Texto: Variação Linguística

Variação Linguística

Toda língua tem suas variações por influência de muitos fatores, como gêneros (masculino/feminino), idade, grupos sociais diferentes, localização geográfica, profissões, entre outros.
 
 
Dentre esses fatores, podemos destacar como mais marcantes a variação sociocultural, a variação histórica (depende da época em que vive o falante) e, por fim, a variação geográfica.
 
 
Saber sobre as possíveis variações da língua torna-se imprescindível para a conscientização dos falantes em relação aos usos linguísticos diferentes.
 
 

Variação Sociocultural

Para compreender a variação linguística do ponto de vista sociocultural é necessário ter em mente que o idioma é um instrumento de dominação social, isto é, em uma sociedade, aqueles cidadãos que tem acesso à escolarização e a outros meios de formação cultural e intelectual empregam a língua de maneira diferente à dos cidadãos que não tiveram acesso ou tiveram acesso precário à escolarização. Assim, determinadas classes sociais gozam de prestígio, enquanto outras são vítimas de preconceitos no que se refere à utilização da língua. 
 
 
Nesse sentido, é a modalidade da língua denominada norma padrão que se estabelece como modelo de prestígio, que é aprendida na escola e exigida do aluno em exames, além de ser instrumento de ascensão profissional e social.
 
 
Imagine que alguém faça a seguinte afirmação:
 
 
Frase 1 – Tá na cara que nois trabaia pra sustenta esse tanto de mordomia que os político do Brasil tem.
 
 
Quem você imaginaria que pudesse dizer essa frase? Poderia se pensar na profissão desse falante? E em seu grau de escolaridade?
 
 
Agora, pense em que tipo de pessoa poderia dizer isto:
 
 
Frase 2 – Nós trabalhamos muito mais, obviamente, para pagar uma série de impostos que com certeza sustentam mordomias políticas inaceitáveis no Brasil.
 
 
Com certeza, você pôde perceber que os dois falantes transmitiram praticamente a mesma mensagem, porém, utilizando-se da língua de forma diferente. A partir disso, podemos imaginar como seriam essas duas pessoas, suas profissões, nível de escolaridade, classe social. Portanto, as condições sociais influenciam na maneira de falar dos indivíduos e a língua pode ser, também, um instrumento de discriminação social.
 

Leitura

 
“Vício na fala” 
(Oswald de Andrade)
 
Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mio
Para pior pio
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados.


Variação Histórica

Com o passar do tempo, a língua transforma-se, a grafia, o modo de falar e, às vezes, até o sentido de algumas palavras sofrem alterações. Isso ocorre porque a língua não é estática, ela é viva e, portanto, modifica-se, situando-se no tempo e na realidade dos falantes.
 

Leitura

 
Antigamente
Carlos Drummond de Andrade 
 
 
ANTIGAMENTE, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era para tirar o pai da forca e não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. O que não impedia que, nesse entrementes, esse ou aquele embarcasse em canoa furada. Encontravam alguém que lhes passasse a manta e azulava, dando às de vila-diogo. Os mais idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo para tomar fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno. Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando balas de alteia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas; não admira que dessem com os burros n’água.
 
 
HAVIA OS QUE tomaram chá em criança, e, ao visitarem família da maior consideração, sabiam cuspir dentro da escarradeira. Se mandavam seus respeitos a alguém, o portador garantia-lhes: “Farei presente.” Outros, ao cruzarem com um sacerdote, tiravam o chapéu, exclamando: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”, ao que o Reverendíssimo correspondia: “Para sempre seja louvado.” E os eruditos, se alguém espirrava — sinal de defluxo — eram impelidos a exortar: “Dominus tecum”. Embora sem saber da missa a metade, os presunçosos queriam ensinar padre-nosso ao vigário, e com isso metiam a mão em cumbuca. Era natural que com eles se perdesse a tramontana. A pessoa cheia de melindres ficava sentida com a desfeita que lhe faziam, quando, por exemplo, insinuavam que seu filho era artioso. Verdade seja que às vezes os meninos eram mesmo encapetados; chegavam a pitar escondido, atrás da igreja. As meninas, não: verdadeiros cromos, umas teteias.
 

ANTIGAMENTE, certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegados com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde Judas perdeu as botas. Uns raros amarravam cachorro com linguiça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde. As famílias faziam sortimento na venda, tinham conta no carniceiro e arrematavam qualquer quitanda que passasse à porta, desde que o moleque do tabuleiro, quase sempre um cabrito, não tivesse catinga. Acolhiam com satisfação a visita do cometa, que, andando por ceca e meca, trazia novidades de baixo, ou seja, da Corte do Rio de Janeiro. Ele vinha dar dois dedos de prosa e deixar de presente ao dono da casa um canivete roscofe. As donzelas punham carmim e chegavam à sacada para vê-lo apear do macho faceiro. Infelizmente, alguns eram mais do que velhacos: eram grandessíssimos tratantes.
 
 
ACONTECIA o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois, ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era a phtysica, feia era o gálico. Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos lombrigas, asthma os gatos, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam: descansavam.
 
 
MAS TUDO ISSO era antigamente, isto é, outrora.
 


Variação Geográfica

Dependendo da região em que é falada, a língua assume variações, diferenças no modo de falar. Pense nas diferenças entre as falas de um carioca, um baiano, um gaúcho, um mineiro e um lisboeta, por exemplo.
 

 

Leitura
 
O poeta da roça 
Patativa do Assaré
 
Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabaio na roça, de inverno e de estio
A minha chupana é tapada de barro
Só fumo cigarro de paia de mio.
 
 

Essas diferenças estão presentes tanto na escolha lexical, ou seja, das palavras a serem ditas, quanto na maneira de pronunciá-las, isto é, o sotaque.

 

Atenção!

Podemos perceber facilmente que não são todas as variações linguísticas apresentam prestígio social. Determinadas variações empregadas por pessoas de algumas classes sociais ou regiões sofrem preconceito, pois muitas vezes essas variações são rejeitadas e consideradas deficiências do usuário.


Em Resumo

Saber que a língua contém múltiplas variações possibilita ao falante/ouvinte uma comunicação mais integrada, esclarece sobre as diferenças culturais e evita preconceitos linguísticos advindos da maneira de falar do outro.
 
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