Texto: Arcadismo Europeu x Arcadismo Brasileiro e Principais Autores

Arcadismo Europeu x Arcadismo Brasileiro e Principais Autores

Apontaremos, agora, as marcas do Arcadismo Europeu e as do Arcadismo brasileiro. 

 

O Arcadismo Europeu

As transformações acontecidas na Europa, sobretudo na França, agitaram a segunda metade do século XVIII. Esse foi um momento de fundamental importância para o campo ideológico, pois foi quando se instalou o pensamento enciclopédico de D’Alembert, Diderot e Voltaire, com a elaboração da Enciclopédia. O Iluminismo francês impregnou o mundo de razão, ciência e progresso. 

Em Portugal, mesmo com uma herança tradicional e medieval, os artistas conseguiram acompanhar as mudanças em acontecimento. O Arcadismo instaura-se em Portugal graças ao incentivo de D. João V a Luís Antônio Verney, de antecedência francesa, em estudar na Universidade de Évora, permanecendo na Itália após sua graduação a fim de realizar mais cursos de aperfeiçoamento. Em 1746, Verney publica a obra Verdadeiro Método de Estudar, sugerindo profundas mudanças no ensino superior português, todas elas de cunho iluminista. Eis a inserção do pensamento iluminista em terras lusitanas. Com Verney, entra em crise o ensino religioso e medieval até então presente em Portugal. A partir de 1795, então, a Universidade, com a expulsão dos jesuítas, toma uma formatação laica, rompendo a marcante influência espanhola de até então. Esse universo, agora regido pela razão, voltará a ser influenciado pelos moldes clássicos, agora, o Neoclassicismo. Assim, as teorias postas por Aristóteles, Horácio e Quintiliano, por exemplo, serão a base da obra de arte desse momento. 

Em 1756, similar à Arcádia Romana, fundada em 1690, é fundada, em Portugal, a Arcádia Lusitana, iniciada por Antônio Dinis da Cruz e Silva, Manuel Nicolau Esteves Negrão e Teotônio Gomes de Carvalho. Para Massaud Moisés (2001, p. 98):

 

Símbolo da Arcádia Lusitana – a frase Latina sugere que se Corte as Inutilidades, Atitude Tipicamente Arcádica

Fácil é compreender que a revalorização do estilo de vida preconizado pelos antigos vai dar azo ao cultivo duma poesia de pose, artificial, demasiado literária, porque em flagrante contraste com o clima histórico-cultural duma época em que ao desenvolvimento das ciências se acrescenta um franco progresso urbano por via da industrialização, para apenas inferir dois aspectos importantes do século XVIII europeu. Constitui uma forma de exílio voluntário, uma vida em ‘torre de marfim’, ideologicamente reacionária, idêntica à de outros homens em condições semelhantes, no século XVI e na Antiguidade, ao fugirem para as ‘vilas’ nos arredores das grandes cidades, por aborrecê-las e julgá-las imagem da decadência e devassidão.

Por outro lado, as características da estética arcádica dizem respeito exclusivamente à poesia: quando se fala em Arcadismo no sentido de um corpo de doutrina literária da segunda metade do século XVIII, está-se pensando apenas em poetas, e em grande profusão. É certo que se cultiva muita prosa (histórica, filosófica, científica, pedagógica, etc), mas fora dos quadros doutrinários rigorosamente arcádicos

Assim, a obra desse momento será marcada pelo equilíbrio, vocabulário fácil, períodos simples e diretos, sem o excesso de figuras de linguagem, cortando tudo o que fosse inútil e exagerado, bem como bucólicos e repletos de uma busca de aproveitar o dia, o carpe diem. O Arcadismo português estende-se até 1825 com a publicação do poema intitulado “Camões”, de Almeida Garrett, marcando o início do Romantismo português. Agora, passaremos para um breve passeio pela história do Arcadismo no Brasil.

Manuel Maria Barbosa du Bocage foi um dos grandes representantes da poesia árcade portuguesa. O poeta teve uma vida bastante conturbada e, após alguns anos de estudo, dedicou-se à boemia, frequentando os bares portugueses. Foi convidado para ingressar à Arcádia lusitana, em que adotou o pseudônimo de Elmano Sadino, um anagrama de Manuel. Quanto ao sobrenome, era uma referência ao rio Sado, que banhava a cidade natal do poeta: Setubal. Adotar pseudônimos seguindo essa perspectiva era uma prática entre os árcades. Com a publicação de seu primeiro volume de Rimas, já se tornou conhecido, em razão da qualidade da poesia satírica e lírica elaborada. Observe: 

 

Fiei-me nos sorrisos da ventura,

Em mimos feminis, como fui louco! 

