Texto: O Realismo e Naturalismo: Contexto Hstórico Português e Principais Autores

O Realismo e Naturalismo: Contexto Hstórico Português e Principais Autores

Observaremos as condições de produção enunciativas do Realismo e do Naturalismo em âmbito português. É relevante a percepção dessa natureza, uma vez que as manifestações estéticas nesse momento, para chegarem a nosso país, ainda percorriam o caminho das terras camonianas. Discutamos tais condições de enunciação. 

 

A Questão Coimbrã 

O Realismo em Portugal tem como marco a famosa Questão Coimbrã. Apesar de todas as transformações do período, Lisboa mantinha-se como palco dos grandes escritores românticos, a exemplo de Antônio Feliciano de Castilho. Embora presente na sociedade portuguesa, essa estética começara a sofrer ataques severos por parte de uma nova geração de escritores, evidenciando o caráter exausto e agonizante do estilo romântico. 

 

Nesse contexto, o grito rebelde advém dos estudantes da Universidade de Coimbra. Naquele momento, adeptos às concepções teóricas fundantes do Realismo e do Naturalismo vão de encontro ao pensamento dos autores românticos lisbonenses. Em 1861, Antero de Quental fundara a Sociedade do Raio, associação secreta que congregava 200 estudantes de Coimbra com o intuito de instaurar a aventura, a anarquia e a insubordinação em confronto ao convencionalismo acadêmico, findando por raptar o reitor da universidade, Basílio Alberto, que se viu obrigado a pedir demissão do cargo. Uma vez que esses acontecimentos foram encabeçados por Antero de Quental, podemos sugerir que o movimento Realista e Naturalista em Portugal começou primeiramente mediante o pensamento revolucionário da geração de 1870 e sua poesia, definindo as linhas da manifestação artística de acordo com o romance realista que atacava a sociedade burguesa, a monarquia e o clero. Entendemos ser essencial pontuar o limite entre o romance realista e o naturalista em Portugal. Nesse sentido, Massaud Moisés (2001, p. 191) esclarece que o aparecimento das estéticas citadas é semelhante ao ocorrido na França com Flaubert, autor de Madame Bovary, no Realismo, e Zola, com Thèrèse Raquin, no Naturalismo:

 

Em Portugal as coisas não se passam de outro modo: Eça publica primeiro o romance realista em 1875 (O crime do Padre Amaro), e o mais ortodoxo e acabado representante do Naturalismo, Abel Botelho, dá a público sua primeira obra em 1891 (O Barão de Lavos). O pormenor cronológico, embora não condicione o outro, está-lhe intimamente ligado. Na sondagem dos problemas sociais, em busca da prova de que o organismo social está doente, o romance naturalista começa onde para o realista: o último leva até certo ponto, e o primeiro vai além. Apenas com vistas a exemplificar, tomemos o caso das cenas adulterinas: nos romances realistas, é frequente que o ficcionista cerre as cortinas antes de iniciar-se o encontro genesíaco1 das personagens, como que levado por súbito pudor ou desinteresse, ou pela certeza de que é por demais conhecido e facilmente imaginável o que acontece a seguir; nos romances naturalistas, o ficcionista abre as cortinas e acompanha minúcia o desenrolar da cena, com interesse de cientista ou sociólogo, a colher material para uma análise rigorosa e impessoal. O realista ataca, desinteressado e repelido por um espetáculo que julga moralmente asqueroso e digno de combate; o naturalista invade os aposentos a fim de examinar as nuanças e os caprichos do encontro patológico que se desenvolve ante seus olhos impassíveis e superiores.

 

1 Que se refere à geração, à gênese, nesse caso, ao ato sexual.  

 

Ideologicamente iluminados pelas mesmas teorias (cientificismos, positivismo, darwinismo, determinismo, entre outros), o Naturalismo concretizou aquilo que no romance realista o Romantismo ainda lhe tolhia. 

