Texto: O Homem, Transformador da Natureza

O Homem, Transformador da Natureza

 

Tomada de Consciência

Como vimos, ao transformar o mundo, o homem cria o mundo cultural. É evidente que muitos animais transformaram o mundo antes e durante a existência humana. Os castores, por exemplo, construíam e constroem barragens que alagam grandes quantidades de florestas. Nada, porém, se compara aos alagamentos realizados pelos homens ao construírem suas próprias barragens. Mas um detalhe na vida humana fez com que ele ganhasse significativa vantagem com relação aos outros animais: a linguagem. Com ela e a partir dela, o homem criou seu próprio mundo. 

 

 

Por mais que um animal superior, como um chimpanzé, seja adestrado, ele nunca conseguirá transpor a barreira da linguagem que o separa dos humanos. O homem criou uma linguagem sofisticada, simbólica e foi capaz de intencionalmente, como vimos, criar instrumentos cada vez mais sofisticados, coisa que nenhum outro animal no planeta conseguiu. Por meio da imaginação, imprimiu mudanças profundas e inesperadas na realidade que o cercava. 

 

Por meio desses aspectos, o homem foi sendo capaz de ultrapassar suas limitações e, mais do que isso ultrapassar a si mesmo: se refazendo, se renovando, se reinventando sempre. O homem pôde se lançar para o futuro; talvez, é o único animal que pode se projetar além do momento presente, tomando consciência de si mesmo e se transformando para se tornar aquilo que ele mesmo espera para si no tempo que ainda virá. 

 

Desse modo, provavelmente o homem seja, por meio de vários elementos, o único animal que pode criar uma consciência de sua própria história. Com a linguagem simbólica, ele revisita o passado, aprende com ele. Por meio dela, ultrapassa seu momento, perpetua seus saberes, transmite o que aprendeu para seus descendentes. O homem não precisa, por isso, reinventar a roda todas as vezes em que algum problema que exija isso apareça.; logo as transformações aplicadas no passado passam a ser guardadas na memória humana, não apenas na memória do cérebro, mas, sobretudo, na memória partilhada pela comunidade humana. Assim, ele cria museus, bibliotecas, sites, lugares onde o conhecimento passa a ser armazenado e partilhado. 

 

Nessa medida, o homem aprende consigo mesmo, evolui e reinventa o mundo. Ao olhar para si mesmo, apreende o que fora vivenciado pelas gerações passadas e continua realizando progressos nesses saberes. O homem, animal que se reinventa, se torna, por tudo isso, cada vez mais senhor do mundo. 

 

É intrigante, porém, perceber que, embora progressos tenham sido realizados pela espécie humana, quando comparamos diferentes sociedades humanas percebermos que algumas estão muito melhores do que outras. Ou, melhor dizendo, percebermos que em algumas sociedades os homens possuem vidas melhores do que a de outros homens. Por que, enfim, tanta desigualdade existe?

 

Para responder essa pergunta, poderíamos recorrer à História. Sem dúvida, ela traria vários elementos, de guerras a colonizações, que demonstram o porquê de existirem várias diferenças. Mas, no lugar disso, vamos recorrer a outra resposta possível: a cultura. 

 

Culturas e Diferenças

Culturalmente, o homem transformou de forma diversa o mundo que o cercava. Essa diversidade de modificações o ajudou a moldar visões de mundo diferentes. É claro que essa não é a única explicação possível, como vimos, tampouco a melhor delas, mas nos ajuda a perceber como o elemento cultural é fundamental para pensarmos as diferenças existentes entre sociedades. 

 

 

É normal que alguém fale de Oriente e Ocidente para marcar formas diferentes de pensar o mundo. Essa diferença se funda, justamente, em maneiras diversas de transformá-lo. Vamos a alguns exemplos que te ajudarão a compreender o fundamento de algumas diferenças. 

 

Imagine uma sociedade que tenha sido construída a beira-mar. Vivendo naquele ambiente, os habitantes daquele lugar logo entraram em contato com a força das águas e das marés. As mudanças das marés marcadas pelas fases da lua passaram a fazer parte do dia a dia dessas pessoas. Não demorou para que eles começassem a representar as mudanças por meio de festas. A lua cheia trazia certa maré; suponhamos que uma maré que favorecesse a pesca: os habitantes, então, começam a exaltar a lua por sua força e, alimentando-se de peixes, logo percebem o desafio de capturar mais desses animais. Passam a entender como eles se movem, onde se encontram etc. Os ventos e a maresia os forçam a resolver certos problemas que quem não vive ali não teria. 

