Texto: Ásia: Busca por Autonomia

Ásia: Busca por Autonomia

continente asiático sofreu com a ocupação estrangeira desde o século XIX, durante a corrida imperialista dos países europeus e dos Estados Unidos. No século XX, essas nações conseguiram, finalmente, tornarem-se autônomas, mas a custo de muitos conflitos e mortes. 

 

A Reconquista da Autonomia

Na segunda metade do século XX, o mundo sofreu agudas mudanças, tendo seu mapa redesenhado graças ao processo de descolonização, que foi acentuado após o término da Segunda Guerra Mundial. No caso da África e da Ásia, esse processo foi marcado por intensos conflitos. 

 

Após a guerra, muitas nações se rebelaram contra seus colonizadores, sendo que, em vários casos, os conflitos foram marcados por disputas de poder entre os povos locais. Muitos Estados que se formaram nesse processo de descolonização apresentavam grandes limitações democráticas advindas de experiências ditatoriais, sucessivos golpes de Estado e predomínio de governos militares. 

 

 

O movimento de descolonização ganhou corpo, em primeiro lugar, como reação à dominação estrangeira, que promoveu a desagregação das culturas tradicionais e a espoliação das riquezas locais; em segundo lugar, foi impulsionado por forte ideologia nacionalista. O cenário internacional mostrou-se propício aos movimentos de descolonização, com o enfraquecimento do poder de várias nações imperialistas, como a Inglaterra e a França. 

 

Uma vez enfraquecidos (ou destruídos) pelos esforços direcionados à Segunda Guerra Mundial, os antigos impérios europeus ruíram pela incapacidade de manterem seus domínios em outros continentes. A situação foi aproveitada pelas duas novas superpotências da época: em busca de aumentarem sua influência na política global, Estados Unidos e União Soviética passaram a disputar o controle do antigo império que se desfazia.

 

A forma de ação dos soviéticos dizia respeito à aproximação aos governos que surgiram após revoluções radicais e à inspiração dos ideais comunistas. Nem sempre, porém, esses movimentos culminaram na formação de Estados totalitários e burocratizados, a exemplo do Estado soviético. Enquanto isso, os norte-americanos aliaram-se aos governos de cunho mais conservador, como o do Irã e o da Turquia. Vale ressaltar que grande parte dos novos Estados procurou se manter distante da Guerra Fria. 

 

Graças ao acesso, sobretudo, a recursos médicos, observou-se um intenso crescimento demográfico nas sociedades que surgiram nesse processo. Como consequência, a maior parte da população mundial passou a se concentrar no chamado Terceiro Mundo. A partir de 1950, ocorreu um grande processo de urbanização na Ásia e na África, fazendo surgir algumas das maiores cidades do mundo. Por outro lado, verdadeiras multidões imigraram para suas antigas metrópoles, ocupando cidades como Londres, Paris e Roma. Boa parte desse contingente, todavia, estava em condição clandestina e trabalhando em empregos pouco valorizados. 

 

Coreia(s)

 

Coreia(s) 

A península da Coreia já havia sofrido intervenções estrangeiras desde o século XIX. No início da Segunda Guerra Mundial, o território estava sob o domínio do Japão e, ao fim do conflito, ele foi dividido em duas áreas de influência: a parte sul, controlada pelos Estados Unidos (capitalista), e a parte norte, pela União Soviética (socialista). Nos anos seguintes, com a Guerra Fria, formaram-se dois países na região: a República da Coreia (Coreia do Sul), com proteção norte-americana; e a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte), sob hegemonia soviética. 

 

Com o fim da ocupação soviética e estadunidense nas Coreias, começaram a surgir conflitos entre os dois lados coreanos. Ambos os lados reivindicavam a reunificação do país, mas as diferenças ideológicas se sobressaíram. Na esteira de revoluções socialistas, como a ocorrida na China em 1950, a Coreia do Norte investiu um ataque surpresa à do Sul. A reação do aliado americano foi o envio de tropas militares com o intuito de auxiliar a Coreia do Sul no conflito. 

 

Para evitar um conflito com o rival, a União Soviética apenas denunciou as ações arbitrárias norte-americanas. O apoio à Coreia do Norte foi concedido pela China, que via na derrota norte-coreana uma ameaça, visto que os Estados Unidos ampliariam seus domínios e se aproximariam ainda mais do país. Em 1953 foi assinado o Armistício de Panmunjon, pelo qual se mantinha a divisão das Coreias em ambas as partes. A essa altura, a Guerra da Coreia já havia provocado enormes destruições: enquanto os norte-americanos perdiam cerca de 50 mil soldados, os coreanos do norte e os chineses contabilizavam 1,5 milhão de vítimas. Estima-se ainda que cerca de três milhões de civis tenham perdido a vida no conflito. 