 

 

Continuando os acontecimentos que viabilizaram a prosa realista e naturalista portuguesa, por volta de 1865, Pinheiro Chagas escreveu o livro Poema da Mocidade, apoiado por Castilho que, por sua vez, redigiu um artigo com severas críticas ao posicionamento dos jovens estudantes de Coimbra, ironizando-os e atacando, especialmente, a Antero de Quental. Assim, a Questão Coimbrã foi exatamente um choque entre duas manifestações estéticas em Portugal: de um lado, havia os escritores românticos de Lisboa, de outro, os jovens escritores da Universidade de Coimbra. Diante disso, Antero de Quental respondera a Castilho mediante um artigo intitulado Bom-senso e bom-gosto. Observe um fragmento desse documento: 

 

[...] combatem-se os hereges da escola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua retidão moral, do atentado de sua probidade literária, da impudência e miséria de serem independentes e pensarem por suas cabeças. E combatem-se por faltarem às virtudes de respeito humilde, às omnipotentes, de submissão estúpida, de baixeza e pequenez moral e intelectual 

(QUENTAL, [s.d.] apud MOISÉS, 2001, p. 159).

 

O autor realista termina sua resposta chamando o escritor romântico de velho fútil, afirmando que os dizeres saídos daquele cérebro não mereciam nem sua admiração, o respeito e, tampouco, sua estima. Assim, Portugal é organizado em duas frentes: o grupo dos pró-Castilho e o dos pró-Antero, que aumenta durante o ano de 1865, estendendo-se ao Brasil com a adesão de D. Pedro I e Sílvio Romero. Os jovens de Coimbra vencem a questão; porém, seria necessário consolidar esse posicionamento, visto que a estética romântica correspondia a uma manifestação estética envelhecida na esteira do tempo. Não obstante, os grandes autores do Romantismo se tornariam atemporais e exerceriam influência, mesmo que indireta, em intelectuais do século XX.  

 

 

Em 1868, os participantes da revolta antirromântica formaram-se após uma breve dispersão, e alguns deles propuseram a elaboração de um grupo em Lisboa intitulado Cenáculo. Formado por Eça de Queirós, Antero de Quental, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Salomão Sáraga, Santos Valente,  José Eduardo Lobo da Costa e Mariano Machado de Faria e Maia, o grupo se reunia na residência de Jaime Batalha Reis com a finalidade de organizar um ciclo de conferências públicas para discutir questões que interessavam os intelectuais da Europa e da América do Norte. Para isso, alugaram o Cassino Lisbonense, uma espécie de café onde se reunia a boemia da época a fim de ver o famoso can-can. Essas conferências democráticas se tornaram conhecidas na história portuguesa por Conferências do Cassino Lisbonense. 

 

Foram dez reuniões programadas, sendo o cronograma embargado no sexto evento, que não foi proferido. As seis reuniões foram organizadas sob os seguintes temas e desenvolvidas pelos respectivos escritores: em 22 de maio de 1871, por Antero de Quental, intitulada “O espírito das conferências”; 27 de maio, “Causa da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos”, ainda por Antero; em 5 de junho, por Augusto Seromenho, sobre “A literatura Portuguesa”; no dia seguinte, com Eça de Queirós, acerca dos “Meandros da Literatura Nova”, ou seja, do Realismo. Considerando a representação da figura de Eça de Queirós para a literatura portuguesa, apontamos uma das falas do escritor durante as conferências. Observe que o escritor desenha, numa atitude antirromântica, a figura do homem sob os moldes das correntes cientificistas que mencionamos em tópicos anteriores, como o Determinismo: “O homem é um resultado, uma conclusão e um procedimento das circunstâncias que o envolvem. Abaixo os heróis!”

 

 

Já em 19 de junho, Adolfo Coelho elaborou uma reflexão intitulada “A Questão do Ensino”; Salomão Sáraga tratou dos assuntos concernentes aos Historiadores Críticos de Jesus; contudo, a reunião foi suspensa, pois, em 26 de junho de 1871, o Cassino Lisbonense fechou as portas na justificativa de que as conferências atacavam diretamente as leis do reino, os códigos da monarquia e os valores do clero. Muitos foram os protestos, inclusive de Alexandre Herculano, um ícone do Romantismo português que se colocou inteiramente contra a suspensão das conferências, embora discordasse de algumas ideias defendidas pelo grupo. Ao observarmos o caminho percorrido pelos escritores que fomentaram o Realismo em Portugal, concordamos com os dizeres de Massaud Moisés (2001, p. 162-163), quando discorre que:

 

