Texto: Sociedade do Consumo

Sociedade do Consumo

Certa vez, em 1749, Rousseau atravessava Paris para visitar um amigo filósofo que tinha sido preso por publicar um livro pecaminoso. Ao passar por uma banca de jornal, uma estranha notícia-pergunta – expressa na primeira página de um jornal parisiense –chamou-lhe a atenção: O avanço da ciência e da tecnologia contribuiu para tornar melhores os homens? 

 

Neste tópico – Sociedade de consumo – vamos acrescer um elemento a essa pergunta, recriando assim a provocação do jornal parisiense: O avanço da ciência e da tecnologia, bem como o alto consumo de bens produzidos por elas na modernidade, contribuiu para que os homens exerçam a cidadania em seu aspecto excelente? 

 

 

Sobre o Destino de Rousseau

Por causa dessa provocação no jornal, Rousseau começou a escrever livros. Escrever, para ele, não foi apenas uma forma de determinar o próprio destino desta breve vida e, desse modo, escapar de poderes que arrogam o direito de determinar o modo de agir, pensar e viver dos homens, como, por exemplo, o poder do Estado, dos meios de comunicação de massa e dos proprietários dos meios de produção. Mais que isso, Rousseau indica um caminho para que os cidadãos exerçam seu direito à cidadania. Que caminho é esse?

 

Ora, diante da perplexidade que a pergunta lhe causara, Rousseau decide escrever um texto em resposta à provocação do jornal. Seu texto foi escrito com a tinta da denúncia, porém, mais que denúncia, mostrou um caminho para que o homem se libertasse dos poderes acima citados, e talvez a outras ambições de dominação acultas no próprio ser do homem.  

 

O homem, no exercício pleno de sua liberdade, mostra-se como um ser capaz de criar coisas maravilhosas, tais como as invenções tecnológicas. No entanto, igualmente se mostra um ser destrutivo, ou seja, capaz de arruinar a vida biológica, o espaço público, a vida política, a noção de cidadania e os direitos civis, bem como é capaz de extinguir o meio ambiente no qual vive. Por ganância, é capaz de arruinar uma nação e, assim, uma cultura esplêndida. 

 

Não. Segundo Rousseau, o avanço da ciência e da tecnologia não contribuem para tornar melhores os homens, pois estes ainda fomentam o ódio que destrói a vida.

 

Rousseau, porém, indica um caminho: se os homens pretendem um triunfo sobre esse ódio à vida, é indispensável que se reconstrua a noção de virtude, isto é, os valores morais. Quer-se com isso dizer que é necessário reconstruir nosso intelecto (nosso modo de pensar a vida, a política, as ciências, a tecnologia, as artes, a matemática etc.). É necessário, assim, reconstruir nossos valores morais, os quais propõem a vida como valor absoluto e o exercício da cidadania como atividade comum, cotidiana de todos.

 

A Tecnologia como Celebração à Vida

A tecnologia, disse Descartes, é uma intervenção do homem que pode alterar seu destino social e particular, promovendo a vida como valor absoluto. Que significa isso? Que a tecnologia é indispensável e eficaz se permite apontar soluções próprias para os problemas particulares e sociais, como os que os homens encontram em sua existência, em sua vida. Que problemas particulares são esses? Uma pessoa que não pode andar é um exemplo. A maioria dos homens não se dá conta de que caminhar é algo fantástico. Porém, existem pessoas que, por várias razões, não possuem esse bem tão precioso. 

 

No exemplo citado acima, a tecnologia pode ser útil aos homens para remediar tal problema. Não seria maravilhoso que um cadeirante voltasse a andar? E, se a tecnologia contribui para esse bem, não seria ela – a tecnologia – um bem para os homens? O médico e cientista Miguel Nicolelis afirma que sim. Para ele, igualmente para Descartes, a ciência e a tecnologia podem remediar muitos problemas, tal como o citado no parágrafo anterior. 

 

Atenção!

