Texto: Contexto Histórico do Simbolismo em Portugal e Principais Autores

Contexto Histórico do Simbolismo em Portugal e Principais Autores

Este tópico objetiva estudar as principais manifestações simbolistas em Portugal, bem como pontuar seus principais representantes. Pontuemos tais questões. 
 
 

O Simbolismo Português 

O Simbolismo, em Portugal, teve início em 1890 mediante a publicação do poema “Oaristos”, de Eugênio de Castro. O nome do poema faz referência a um termo grego que significa diálogo íntimo ou amoroso, próprio desse período. Observe: 
 
 
 
Na messe, que enlourece, estremece a quermesse... 
O sol, o celestial girassol, esmorece... 
E as cantilenas de serenos sons amenos 
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...
 
 
As estrelas em seus halos 
Brilham com brilhos sinistros... 
Cornamusas e crotalos, 
Cítolas, cítaras, sistros, 
Soam suaves, sonolentos, 
Sonolentos e suaves, 
Em suaves, 
Suaves, lentos lamentos 
De acentos 
Graves, 
Suaves.
 
 
Flor! enquanto na messe estremece a quermesse 
E o sol, o celestial girassol esmorece, 
Deixemos estes sons tão serenos e amenos, 
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...
 
 
Soam vesperais as Vésperas... 
Uns com brilhos de alabastros, 
Outros louros como nêsperas, 
No céu pardo ardem os astros...
 
 
Como aqui se está bem! Além freme a quermesse... 
– Não sentes um gemer dolente que esmorece? 
São os amantes delirantes que em amenos 
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos... 
 
 
As estrelas em seus halos 
Brilham com brilhos sinistros... 
Cornamusas e crotalos, 
Cítólas, cítaras, sistros, 
Soam suaves, sonolentos, 
Sonolentos e suaves, 
Em suaves, 
Suaves, lentos lamentos 
De acentos 
Graves, 
Suaves...
 
 
Esmaiece na messe o rumor da quermesse... 
– Não ouves este ai que esmaiece e esmorece? 
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos, 
E chora a sua morta, absorto, à flor dos fenos... 
 
 
Soam vesperais as Vésperas... 
Uns com brilhos de alabastros, 
Outros louros como nêsperas, 
No céu pardo ardem os astros...
 
 
Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse... 
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece... 
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos, 
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos... 
 
 
As estrelas em seus halos 
Brilham com brilhos sinistros... 
Cornamusas e crotalos, 
Cítolas, cítaras, sistros, 
Soam suaves, sonolentos, 
Sonolentos e suaves, 
Em suaves, 
Suaves, lentos lamentos 
De acentos 
Graves, 
Suaves...
 
 
Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse 
O rumor amolece, esmaiece, esmorece... 
Dá-me que eu beije os teus’ morenos e amenos 
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos... 
 
 
Soam vesperais as Vêsperas... 
Uns com brilhos de alabastros, 
Outros louros como nêsperas, 
No céu pardo ardem os astros...
 
 
Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse 
O atroador clangor, o rumor esmorece... 
Rolemos, b morena! em contactos amenos! 
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos...
 
 
As estrelas em seus halos 
Brilham com brilhos sinistros... 
Cornamusas e crotalos, 
Citolas, cítaras, sistros, 
Soam suaves, sonolentos, 
Sonolentos e suaves, 
Em suaves, 
Suaves, lentos lamentos 
De acentos 
Graves, 
Suaves...
 
 
Três da manhã. Desperto incerto... E essa quermesse? 
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece! 
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos, 
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...
 
 
 
Note que o tema não é inovador, entretanto, o poema compõe-se como uma verdadeira peça musical, com sequências sonoras que se sucedem alternadamente, explorando diferentes recursos sonoros: aliterações, rimas, variações métricas e estróficas, preciosismos vocabulares e gráficos, entre outros recursos, na busca de expressar a subjetividade. No entanto, sua pretensão é distinta da de um romântico: os simbolistas repudiam o tom confessional de certos românticos, que transformam a literatura em desabafo. A busca do simbolista consiste em valorizar a capacidade individual de perceber o universo e superar os limites mundanos. O livro de Eugênio de Castro foi lançado de maneira polêmica, apresentando um prefácio em que se criticava a poesia portuguesa de até então, sugerindo a necessidade de uma liberdade métrica e rítmica, bem como a originalidade poética. Portanto, o poeta foi o precursor do Simbolismo em Portugal:
 