A geração realista (também chamada de “geração Coimbrã” ou geração de 1870”) dispersou-se logo depois da supressão das conferências do Cassino Lisbonense, e não mais voltou a reunir-se para lutar pela implantação do moderno pensamento filosófico e científico em Portugal. Entre 1871 e 1887, essa esplêndida geração – a única que a rigor merece o rótulo dentro da Literatura Portuguesa – atinge o apogeu de suas realizações, aglutinada fervorosamente em torno do mesmo objetivo e rezando pela mesma cartilha filosófica e científica, baseada nos ensinamentos de Taine, Proudhon, Darin, Spencer, Hegel e outros. Nesses anos, embalados pelo êxito e pelo ardor próprio da juventude, sentem-se identificados por ardente fúria iconoclasta, dirigida contra o espírito romântico sentimental e hipócrita, que consideram produto das três instituições necessitadas de urgente reforma, a Monarquia, a Igreja e a Burguesia. Antimonárquicos, defendem princípios republicanos e socialistas, anticlericais e antiburgueses.

 

É nesse espírito de ‘coisa proibida’ que o Realismo se instaurara em Portugal, mesmo que brevemente, fazendo da obra O crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, publicada em 1875. o marco dessa manifestação no país lusitano. Discutamos, portanto, a obra do referido autor. 

 

 

Atenção!

A poesia de Antero de Quental é vista como uma tendência poética de cunho metafísico ou transcendental. As buscas constantes em responder a questões como ‘quem sou?’, ‘para onde vou?” e ‘de onde vim?’ transformam sua obra numa verdadeira tensão psíquica, na qual o eu lírico se disseca, aniquilando-se ao final. Aspectos dessa natureza podem ser observados em diversos poemas, entre eles o que se segue: 

 

O Convertido 

Entre os filhos dum século maldito 

Tomei também lugar na ímpia mesa, 

Onde, sob o folgar, geme a tristeza 

Duma ânsia impotente de infinito. 

Como os outros, cuspi no altar avito 

Um rir feito de fel e de impureza... 

Mas um dia abalou-se-me a firmeza, 

Deu-me um rebate o coração contrito! 

Erma, cheia de tédio e de quebranto, 

Rompendo os diques ao represo pranto, 

Virou-se para Deus minha alma triste! 

Amortalhei na Fé o pensamento, 

E achei a paz na inércia e esquecimento... 

Só me falta saber se Deus existe! 

(QUENTAL, 1976, p. 138.) 

 

Eça de Queirós 

Falaremos agora da grande figura da prosa realista em Portugal: Eça de Queirós. Assim como os demais escritores realistas, ele estudou na Universidade de Coimbra. O ficcionista cursou Direito nessa instituição e fez parte de uma entusiasmada geração acadêmica que pregava as ideias de Proudhon e Comte. Entretanto, o autor manteve-se à margem da famosa Questão Coimbrã, sendo um mero espectador do choque entre os ideais realistas dos estudantes e novos escritores portugueses e as concepções dos velhos românticos que escreviam em Lisboa. Anos depois, ele participou ativamente das Conferências democráticas do Cassino Lisbonense, que, numa postura de negação aos ideais românticos, pregavam e procuravam consolidar os ideais realistas. Julgamos ser conveniente entender o que foi o Realismo mediante as palavras do autor em questão. Seguindo esse pensamento, o escritor afirma sobre essa manifestação em sua conferência: “O Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento: o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que pinta nossos próprios olhos – para condenar o que houver de mau na nossa sociedade”.

 

Realismo é crítica, sendo esta a palavra de ordem de Eça de Queirós. Ele soube, como nenhum outro autor, retratar e criticar as mazelas da sociedade portuguesa de seu tempo.

 

Então, começaremos a observar a obra desse autor. Ela é comumente dividida em três fases. Na primeira, encontramos o autor ainda preso aos ideais românticos, com obras como O mistério da estrada de Sintra, elaborada a quatro mãos devido à participação de Ramalho Urtigão. Na segunda fase, temos a consolidação das características realistas-naturalistas. Entre os romances, podemos citar O crime do Padre Amaro, O primo Basílio e Os Maias. O romance de tese, discutido anteriormente, foi uma ferramenta bastante utilizada pelo autor nessas obras que ele mesmo chamava de ‘cenas portuguesas’. A respeito de tal fase, podemos ressaltar que:

 