A ciência e a tecnologia podem remediar os problemas dos homens. Porém, esse remédio não significa contribuir diretamente para que os homens exerçam a cidadania em seu aspecto excelente. É preciso algo mais. Rousseau diz que é preciso mudar a mentalidade e o modo de usar e pensar nossa ciência e nossa tecnologia. Antes de mero videogame, é indispensável que ciência e tecnologia promovam mudanças sociais e políticas, ou seja, o bem geral no sentido político, nunca particular. 

 

Porém, encontrar as soluções para os problemas humanos não é algo que ocorre facilmente. Não se produz ciência e tecnologia sem esforço, estudo e pesquisa. Muito pelo contrário, o estudo e a pesquisa são dois elementos fundamentais para criar ciência e tecnologia. Daí um dos sentidos de estudar e de procurar tornar-se o que se é. Quer dizer, tornar-se um escritor, um médico, um filósofo, um professor, um cozinheiro, um cientista etc.

 

A ciência e a tecnologia podem ser um bem à vida na medida em que potencializam nossa atividade terrena, nossa vida aqui e agora. O que interessa, de fato, é se através da ciência e da tecnologia pudermos determinar nosso destino particular e social. O homem é um ser capaz de encontrar dentro e fora de si as soluções próprias dos problemas e das dificuldades que se dão nele e fora dele, isto é, ele é capaz de promover um bem a si mesmo, bem como a outros homens e ao meio em que vive. Daí o valor primordial tanto da ciência quanto da tecnologia: preservar e conservar a vida particular (ética), a vida política e o ambiente em que se vive. 

 

Você Sabia?

Miguel Nicolelis é um médico e cientista brasileiro. Sua busca – pesquisa ou filosofia – tem o objetivo de integrar o cérebro humano com máquinas. Da relação dessas duas noções – cérebro humano e máquina – pretende-se alcançar o que ele chama de neuroprótese. Através da neuroprótese, uma pessoa que não possui os movimentos do corpo pode recuperá-los e andar novamente. 

 

Sobre o Acesso à Ciência e à Tecnologia

Dizem os noticiários de televisão que a ciência e a tecnologia são bens humanos, quer dizer, pertencem à humanidade. No entanto, quem tem acesso a esses bens? Ora, vivemos num mundo torto: ciência e tecnologia não estão ao alcance de todos os cidadãos. Daí a necessidade não é apenas de uma postura política – tal como aprendemos com Aristóteles –, mas de promover movimentos sociais que reivindiquem o acesso a esses bens por todos os cidadãos.

 

No entanto, essa postura figura apenas o primeiro passo. Resta, de fato, exercermos nossa cidadania em seu aspecto excelente e lutarmos não apenas para que as diversas tecnologias estejam ao alcance de todos os cidadãos – tal como as neuropróteses – mas, sobretudo, para que utilizemos as tecnologias como instrumentos para extinguir a fome, a miséria e a pobreza ainda presentes nas esquinas de nosso país. 

 

Assim, mais que o acesso ao admirável mundo novo dos games, precisamos promover nossa sabedoria – ciência e a tecnologia – como instrumentos, por exemplo, para extinguir a fome e a pobreza concreta. Não que os games não sejam importantes, mas antes é indispensável suprimir a imagem de uma criança que não tem condições de se alimentar.

 

Além de entretenimento – games, por exemplo – e de um instrumento para ações políticas – como extinguir a miséria de todo um país –, a ciência e a tecnologia servem para divulgar e compartilhar cultura, isto é, pensamentos. Como isso ocorre? Como transformar nossa ciência e nossa tecnologia em instrumentos capazes de promover o bem público e compartilhar nossa cultura, uma cultura de pensamentos? Mudar a mentalidade, disse Rousseau, parece significar um primeiro passo.

