Texto: Leitura de Textos e Construção de Sentidos: Poemas - Figuras de Linguagem II

Leitura de Textos e Construção de Sentidos: Poemas - Figuras de Linguagem II

Neste tópico, vamos finalizar o estudo referente às figuras de linguagem. Você revisou uma parte delas no tópico anterior e exercitou com várias questões de vestibulares. Agora, é fechar com chave de ouro esse estudo com as figuras de construção. Além disso, caro estudante, vamos continuar nosso estudo com algumas indicações e procedimentos de leitura de poemas, importante gênero que apresenta de forma predominante em seu escopo os aspectos conotativos. Preparado? Vamos lá, então?
 
 

Figuras de Linguagem II

Como visto, ao utilizarmos as figuras de linguagem, fazemos com que o texto tenha maior expressividade e maior realce. Neste tópico, vamos agora estudar as figuras de construção. 
 
 

Figuras de Construção

As figuras de construção são figuras mais “secas” se comparadas ao estudo das figuras de palavra e de pensamento. As figuras de construção relacionam-se à estrutura gramatical das frases e períodos, constituindo algum desvio, quebra ou modificação na estrutura original. Desse campo, destacamos:
 
 
  • Elipse: é a omissão de palavras ou expressões facilmente reconhecidas.
 
Nos negócios, problemas e mais problemas (omissão do verbo Haver).
 
 
  • Zeugma: é a omissão de palavras ou expressões que já foram apresentadas anteriormente em algum ponto do texto.
 
 
“[...] Os vírus, contudo, são criaturinhas insidiosas. Ressentidos por ocuparem o térreo na pirâmide da seleção natural, estão determinados a derrotar não só os glóbulos brancos do infeliz hospedeiro, mas a subjugar seu espírito, até que a última gota da dignidade escorra pelo nariz.”
 
 
Escorrendo, de Antônio Prata. Folha de São Paulo, 01 dez. 2013.
 
 
  • Hipérbato: a língua portuguesa possui a chamada ordem direta: sujeito + verbo + complementos verbais (obj. direto, obj. indireto, adj. adverbial). Quando há grande alteração nessa ordem ou há alteração complexa desses elementos, ocorre a figura hipérbato.
 
 
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante
[...]”
 

Hino Nacional
 
 
  • Anástrofe: é uma atenuação do hipérbato. É a figura em que há uma inversão de elementos ou palavras relacionadas, isto é, inversão de palavras vizinhas.
 
“[...]
Do pálido asfalto
Se levanta a morte
Jamais te encontrarei,
Adeus, invisível mundo”
 
 
MENDES, Murilo. Tobias e o anjo. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
 
 
  • Pleonasmo: é a repetição desnecessária da mesma ideia ou palavra, ou seja, ocorre quando há redundância. Há uma diferença entre pleonasmo do campo literário, reforço do ponto de vista semântico e sintático, e o chamado pleonasmo vicioso. Fique atento a essa diferença.
 
 
“E rir meu riso e derramar meu pranto”.
Vinícius de Moraes. Soneto de Fidelidade.
 
 
 
  • Anáfora: essa figura de linguagem ocorre quando há repetição da mesma palavra ou expressão no início de frases, períodos ou versos.
 
 
  • Silepse de Gênero: é a concordância de uma palavra ou expressão não com outra palavra ou expressão, mas, sim, com a ideia que essa palavra sugere. No caso da silepse de gênero, a concordância se dá entre o gênero masculino e o feminino.
 
“São Paulo amanheceu chuvosa e fria nesta segunda-feira (30). Pela manhã, os termômetros marcavam 15ºC, de acordo com o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências).”
 
 
 
 
 
  • Silepse de Número: é a concordância de uma palavra ou expressão não com outra palavra ou expressão, mas, sim, com a ideia que essa palavra sugere. No caso da silepse de número, a concordância se dá entre o plural e o singular.
 
“A hora era de muito sol – o povo caçava jeito de ficarem debaixo da sombra das árvores de cedro. O carro lembrava um canoão no seco, navio.” ROSA, João Guimarães. Sorôco, sua mãe, sua filha. In: Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.
 
 
  • Silepse de Pessoa: é a concordância de uma palavra ou expressão não com outra palavra ou expressão, mas, sim, com a ideia que essa palavra sugere. No caso da silepse de pessoa, a concordância se dá entre a 1ª pessoa e a 3ª pessoa.
 
“O cristão jamais é uma ilha. Todos participamos da maternidade da Igreja. Milhares de fiéis e peregrinos lotaram a Praça S. Pedro na manhã desta quarta-feira para a Audiência Geral com o Papa Francisco.”
 
 
 
 

Saiba Mais!

Há ainda diversas outras figuras no campo das figuras de construção. Fique atento, nos textos, às seguintes figuras: polissíndeto, assíndeto, anacoluto.
 