 

Militares norte-coreanos

 

Após a guerra, os dois países tiveram destinos distintos: a Coreia do Sul transformou-se numa grande potência tecnológica e econômica e hoje integra o grupo dos chamados Tigres Asiáticos (potências econômicas da Ásia); já a Coreia do Norte ancorou-se no bloco socialista e, com o fim da União Soviética em 1990, o governo buscou uma aproximação com outras nações do mundo, como o Japão e a Austrália (era a tentativa de romper com o isolamento que agravava a situação econômica do país). Houve, também, por parte da Coreia do Norte, um esforço de estreitar os laços com a Coreia do Sul, com a adoção de acordos que previam a desmilitarização e a libertação dos prisioneiros. Esse otimismo chegou ao fim em 2002, quando o governo norte-coreano anunciou a retomada dos programas nucleares, visando à construção de armas de destruição em massa. 

 

Desfile militar na Coreia do Norte

 

Índia e Paquistão

A região onde hoje se concentram o Paquistão e a Índia foi colonizada por europeus desde o século XV, mas o domínio mais efetivo foi realizado pela Inglaterra a partir do século XVIII. Havia ali um lucrativo comércio que ficou conhecido como a Joia da Coroa; no entanto, houve diversas rebeliões dos indianos em resistência à ocupação britânica.     

 

Índia e Paquistão

 

Num país incorporado ao império britânico desde 1885, a mais expressiva força de oposição era o Partido do Congresso, que em 1910 comandou o processo de independência da Índia. O primeiro grande ato ocorreu em 1919, com uma greve duramente reprimida pelos ingleses. Liderado por Mohandas Gandhi, conhecido como Mahatma (Grande Alma), o movimento fundamentava-se no princípio da não violência, com incentivo às ações coletivas de desobediência civil, tais como greves, manifestações, transgressões às leis e boicote aos produtos estrangeiros, sobretudo ingleses. 

 

Essas atitudes se proliferaram e minaram as forças dos colonizadores durante a Segunda Guerra Mundial. O governo inglês iniciou, então, um processo de transição gradual do poder para os indianos; todavia, isso intensificou as disputas entre o Partido do Congresso, que reunia a maioria da população, praticante das religiões hinduístas, e a Liga Muçulmana, que concentrava uma minoria islâmica. 

 

Fronteiras da Índia

 

O resultado do conflito foi a divisão do território. Em 1947 surgiu a Índia, com o governo hinduísta de Jawaharlal Nehru. O Paquistão também fora formado com maioria islâmica, com o governo de Ali Jinnah – vale destacar que, em 1971, parte desse país deu origem a Bangladesh. O legado dessas divisões é uma intensa relação conflituosa entre Índia e Paquistão, marcada por rivalidades religiosas e pela ameaça de ataques nucleares. 

 

Indonésia

A Indonésia é um extenso arquipélago localizado no sudeste da Ásia, que fazia parte do império holandês desde o século XVII. Durante a Segunda Guerra Mundial, a região foi invadida pelos japoneses. As tensões entre invasores, antiga metrópole (Holanda) e movimentos nacionalistas indonésios foram resolvidas em 1949, sob pressão da Organização das Nações Unidas (ONU), com a constituição de um governo independente, liderado por Ahmed Sukarno até 1960. 

 

Em 1965, o país sofreu um golpe de Estado comandado pelo general Suharto, a fim de recolocar Sukarno no poder. No entanto, a violenta repressão fez com que o líder fosse retirado do poder e mantido sob prisão domiciliar até a sua morte, em 1970. Em seu lugar, assumiu o golpista Suharto, que governou o país de forma ditatorial até 1998. O governo de Suharto também foi responsável pela invasão de Timor-Leste, antiga colônia portuguesa. 

 

Em Resumo

A reconquista da autonomia dos países asiáticos foi repleta de tensões políticas e conflitos. Em vários casos, as discordâncias foram tamanhas que surgiram outros países, como foi o caso da Índia, cujo território foi dividido entre os nascentes Paquistão e Bangladesh. Assim como o Paquistão e a Índia, outras nações são constantemente ameaçadas por conflitos militares, como as Coreias do Sul e do Norte.

 

Referências

BRAUDEL, Fernand. Gramática das civilizações. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

BRUIT, Hector. O imperialismo. Campinas: Atual; Unicamp, 1987.

CANÊDO, Letícia. A descolonização da Ásia e da África. São Paulo: Atual, 1986.

FERRO, Marc. O livro negro do colonialismo. São Paulo: Ediouro, 2008.

McNEILEL, W. História universal: estudo comparado das civilizações. Porto Alegre: Globo, 1972.

ZIERER, Otto. Pequena história das grandes nações: Japão. São Paulo: Círculo do Livro, 1985.

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