[...] Eça coloca-se sob a bandeira da República e da Revolução, e passa a escrever, em coerência com as ideias aceitas, obras de combate às instituições vigentes (Monarquia, Igreja, Burguesia) e de ação e reforma social. Tais romances compromissam-se com o ideário da geração de 1870 e valem como flagrante, embora deformado, retrato da sociedade portuguesa sua contemporânea, erguido em linguagem original, plástica, já impregnada daquelas qualidades características de seu estilo: naturalidade, fluência, vigor narrativo, precisão, “oralidade” antideclamatória. Junte-se-lhes o pendor inato para certo lirismo melancólico e para a sátira e a ironia, utilizadas estas com sutileza e graça, facilmente transformáveis em riso que vem do ridículo daquelas criaturas escolhidas pelo escritor como exemplos típicos duma sociedade deliquescentemente hipócrita. São romances de ‘atualidade’, crônicas de costumes’, ainda hoje relativamente vivos graças à focalização de algumas mazelas constantes do homem 

 

(MOISÉS, 2001, p. 194).

 

Na terceira fase da escrita de Eça de Queirós, percebemos o autor preocupado com os valores tradicionais, a vida portuguesa, a existência humana e a vida campestre, os quais foram expressos em A casa de Ramires, A cidade e as serras e Relíquias

 

No entanto, a segunda fase corresponde ao momento representativo da obra de Eça de Queirós. Nela, encontramos as características realistas efetivamente expressas, acentuando a crítica à sociedade, aos valores morais, ao clero e à burguesia. Observemos, então, as características da obra O crime do Padre Amaro

 

O crime do Padre Amaro narra o romance entre Amélia e o Padre Amaro. Amélia era uma jovem ingênua que acreditava em todos os dizeres proferidos pelos padres. Amaro, por sua vez, era um representante corrupto do clero e findava por seduzir a jovem, levando-a à morte em virtude do fardo social carregado pela jovem.

 

Esse livro escandalizou a sociedade portuguesa de seu tempo. Observe a maneira com que Eça narra os acontecimentos e imagine o povo português do século XIX lendo tais dizeres: 

 

Era este um dos grandes gozos de Amaro – ouvir gabar aos colegas a beleza de Amélia, que era chamada entre o clero “a flor das devotas”. Todos lhe invejavam aquela confessada. Por isso insistia muito com ela em que se ajanotasse aos domingos, à missa; zangara-se mesmo ultimamente de a ver quase sempre entrouxada num vestido de merino escuro, que lhe dava um ar de velha penitente. [...] Cessaria as suas relações com Amaro, se o ousasse: mas receava quase tanto a sua cólera como a de Deus. Que seria dela se tivesse contra si Nossa Senhora e o senhor pároco? Além disso, amava-o. Nos seus braços, todo o terror do Céu, a mesma ideia do Céu desaparecia; refugiada ali, contra o seu peito, não tinha medo das iras divinas; o desejo, o furor da carne, como um vinho muito alcoólico, davam-lhe uma coragem colérica; era como um brutal desafio ao Céu que se enroscava furiosamente ao seu corpo.

 

Imagine as pessoas daquele tempo lendo uma obra literária em que um padre mantinha relacionamento com uma jovem... Nesse livro, Eça mostra o quão deteriorado se encontrava o clero, assim como a sociedade portuguesa, sustentada por preconceitos e hipocrisias de toda natureza. Realmente, causaria escândalo. 

 

   

     

Outra obra importante corresponde a O primo Basílio. Nela, o narrador conta a história de Luísa, uma jovem tonta e de vida inútil que gastava seus dias lendo os famosos “romances cor-de-rosa”. Num determinado momento da narrativa, o marido da personagem, Jorge, viaja para Alentejo a trabalho. É nesse ponto da história, com a solidão burguesa e ociosa de Luísa, que aparece o personagem Basílio, um primo que há anos a jovem não encontrava. Assim, a personagem passa largo tempo sob os galanteios de Basílio até que se envolver num relacionamento amoroso com ele. Basílio, por sua vez, era aventureiro, sedutor, um rapaz despreocupado que, em realidade, não nutria sentimentos por Luísa, desejando tão-somente uma aventura amorosa. Com efeito, forma-se o banal triângulo amoroso e núcleo da sociedade burguesa: o casamento é atingido pelo adultério.

 

Tornados amantes, Basílio e Luísa passam a se corresponder, fato que é descoberto por Juliana, uma solteirona e criada de Luísa. Esta recolhe as cartas dos amantes e inicia um processo de chantagem, humilhação e vingança para com a patroa. Observe um dos fragmentos em que Juliana a chantageia,  considerado um dos ápices da obra:

 

– Seiscentos mil réis! Onde quer você que eu vá buscar seiscentos mil réis?

