Texto: Arcadismo: Momento Histórico

Arcadismo: Momento Histórico

Passaremos a discutir os aspectos fundadores do Arcadismo no panorama mundial e brasileiro. Essas questões possibilitaram o fomento dessas manifestações estéticas nesse período. 

 

O Arcadismo e o Brasil de 1700

O Arcadismo, o Setecentismo (manifestações estéticas de 1700) ou o Neoclassicismo correspondem ao momento artístico situado, principalmente, em meados do século XVIII. O nome Arcadismo diz respeito à Arcádia, região da Grécia Antiga e habitat imaginário em que pastores e natureza vivem em plena comunhão. A primeira Arcádia foi fundada em Roma (1690) por alguns poetas e críticos que, avessos aos contrastes barrocos, tomavam nomes de pastores gregos e romanos a fim de criticar e exterminar o mau gosto, onde quer que ele estivesse. Essa perspectiva foi o principal mote para que os poetas construíssem grupos para que a existência fosse mitificada, lançando mão da concepção de bom selvagem elaborada por Rousseau. Portanto, a busca pelo natural, pelo simples, a adoção de esquemas rítmicos mais graciosos, o pensamento voltado para o regular, o claro e o racional são marcas decisivas dessa manifestação estética. 

A bandeira dos inconfidentes serviu de inspiração para a elaboração da bandeira do Estado de Minas Gerais

 

No panorama histórico mundial, temos o nascimento da burguesia, bem como dos acontecimentos históricos que a circundam: Iluminismo, despotismo esclarecido, Revolução Industrial, Revolução Francesa e Independência dos Estados Unidos. Nesse universo, em que a burguesia passou a dominar as relações de poder, muitos foram os financiamentos para a racionalização do pensamento, como em 1748, com a publicação de O espírito das leis, de Montesquieu e, em 1751, com o empreendimento da Enciclopédia, sob a supervisão de Diderot, figura significativa para as artes ocidentais no mundo contemporâneo.

Reunião dos conjurados

 

No âmbito brasileiro, o panorama histórico, social, político e econômico desloca-se, implicando em uma alteração ideológica frente à Literatura. O foco dos acontecimentos, agora, não se vinculará mais ao Nordeste do país, conforme observamos no Barroco. O Arcadismo no Brasil teve como cenário principal as Minas Gerais, em virtude da descoberta do ouro em abundância. Com isso, cidades como Vila Rica, a atual Ouro Preto, e Mariana floresceram estrondosamente. Assim, ao relacionar tal crescimento às influências externas típicas do século XVIII, como o Iluminismo Francês, a Literatura Árcade começou a assumir um tom local. Portanto, a Inconfidência Mineira encontra-se intimamente relacionada com os fatos responsáveis pela literatura elaborada em tal momento histórico. O lema que decidiu os rumos da França (liberdade, igualdade e fraternidade) atravessou o oceano, produzindo efeitos decisivos, tanto na história brasileira quanto na experiência estética em construção.

A Literatura forma-se a partir de uma tríade: escritores, forma de divulgação e leitores. Isso iniciará, no Brasil, com a fundação da Arcádia Ultramarina, em Vila Rica, em 1768, e só existirá, de fato, no Brasil, após a vinda da família real, em 1808, quando se inicia a instauração do Romantismo.

 

Atualmente, a casa em que os inconfidentes se encontravam foi restaurada e se tornou um dos principais museus do Estado de Minas Gerais

 

Para Alfredo Bosi (1983), é importante sublinhar a existência de dois momentos importantes do período, já que eles se encontravam justapostos, ou seja, era preciso tal encadeamento para que eles acontecessem e produzissem o efeito alcançado. São eles: “a) momento poético que nasce de um encontro [...] com a natureza e os afetos comuns do homem, refletidos através da tradição clássica e de formas bem definidas, julgadas dignas de imitação (Arcádia); b) o momento ideológico que se impõe no meio do século e traduz a crítica da burguesia culta aos abusos da nobreza e do clero”. (BOSI, 1983, p. 55). Portanto, à medida em que o tempo decorre, o Arcadismo no Brasil passa pela imitação encontrada nos sonetos de Cláudio Manoel da Costa, por exemplo, até a elaboração de uma sátira política, por meio da obra de Tomás Antônio Gonzaga.

 

Você Sabia? 

O filme Caramuru: a invenção do Brasil, dirigido por Guel Arraes em 2001 é uma releitura do poema épico do Frei Santa Rita Durão. A obra árcade vem, mediante o rigor clássico, propor uma história para o descobrimento da Bahia, desde o naufrágio de Diogo Álvares Correia, o herói da epopeia, até o profetizar do futuro da nação que se formaria naquelas terras nos anos seguintes. Para o árcade, no navegante reside uma vida reta e a constância de ânimo: 

 

De um carão em mil casos agitado 

Que as praias discorrendo do Ocidente, 

Descobriu o Recôncavo afamado 

Da capital brasílica potente: 

Do filho do Trovão denominado, 

Que o peito domar soube à fera gente: 

O valor cantarei na adversa sorte, 

Pois só conheço Herói quem nela é forte. (Canto I, I). 

 

Domando a “fera gente”, Diogo é uma mistura de colono português e missionário jesuíta. Síntese que dá a medida de Frei Santa Rita Durão, mas, tanto não convence historiadores e demais estudiosos, que o texto fílmico foi todo elaborado em tom jocoso, valendo-se de passagens da obra original, entretanto, desmistificando a cena pintada pelo árcade. Vale a pena conferir! 

 

 Em Resumo

Conforme percebemos, o Arcadismo corresponde a uma manifestação estética elaborada mediante o uso de ideais renascentistas, da Antiguidade Clássica, pois o Barroco ultrapassara os limites do que se considerava arte de qualidade. Por emitir, também, princípios ideológicos iluministas, o Arcadismo fez com que a burguesia crescesse e tomasse o poder sobre a nobreza. 

 

Referência

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1983.

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