 
 
 

Leitura de Textos e Construção de Sentidos: Poemas

Na leitura de textos da esfera conotativa, como o gênero textual poema, é necessário que se faça uma primeira leitura de reconhecimento, buscando o significado das palavras desconhecidas, e que se tente – numa segunda leitura mais atenta – conectar os sentidos conotativos produzidos com a linha de raciocínio proposta pelo poema. É importante, também, que se encontrem as figuras de linguagens presentes e que se entendam seus sentidos. O sentido produzido no poema como um todo deve ser coeso. Para exemplificar, vamos ler a seguir o poema “Negro Forro”, de Adão Ventura, e verificar uma linha de entendimento do texto:

 

NEGRO FORRO

 
minha carta de alforria
não me deu fazendas,
nem dinheiro no banco,
nem bigodes retorcidos.
minha carta de alforria
costurou meus passos
aos corredores da noite
de minha pele.
 
 
VENTURA, Adão. In: A cor da pele. Belo Horizonte: Edição do Autor, 1980.
 
 
Após uma primeira leitura de verificação, de sondagem, devemos reler o poema e buscar as relações internas, o pretendido pelo eu lírico, as figuras de linguagem utilizadas e, nessa busca, tentar encontrar um caminho coerente de interpretação. No poema de Adão Ventura, há claramente uma situação posta, que é a do negro, a do negro escravizado, ou ex-escravizado, visto que tanto a palavra forro como a palavra alforria nos remetem à liberdade. Entretanto, o eu lírico expressa uma negativa em relação à carta de alforria, na 1ª estrofe. Verifique como a anáfora é importante para marcar aquilo que a carta de alforria não deu. Na leitura, é tranquilo para o leitor verificar que a carta não deu fazendas nem dinheiro, mas a expressão bigodes retorcidos deve causar estranhamento no leitor. Um caminho para uma boa interpretação é “encontrar” os estranhamentos no texto. No caso de bigodes retorcidos, há, de forma clara, uma expressão conotativa e ela pode significar a alteração de classe social ou poder que a carta de alforria não deu ao negro, visto que no século XIX e início do XX era comum o uso de bigodes retorcidos por senhores abastados.
 
 
Já na 2ª estrofe, o eu lírico apresenta o que a carta deu. Observe, então, que as duas estrofes opõem-se. Veja, ainda, que o poema divide-se em duas estrofes simétricas, em que a 1ª estrofe apresenta o campo do que a carta de alforria não possibilitou e a 2ª estrofe apresenta o campo do que a carta de alforria possibilitou, ambas as estrofes negativas ao negro. Situação negativa porque a carta de alforria (liberdade) tornou o escravizado ainda mais preso (veja o vocábulo costurou e a metáfora feita aí) à escravidão e à situação degradante na sociedade. Ainda na 2ª estrofe, Corredores da noite simboliza o sofrimento, as angústias e as humilhações sofridas pelo negro. Mas por que o autor escolheu costurou? Voltemos ao título e observemos a palavra forro. No título, forro remete ironicamente à alforria, porém forro também significa cobertura e essa ideia de forro como cobertura nos remete ao pano, à costura, à prisão eterna. Se seguirmos essa linha de raciocínio, podemos ampliar o significado da palavra fazenda: em um primeiro momento, remete-nos ao significado de terra, posse, mas a palavra fazenda também significa tecido. Dessa maneira, o autor constrói o sentido no texto por meio de palavras do mesmo campo semântico (fique atento em suas leituras a esse dado!)
 
 
Por fim, o leitor, talvez, estranhe que nenhum verso começa com a letra inicial maiúscula, tão comum nos mais diversos autores. Deve fazer a pergunta: isso pode apresentar alguma relação com a interpretação do poema? Sim, se a resposta for coerente com a interpretação feita até agora. Se interpretamos que o poema apresenta uma situação de prisão para o negro após a carta de alforria, as letras iniciais minúsculas podem representar a situação de inferioridade sentida pelo negro. Enfim, há, no poema de Adão Ventura, uma crítica poética ao fato de que a carta de alforria não representou a liberdade para o negro.
 
 
Fique atento a todos os detalhes do texto. Leia várias vezes o poema e vá dando forma ao entendimento do texto. Além disso, procure ampliar o vocabulário. Mãos à obra!
 
 

Em Resumo

As figuras de linguagem estudadas no tópico anterior e neste fazem parte de um grande universo de recursos indispensáveis à interpretação de textos, especialmente aqueles em que os aspectos conotativos são predominantes. Neste tópico, você revisou, também, algumas dicas para uma boa interpretação de poemas, gênero textual muito presente nos concursos. Você viu como é importante fazer uma leitura inicial de reconhecimento e depois partir para uma leitura aprofundada, reconhecendo as figuras de linguagem, buscando as palavras de mesmo campo semântico e interpretando os sentidos do texto. Agora, é exercitar nas questões abaixo e também nos mais diversos textos que encontrar.
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