Vi raiar o prazer; porém tão pouco 

Momentâneo relâmpago não dura: 

 

No meio agora desta selva escura, 

Dentro deste penedo húmido e ouco, 

Pareço, até no tom lúgubre, e rouco 

Triste sombra a carpir na sepultura:

 

Que estância para mim tão própria é esta! 

Causais-me um doce, e fúnebre transporte, 

Áridos matos, lôbrega floresta! 

 

Ah! não me roubou tudo a negra sorte: 

Inda tenho este abrigo, inda me resta 

O pranto, a queixa, a solidão e a morte.

 

O poema acima é um exemplo da lírica elaborada pelo poeta. Seguindo os padrões clássicos (soneto em decassílabos, com esquema rítmico ABBA, CDC e DCD), o poema apresenta outras características neoclássicas, como a personificação de sentimentos (Ventura e Sorte). Mesmo assim, o autor ainda é visto como um pré-romântico, graças à temática abordada: o amor é visto mediante a proposição do destino, do fado em que é obrigado a viver. Essas são razões para dizer que o poeta divulga a estrutura clássica herdada por Camões, mas, também, antecipa o extravasar de sentimentos, que será uma marca do Romantismo.

 

O Arcadismo Brasileiro e Principais Autores

A cidade de Vila Rica, atual Outro Preto, em Minas Gerais, foi o palco dos acontecimentos que possibilitaram a realização do Arcadismo brasileiro. A cidade assistiu ao ciclo da mineração, à inconfidência mineira, bem como à produção dos poetas árcades. O Arcadismo brasileiro tem início em 1678 com a publicação das obras poéticas de Cláudio Manuel da Costa, findando em 1836 mediante a publicação de suspiros poéticos e saudades de Gonçalves de Magalhães, iniciando o Romantismo.

 

Você Sabia?

Aleijadinho, escultor barroco, foi um contemporâneo do Arcadismo brasileiro. Como isso é possível? Isso acontece pois o Barroco brasileiro realiza-se de duas maneiras: a primeira, no nordeste e a segunda, em Minas Gerais, chamado de Barroco tardio, desenvolvido simultaneamente ao Arcadismo realizado na região das minas. 

 

Aleijadinho, escultor barroco, foi um contemporâneo do Arcadismo brasileiro. Como isso é possível? Isso acontece pois o Barroco brasileiro realiza-se de duas maneiras: a primeira, no nordeste e a segunda, em Minas Gerais, chamado de Barroco tardio, desenvolvido simultaneamente ao Arcadismo realizado na região das minas. 

No Brasil, os principais autores são: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Basílio da Gama e Santa Rita Durão. Esses poetas escreveram os mais variados gêneros, no entanto, o movimento é marcado pela escritura da poesia lírica, satírica e épica. 

Joel Profeta, escultura feita por Aleijadinho 

 

A preferência pelo estilo racional, claro, regular e verossímil praticado no Classicismo e, em sua quase totalidade, ambientado na natureza, revela a busca de valores que remontam necessidades humanas de afirmação de suas potencialidades. A razão era considerada como a fonte de todo o bem. Portanto, nessa época, difundia-se o pensamento de que o excesso de ornamentação existente no Barroco constituía-se como algo desnecessário; em contraposição, o inutilia truncat, divulgado pelos árcades, representava um princípio estético que tinha por objetivo “mutilar as inutilidades”, o supérfluo. 

O carpe diem, enquanto elemento composicional vinculado ao tema da “busca da felicidade”, permanece como lastro ou fio condutor dos poetas árcades. No entanto, essa temática é perpassada pela utopia do gozo intenso, da plenitude. Desejar viver o “dia de hoje”, sem preocupações com o por vir, constitui uma marca dos poemas líricos da época. Além disso, é visível a caracterização do espaço poético como um lugar ameno para se viver, aprazível, em que a natureza compõe o cenário ideal para o amor dos pastores – daí lócus amoenus. No entanto, o encontro desse lugar idealizado não acontecerá em meio às cidades europeias ou às nascentes das cidades brasileiras: a Arcádia, lugar em que os pastores viverão o mais terno idílio, é esse lócus amoenus, somente elaborado a partir do “escape” para o campo, no intuito de fugir da cidade, logo fugere urbem. A amada é bela, boa e modesta, conforme os princípios do aurea mediocritas.

 

Saiba Mais! 