 
Com duas ou três luminosas exceções, a Poesia portuguesa contemporânea assenta sobre algumas dezenas de coçados e esmaiados lugares comuns. Tais são:
 
 
Olhos cor do céu, olhos comparados a estrelas, lábios de rosa, cabelos de ouro e de sol, crianças tímidas, tímidas gazelas, brancura de luar e de neve, mãos patrícias, dentes que são fios de pérolas, colos de alabastro e de cisne, pés chineses, rouxinóis medrosos, brisas esfolhando rosas, risos de cristal, cotovias soltando notas também de cristal, luas de marfim, luas de prata, searas ondulantes, melros farsolas assobiando, pombas arrulhadoras, andorinhas que vão para o exílio, madrigais do dos ninhos, borboletas violando rosas, sebes orvalhadas, árvores esqueléticas, etc.
 
 
No tocante a rimas, uma pobreza franciscana: lábios rimando sempre com sábios, pérolas com cérulas, sol com rouxinol, caminhos com ninhos, nuvens com Rubens, noite com açoite; um imperdoável abuso de rimas em ada, ado, oso, osa, ente, ante, ão, ar, etc.
 
 
 
No tocante a vocabulário, uma não menos franciscana pobreza: talvez dois terços das palavras, que formam a língua portuguesa, jazem absconsos, desconhecidos, inertes, ao longo dos dicionários, como tarecos sem valor em lojas de arrumação. [...]
 
 
Introduz-se o desconhecido processo da aliteração: veja-se o poema XI e muitos versos derramados ao longo desta silva.
 
 
Ao contrário do que por aí se faz, ornaram-se os versos de rimas raras, rutilantes: na mais extensa composição, a composição IV, que tem cento e sessenta e dois alexandrinos, não se encontra uma única rima repetida.
 
 

Principais Autores

Embora o próprio Simbolismo tenha provado da estética que criticou, devemos lembrar que ele iniciou um processo de desconstrução, que tomaria a devida função durando  o Modernismo. Outros poetas também foram importantes durante o Simbolismo português, a saber: Antônio Nobre, Camilo Pessanha, Antônio Patrício, Roberto de Mesquita. Na prosa, tivemos Raul Brandão. O Simbolismo, em Portugal, prolongou-se até 1915, com a publicação de Orpheu, dando início ao Modernismo português. 
 
 
Em Portugal, o Simbolismo adquiriu algumas particularidades. As características gerais foram elaboradas mediante a obra de Eugênio de Castro e, quanto às correntes históricas e culturais portuguesas, destacou-se Camilo Pessanha. O interessante é que, nessas correntes, destacam-se o Neogarretismo e o Saudosismo, que possuem como ponto em comum o sentido de nacionalidade, passível de entendimento se observarmos os acontecimentos históricos portugueses. Esse é o momento em que Portugal sofre o Ultimatum britânico, em 1890, causando um descontentamento da população para com a coroa, visto que a população sentia-se humilhada pelo fato de a monarquia não enfrentar a Inglaterra para defender as regiões da África que Portugal colonizara. O Ultimatum inglês deu origem, também, a um forte sentimento nacionalista, concentrado em um repúdio à Inglaterra e ao Império português. Esse sentimento invadiu a Literatura, levando a uma retomada de Almeida Garret – uma valorização da poesia popular e o uso de uma linguagem coloquial. Por sua vez, o Saudosismo buscava definir o caráter do homem português, invadido pela saudade. Dessa forma peculiar do Simbolismo, temos como representantes: Alberto de Oliveira (homônimo ao escritor brasileiro), Teixeira de Pascoares e Afonso Vieira. 
 


Em Resumo

O Simbolismo, em Portugal, realizou pesquisas sintéticas radicais, chegando à dissolução da sintaxe lógica e ao verso livre. Utilizaram-se versos com acentuações variadas, bem como formas diferentes de poéticas, marcadas pela aproximação entre a música e a poesia, semelhante ao acontecimento da Idade Média. Suas principais manifestações foram a prosa e a poesia, chamada de prosa poética. Aparecem, também, os chamados poemas em prosa, correspondendo a poemas não versificados. 
 
 

Referências

HAUSER, Arnold. História social da arte e da cultura. v. IV. Lisboa: Estante editora, 1964.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 31. ed. São Paulo: Cultrix, 2001. 
PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
 
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