 

Se compararmos essa comunidade com outra que construiu sua história em outro lugar num deserto, por exemplo, veremos que muitas mudanças irão aparecer. A alimentação será diferente; além disso, a presença da lua não mudará de forma tão drástica e evidente a vida dessas pessoas. As formas de caçar e de se relacionar com o mundo e com os outros vão ser, evidentemente, diferentes. Perceba que, por isso, um mundo cultural vai sendo construído de maneiras variadas, assim como as músicas, as danças, os rituais de caça, os casamentos, as casas, isto é, os vários elementos da cultura. 

 

Identidade Cultural

No exemplo, pensamos em grupos humanos que ainda tenham certa dificuldade de se encontrar. Quanto mais essas dificuldades persistiam, mais diferentes seriam os grupos culturais, e mais identificação alguém teria com seu próprio grupo. A essa identificação chamamos identidade cultural; é como se, ao fazer parte de um certo grupo cultural, a pessoa se tornasse idêntica aos seus semelhantes, com formas idênticas de se casar, de caçar, de dançar, de comer etc. É claro que não estamos falando de identidade no sentido de igualdade, mas no sentido de identificação. O indivíduo se identificaria com seu grupo de tal maneira que se sentiria parte dele. 

 

Da mesma maneira, grupos sociais diferentes seriam tomados como estranhos. Essa estranheza se daria pela falta de identificação com aquele grupo. Ao longo da história humana, a possibilidade de se identificar ou estranhar certos grupos foi o estopim para grandes barbaridades. Grupos destruíram aquilo que julgavam diferente, estranho, e a esses estranhos chamaram, por vezes, de inferiores, atrasados, subdesenvolvidos, feios etc. Ao pensarmos sobre isso, poderemos perceber que, embora vivamos num tempo em que seja muito mais fácil e rápido conhecer os modos como os outros vivem e constroem suas vidas, ainda assim existem grupos que julgam aquilo que é diferente da mesma maneira que faziam os que encontravam grupos diferentes dos seus há séculos. 

 

O diferente sempre foi motivo de admiração e, não raramente, de discórdia. As diferenças culturais deram origem, você já deve estar pensando, a grandes eventos da história humana. Imagine quando aquele grupo de portugueses, perdido há semanas no mar, encontraram as terras brasileiras; imagine o encontro com os nativos. As diferenças culturais eram tão enormes que deram motivo a diversas atitudes. Imagine o encontro com a África negra. Mas não pare por aí, imagine o seu encontro com realidades diferentes da sua. Pessoas que rezam de maneira diferente, que comem outras coisas, que dançam como você nunca viu. No Brasil, país de dimensões continentais, não é difícil imaginar. Se você mora no Norte, quando viaja para o Sul vê várias coisas que chama de estranhas, das comidas às danças. Se você mora no litoral, acha engraçado quando chega ao interior, desde a maneira de falar ao modo como as crianças tratam os pais, tudo causa estranhamento. 

 

Você Sabia?

Em nome de uma identidade cultural, outras culturas foram dizimadas. Um dos casos mais notáveis disso diz respeito ao genocídio promovido pelos nazistas, além do o violento massacre dos tutsis pelos hutus em Ruanda. Vale a pena pesquisar sobre esses temas para aprofundar seus conhecimentos. 

 

Desafio das Diferenças

As diferenças culturais são tão profundas, que mesmo num mundo cada vez mais globalizado, elas ainda gritam forte no inconsciente de cada um de nós. Por meio delas, é possível compreender melhor como se fundamentam as diferenças construídas historicamente por grupos sociais diferentes. Às vezes, tais marcas estão presentes até mesmo dentro de uma mesma cidade. O grupo do gueto e o grupo do centro, o grupo dos negros e dos brancos, o dos sertanejos e o dos roqueiros, visões de mundo que se cruzam, se tocam, se encontram, se estranham e que convivem. 

 

Leitura

Para saber um pouco mais sobre as diferenças culturais e os conflitos entre os tutsis e os hutus, leia o livro Uma temporada de facões: relatos do genocídio em Ruanda, do jornalista francês Jean Hatzfeld, lançado no Brasil em 2005.

 

Em Resumo

Vimos que, por transformar o mundo de maneiras diferentes, os homens constroem identidades culturais diferentes. O papel dessas identidades é dar aos indivíduos de um grupo social a identificação necessária por meio de elementos culturais como a alimentação, a dança, as músicas etc. Identidades culturais diferentes, numa das interpretações possíveis para esse problema, são, portanto, resultantes de maneiras diversas de transformar o mundo por meio de artifícios. 

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