 

– Ao inferno! – gritou Juliana. – Ou me dá seiscentos mil réis, ou tão certo como eu estar aqui, o seu marido há de ler as cartas!

Luísa deixou-se cair numa cadeira, aniquilada.

 

– Que fiz eu para isto, meu Deus? Que fiz para isto?

 

Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente. [...]

 

– Pois que lhe parece? – exclamava. Não que eu coma os restos e a senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem mo dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? E uma enxovia! A percevejada é tanta que tenho de dormir quase vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! A criada é o animal. Trabalha se pode, senão rua, para o hospital. Mas chegou-me a minha vez – e dava palmadas no peito, fulgurante de vingança. – Quem manda agora, sou eu!

 

 

Podemos ainda citar o romance intitulado Os Maias, último livro dessa fase, que conta a história do amor incestuoso entre Carlos Eduardo da Maia e Maria Eduarda. As crianças foram separadas enquanto ainda recém-nascidas, mas elas acabam se encontrando e se apaixonando. Ao lado dessa trama, Eça de Queirós critica a futilidade e o falso moralismo da sociedade lisbonense. Observe o fragmento em que Carlos Eduardo descobre ser irmão de Maria Eduarda: 

 

– E tu acreditas que isso seja possível? Acreditas que suceda a um homem como eu, como tu, numa rua de Lisboa? Encontro uma mulher, olho para ela, conheço-a, durmo com ela e, entre todas as mulheres do mundo, essa justamente há de ser minha irmã! É impossível... Não há Guimarães, não há documentos que me convençam!

 

Você Sabia?

Você sabia que várias obras de Eça de Queirós ganharam releituras pelo cinema e pela televisão? Pois bem, o romance O primo Basílio foi às salas de cinema em 2007, produzido por Daniel Filho, com os atores Débora Falabella, Fábio Assunção, Reynaldo Gianecchini e Glória Pires como personagens principais. Enquanto isso, o romance Os Maias transformou-se em minissérie no ano de 2001, sob a direção de Emílio de Biasi e Del Rangel, contando com os atores Fábio Assunção e Ana Paula Arósio nos papéis de Carlos Eduardo e Maria Eduarda, respectivamente. Além do divertimento, essa é uma forma interessante de contrapor a sua leitura do texto integral ao texto fílmico. 

 

O romance vale, sobretudo, como um documento social, bem como um registro do estilo de Eça. Ao levar dez anos para elaborar o romance, o ficcionista buscou examinar a alta sociedade lisboeta em todas as suas camadas, desde os financistas, passando por políticos, literatos, jornalistas, entre outras para pintar  a decomposição da sociedade portuguesa. 

 

Embora Eça de Queirós fale das injustiças sociais e as represente mediante a presença de personagens advindas de camadas sociais inferiores, sua ênfase corresponde a criticar a alta burguesia, o clero português e a hipocrisia que os circundam. Desvelar as infâmias e as hipocrisias sociais: eis a atitude que mantém Eça de Queirós vivo na memória dos leitores até os dias de hoje. 

 

Saiba Mais!

 

Cesário Verde é inegavelmente uma grande inspiração para a poesia moderna portuguesa, a exemplo das obras feitas por Fernando Pessoa. Seu trabalho é considerado original: combinou temática a uma expressão inovadora, elaborando um espaço tão conhecido por nós atualmente, que é a poética do cotidiano. Nesse sentido, o poeta tematizou a vida rotineira nas cidades, valendo-se de um rigor estético que possibilitava explorar as adjetivações, desenhando imagens admiráveis. Essa corresponde a uma captação do cotidiano sob o viés impressionista, isto é, busca-se a palavra que traceja a imagem considerando as impressões despertadas pela cena em quem a observa. Assim, “[...] pela primeira vez, o lirismo tentava, com a força própria das novidades, lançar a atenção sobre o prosaico diário, inclusive nos seus aspectos julgados repelentes, grotescos ou ridículos, quando não apenas fora do interesse poético (MOISÉS, 2001, p. 175)”. Observe a seção IV – Horas mortas, do poema denominado “Sentimento dum Ocidental”, e perceba as questões apontadas: 

 

O teto fundo de oxigênio, de ar,

Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;

Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,

Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

 

Por baixo, que portões! Que arruamentos!

