Texto: América Portuguesa: A Sociedade do Ouro

América Portuguesa: A Sociedade do Ouro

A União Ibérica gerou uma grave crise econômica e social em Portugal. Além das invasões que ocorreram em suas colônias, o país enfrentava uma crise aguda no mercado de açúcar, principal produto de exportação do país até aquele momento. Tudo parecia caminhar para o agravamento da crise, até que uma expedição comandada pelo bandeirante paulista Antônio Ruiz de Arzão localizou reservas de ouro na região até então denominada sertão dos Cataguases (referencia aos índios que ocupavam a região).

 

Dois anos depois, em 1695, iniciava-se o segundo grande ciclo econômico do Brasil. Com um grande deslocamento demográfico para a região onde hoje se situa o estado de Minas Gerais, diversos núcleos urbanos foram formados com intensa atividade mercantil. O comércio ascendeu na região com mercadorias supervalorizadas devido à grande procura e à baixa oferta, aliada aà dificuldade de transporte de mercadorias até região. Isso fez com que o preço de alimentos e escravos subisse substancialmente. O centro administrativo da colônia se deslocou de Salvador para o Rio de Janeiro. Estava montada a maior empresa exportadora de ouro do período. 

 

A Busca Pelo Metal Precioso

No início da exploração, encontrava-se muito ouro de aluvião nas margens dos rios, geralmente na superfície ou misturado entre a argila e a areia. Havia empreendimentos bem montados com um grande número de garimpeiros e equipamentos sofisticados, as lavras. Mas havia também garimpeiros com poucos recursos e equipamentos rústicos, os chamados faiscadores.

 

Os emboabas, como eram denominados os paulistas pioneiros no descobrimento das minas, julgavam-se injustiçados pelo fato de a Coroa portuguesa ter permitido que colonos portugueses explorassem as riquezas da região. 

 

Em 1707, dois paulistas foram linchados na região de São João del Rei, e este incidente fez eclodir uma importante revolta colonial: a Guerra dos Emboabas. O representante do rei na região, o paulista Manuel Borba Gato, expulsou o português Manuel Nunes Viana da área. No entanto, este foi aclamado governador local e, com mais forças, conseguiu conter os paulistas revoltosos. 

 

Muito sangue foi derramado durante a guerra; em 1708, um grupo de paulistas foi dizimado após se render, na chamada batalha do Capão da Traição. Um ano mais tarde os paulistas sofreram outra grande derrota, desta vez no rio das Mortes. As sucessivas derrotas fizeram com os paulistas recuassem derrotados. Após a expulsão dos paulistas, novos exploradores se dirigiram ao local, no entanto, a partir daquele momento, seria necessária uma contrapartida para a Coroa portuguesa para poder trabalhar na região. 

 

 

O Diamante

A extração de pedras preciosas foi feita de forma bem mais criteriosa. Após a descoberta das primeiras minas de diamante, em 1729, no Arraial do Tijuco, atual cidade de Diamantina, a metrópole portuguesa deteve o monopólio da exploração, concedendo o direito de garimpar as pedras a alguns contratadores particulares. A região na época denominada de Distrito Diamantino possuía um órgão específico para a sua gestão: o Real Extração. 

 

 

Nesse ínterim, as minas de pedras preciosas não foram encontradas apenas na região de Minas Gerais; no atual estado da Bahia foram extraídas muitas pedras de diamante, sobretudo na área da Chapada Diamantina. Destarte, a exemplo de Minas, a descoberta dessa riqueza estimulou uma grande migração demográfica para as áreas de garimpo. 

 

O Destino do Ouro

Entre os séculos XVII e XVIII, aproximadamente metade da extração mundial de ouro foi retirada da América Portuguesa. Entre 1700 e 1770, os lusitanos conseguiram extrair do Brasil uma quantidade superior à que os espanhóis exploraram em mais de três séculos de colonização. 

 

Esta fortuna teve diversos destinos: uma parcela era destinada à manutenção dos núcleos urbanos próximos às regiões de minério e outra parte foi utilizada para amortizar as dívidas externas que a Coroa Portuguesa havia contraído durante a União Ibérica. No entanto, a maior parte do lucro obtido com a extração era destinada a relações comerciais, sobretudo com a Inglaterra. 

 

Um dos principais fatores que levaram ao direcionamento do ouro brasileiro para a Inglaterra foi o Tratado de Panos e Vinhos, firmado em 1703 entre Portugal e Espanha, determinando que os vinhos portugueses teriam exclusividade de venda na Inglaterra, enquanto haveria redução de impostos sobre os produtos têxteis britânicos em Portugal e em suas colônias. Este acordo acabou estrangulando a economia portuguesa, forçando o país a empregar a maior parte do ouro conquistado no reino britânico. 

 

A Arte Barroca

Durante o auge do ciclo do ouro, desenvolveu-se nas áreas de garimpo um estilo artístico singular, o Barroco. De modo geral, há obras barrocas na música, pintura e escultura. No entanto, as principais obras do estilo são creditadas às Igrejas Católicas erigidas na época sob o financiamento de donos de lavras ou mesmo pela camada mais baixa da população. 

 

Entre os artistas, destaca-se Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, escultor e arquiteto. São creditadas a ele obras como Os doze profetas (1800 – 1805), localizado na igreja de Bom Jesus de Matosinhos (1796 – 1799), no atual município de Congonhas do Campo. 

 

Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto

 

Os Doze Apóstolos, do escultor Aleijadinho

 

Em Resumo

A descoberta de ouro na região de Minas Gerais culminou com a superação da empresa açucareira no nordeste e o início de um novo ciclo econômico. Durante o período, uma quantidade extraordinária de metais e pedras preciosas foi retirada do país para beneficiar, não os portugueses, mas os ingleses, no fim das contas. Destaca-se, também, o belo cenário deixado pelos artistas do período. 

    

Referências

ALVES, Alexandre; DE OLIVEIRA, Letícia Fagundes. Conexões com a História. 1ª Edição. São Paulo:  Moderna, 2010. 

COTRIM, Gilberto. História para o ensino médio: Brasil e geral. Volume único. 1ª edição. São Paulo: Saraiva. 2002.

SANTIAGO, Pedro; CERQUEIRA, Célia; PONTES, Maria Aparecida. Por dentro da história 1. São Paulo:  Escala Educacional S/A, 2010. 

VAINFAS, Ronaldo (dir.). Dicionário do Brasil Colonial (1500 – 1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

 
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