 

Entre Sócrates e o Consumidor

Sócrates foi um filósofo grego que viveu há muito tempo, aproximadamente 400 anos antes de Cristo, 25 séculos atrás, em Atenas, na Grécia. Dizem os livros de História que ele era um homem de estatura baixa e de aparência feia, mas quando falava suas palavras expressavam uma beleza que tocava profundamente as pessoas. Eram tocantes porque provocavam as pessoas a pensarem sobre o conhecimento que acreditavam ter, por exemplo, sobre a beleza. “Que é a beleza?”, perguntava Sócrates, questionando nesse exemplo não apenas o que é a beleza física, mas também a da alma. 

 

É surpreendente que Sócrates passeava pelos shoppings de Atenas e não se interessava em consumir (comprar) muitas coisas. Consumia sim, é verdade, mas não muito. Talvez a vida e a beleza expressa no mundo lhe bastavam à alma. Sócrates não era o que chamamos hoje de consumidor. Muito pelo contrário: olhava para as vitrines das lojas e dizia: “Quantas coisas existem nessas lojas das quais não necessito para viver, isto é, para estimular minha atividade!”.

 

Sócrates foi, de fato, uma figura emblemática, mas não menos que um sujeito insuportável e irritante. Pois, de fato, é muito chato incomodar as pessoas com perguntas bobas, tais como: “O que é a vida? Que sentido há em existir? Qual o melhor modo de vivermos a vida particular e a vida política? Qual a melhor forma política? Quais são os valores que desejamos construir para esta sociedade? Que sentido nós poderíamos dar à ciência e à tecnologia? Seria um sentido que promove a vida ou a destruição? Por que alguns homens dizem não à vida e preferem a destruição desta? O que é o homem? O que é o homem diante da vida e do mundo? Aliás, o que é o mundo? O que estamos fazendo de nossa vida, de nossa existência? O que é a cidadania? O que é um Estado político? O que é a política?”. 

 

Ora, são perguntas bobas de Sócrates, leitor(a). Poderíamos dizer que, se ele vivesse nos dias atuais, estaria mais preocupado em conhecer a si mesmo, isto é, em conhecer seu modo de agir, pensar e viver do que com o sapato que irá comprar, ou a roupa da balada, ou ainda com o novo celular com vários dispositivos funcionais. Não que isso não seja importante: é verdade que os dispositivos são úteis. Aliás, roupas e sapatos podem expressar beleza, porém ninguém pode calçar vinte sapatos numa noite. Além disso, a expressão estética exige menos sapatos e mais vivências. 

 

Leitura

Admirável mundo novo é um livro de Aldous Huxley. Nessa obra, Huxley mostra um futuro no qual as pessoas são determinadas pela ciência (biologicamente) e pela tecnologia desde o nascimento. A determinação é genética, ou seja, o corpo é geneticamente determinado para que o cidadão viva em harmonia com as leis e regras sociais. Nota-se, porém, que não se exige do cidadão uma livre participação no destino social, bem como em seu destino particular, pois desde criança está determinado o que ele irá pensar, agir e fazer na vida. Ora, de um lado, como foi dito anteriormente, ciência e tecnologia podem remediar os problemas do homem. De outro, ciência e tecnologia podem figurar poderes tanto quanto o Estado e, assim, ao invés de libertar o homem desses velhos poderes – Estado e meios de comunicação de massa – reitera o desejo de dominação. Sem consciência crítica, a ciência e tecnologia mostram-se como possíveis lobos do homem.

 

Em Resumo

Em certa medida, nossa ciência e nossa tecnologia estimulam nossas vidas, o que indica um aspecto fascinante dessas duas coisas fantásticas. Porém, o homem é um ser capaz de transformar a ciência e a tecnologia em instrumentos de dominação, sendo este um aspecto que se revela destrutivo.

 

O consumo pode ser interessante na medida em que “comprar algo” supra nossas necessidades ou estimule nossas atividades de produção de pensamentos e, portanto, nossa produção de cultura. Vê-se aí que consumir coisas não significa produzir cultura e tampouco pensamento. Antes, significa que se consumiram coisas. O luxo excessivo pode mostrar não exatamente beleza, mas pobreza de espírito. Decida o(a) estudante entre o luxo excessivo e a postura socrática. Bom destino a todos!

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