foi criada para ser uma das mais fortes, figurando ao lado do dólar como opção comercial nas transações pelo mundo. Entretanto, o efeito da adoção dessa moeda foi diferente para os vários países do bloco: enquanto para França e Alemanha, que já possuíam moedas fortes (o franco e o marco alemão, respectivamente), a adoção do euro não teve efeitos negativos, em países com economias mais frágeis, como os do mediterrâneo, o euro promoveu uma série de revezes.

 

Esses países, que possuíam em alguns casos moedas com valores baixos, mais baratas do que o dólar, a libra e o franco, por exemplo, sempre se beneficiaram dos baixos preços de seus produtos para exportá-los, parte deles de origem primária, como vinhos, frutas e cerais. Além disso, a rica história e as belas paisagens sempre foram atrativos turísticos valorizados, sendo bastante acessíveis pelo baixo valor da moeda desses países. Todavia, a adoção do euro por tais economias tornou os produtos desses países menos competitivos no mercado internacional, assim como uma fuga de turistas que preferiam gastar a mesma moeda em destinos centrais como França e Alemanha.

 

A crise, ainda em curso, representa um sério revés para os países do bloco, sendo um dos principais abalos ao processo de integração europeu iniciado há mais de 60 anos. O futuro do bloco dependerá de mediações entre os seus líderes e terá, como maior desafio, provar que a estratégia adotada é realmente benéfica para todos os seus membros.

 

Em Resumo

A crise na zona do euro que se estende por seis anos ainda não deu sinais de ter acabado. O alto endividamento externo dos países situados na orla mediterrânea e a adoção de uma moeda forte como o euro provocaram perdas significativas na última década, tornando impagáveis os juros prometidos com a venda de títulos por tais nações. O desafio europeu para o futuro será provar que a integração é benéfica a todas, e não somente às economias centrais do bloco representadas por França e Alemanha.

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