Um parafuso cai nas lajes, às escuras:

Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,

E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

 

E eu sigo, como as linhas de uma pauta

A dupla correnteza augusta das fachadas;

Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,

As notas pastoris de uma longínqua flauta.

 

Se eu não morresse, nunca! E eternamente

Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!

Esqueço-me a prever castíssimas esposas,

Que aninhem em mansões de vidro transparente!

 

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,

Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!

Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,

Numas habitações translúcidas e frágeis.

 

Ah! Como a raça ruiva do porvir,

E as frotas dos avós, e os nômadas ardentes,

Nós vamos explorar todos os continentes

E pelas vastidões aquáticas seguir!

 

Mas se vivemos, os emparedados,

Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...

Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas

E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

 

E nestes nebulosos corredores

Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;

Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,

Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

 

Eu não receio, todavia, os roubos;

Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;

E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,

Amareladamente, os cães parecem lobos.

 

E os guardas, que revistam as escadas,

Caminham de lanterna e servem de chaveiros;

Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,

Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

 

E, enorme, nesta massa irregular

De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,

A Dor humana busca os amplos horizontes,

E tem marés, de fel, como um sinistro mar! 

 

(VERDE, 1982, p. 69-72)

 

Leitura!

música de Chico Buarque de Holanda, intitulada O casamento dos pequenos burgueses, também tratou do problema referente à instituição da sociedade burguesa e às suas hipocrisias. Observe que as problemáticas apontadas por Eça de Queirós sobre a sociedade portuguesa tornaram-se questões universais: 

 

O Casamento dos Pequenos Burgueses

 

Chico Buarque

 

Ele faz o noivo correto

E ela faz que quase desmaia

Vão viver sob o mesmo teto

Até que a casa caia

Até que a casa caia

 

Ele é o empregado discreto

Ela engoma o seu colarinho

Vão viver sob o mesmo teto

Até explodir o ninho

Até explodir o ninho

 

Ele faz o macho irrequieto

E ela faz crianças de monte

Vão viver sob o mesmo teto

Até secar a fonte

Até secar a fonte

 

Ele é o funcionário completo

E ela aprende a fazer suspiros

Vão viver sob o mesmo teto

Até trocarem tiros

Até trocarem tiros

 

Ele tem um caso secreto

Ela diz que não sai dos trilhos

Vão viver sob o mesmo teto

Até casarem os filhos

Até casarem os filhos

 

Ele fala de cianureto

E ela sonha com formicida

Vão viver sob o mesmo teto

Até que alguém decida

Até que alguém decida

 

Ele tem um velho projeto

Ela tem um monte de estrias

Vão viver sob o mesmo teto

Até o fim dos dias

Até o fim dos dias

 

Ele às vezes cede um afeto

Ela só se despe no escuro

Vão viver sob o mesmo teto

Até um breve futuro

Até um breve futuro

 

Ela esquenta a papa do neto

E ele quase que fez fortuna

Vão viver sob o mesmo teto

Até que a morte os una

Até que a morte os una.

 

Em Resumo

A instauração do Realismo e do Naturalismo em Portugal advém de um confronto de duas mentalidades literárias diferentes: Antônio Feliciano de Castilho, com seus discípulos ultrarromânticos e Antero de Quental, com o grupo de estudante e novos escritores da Universidade de Coimbra. Esse embate ficou historicamente conhecido como a Questão Coimbrã, que viabilizou a realização das Conferências Democráticas no Cassino Lisbonense em 1871. A partir disso, a publicação das obras realistas era tão-somente uma questão de ‘tempo’. A obra considerada o primeiro grande romance realista foi O crime do Padre Amaro, em 1875. Além dos autores já mencionados, são também significantes Cesário Verde e Guerra Junqueiro nesse contexto histórico. 

 

Referências

HAUSER, Arnold. História social da arte e da cultura. Lisboa: Estante , 1964. v. 4.

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 31. ed. São Paulo: Cultrix, 2001.

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 

QUEIRÓS, Eça de. Obra de ficção.  Porto: Lello & Irmão, 1958. 1 v.

QUENTAL, Antero de. Coração liberto: poemas escolhidos. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976. 

VERDE, Cesário. Poesia completa & cartas escolhidas. São Paulo: Cultrix, 1982. 

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