A Inconfidência Mineira ilustrou o Arcadismo brasileiro. A opressão administrativa portuguesa, o declínio da produção do ouro nas Minas Gerais e o conhecimento dos ideais liberais de Rosseau, Montesquieu, John Locke, bem como o conhecimento no Brasil da revolução da América do Norte foram fatores determinantes para o fomento da Inconfidência Mineira. Dentre seus principais integrantes, delatados por Joaquim Silvério dos Reis em troca do perdão de suas dívidas, encontravam-se os poetas Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, o padre Carlos Correia de Toledo e o alferes Tiradentes, um dos poucos participantes de origem popular dessa rebelião. Tiradentes assumiu a liderança do movimento e foi condenado à forca em praça pública. Os demais, a exemplo de Tomás Antônio Gonzaga, sofreram a pena do exílio. Seu exílio na África é evidenciado na obra Marília de Dirceu.

 

Nota-se que essa forma de elaboração do pensamento dos poetas árcades encontrava-se intimamente vinculada – e submetida – ao pensamento clássico, a fim de justificar suas utopias, seus valores, sua poética e sua linguagem. Entretanto, procedendo a uma análise das obras literárias, da tradição à contemporaneidade, pode-se claramente notar a pungente necessidade humana de buscar essa visão utópica de felicidade. A título de exemplificação, veja-se, no texto abaixo, algumas elaborações poéticas das questões apontadas.               

          

Lira 21

 

(I) Não sei, Marília, que tenho,

Depois que vi o teu rosto;

Pois quanto não é Marília,

Já não posso ver com gosto.

Noutra idade me alegrava,

Até quando conversava

Com o mais rude vaqueiro:

Hoje, ó Bela, me aborrece

Inda o trato lisonjeiro

Do mais discreto pastor

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de Amor? 

 

(II) Saio da minha cabana

Sem reparar no que faço:

Busco o sítio aonde moras,

Suspendo defronte o passo.

Fito os olhos na janela,

Aonde, Marília bela,

Tu chegas ao fim do dia;

Se alguém passa, e te saúda,

Bem que seja cortesia,

Se acende na face a cor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão os efeitos de Amor?

 

(III) Se estou, Marília, contigo, 

Não tenho um leve cuidado: 

Nem me lembra se são horas

De levar à fonte o gado.

Se vivo de ti distante,

Ao minuto, ao breve instante

Finge um dia o meu desgosto;

Jamais, pastora, te vejo

Que em teu semblante composto

Não veja graça maior.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de amor? 

 

(IV) Ando já com o juízo,

Marília, tão perturbado,

Que no mesmo aberto sulco

Meto de novo o arado.

Aqui no centeio pego,

Noutra parte em vão o sego:

Se alguém comigo conversa,

Ou não respondo, ou respondo

Noutra coisa tão diversa,

Que nexo não tem menor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão os efeitos de Amor?

 

(V) Se geme o bufo agoureiro,

Só Marília me desvela,

Enche-se o peito de mágoa,

E não sei a causa dela.

Mal durmo, Marília, sonho

Que fero leão medonho

Te devora nos meus braços:

Gela-se o sangue nas veias,

E solto do sono os laços

À força da imensa dor.

Ah! que os efeitos, que sinto,

Só são efeitos de Amor. 

(GONZAGA, 1997, p.36-37).    

 

A poesia árcade relaciona-se com o mundo real por meio de um processo de imitação, procurando as formas que dele se tomam e são repensadas. Esse fato justifica a percepção utópica do poeta árcade. Nessas liras de Gonzaga, a imagem de Marília é elaborada como se esta fosse a pastora e a silenciosa ouvinte das intempéries que atormentam o eu lírico; interlocutora dos desejos, dos planos de casamento (não concretizado), do convite ao passeio no campo, sendo, dessa maneira, estilisticamente apropriada para o gosto da época.

Nessa lira, Dirceu usa de recursos retóricos para confessar a paixão sentida: na primeira estrofe, evidencia-se a angústia do poeta para entender os próprios sentimentos decorridos do encontro com a personagem; na segunda estrofe, relata o sentimento de ciúmes que possui ao ver Marília passar e outra pessoa fazer-lhe a corte do dia; na terceira mostra o prazer em estar na companhia da pastora, bem como as perturbações ocasionadas pela paixão evidentes na quarta estrofe; entretanto, a confirmação desse sentimento acontece na quinta e última estrofe, a partir da resposta aos questionamentos realizados em face do processo poético-retórico, percebido nos dois últimos versos “(...) Ah! Que os efeitos que sinto/Só são efeitos de Amor!”.

 

Considerando os aspectos levantados, a lira traz à tona características marcantes do Arcadismo: a razão mostra a natureza como o lugar de vivência das experiências aprazíveis, suprimindo a necessidade do rebuscamento próprio do Barroco (inutilia truncat); seguindo esse pressuposto, o lócus amoenus é o lugar em que se concretiza o idílio entre Marília e Dirceu de maneira efetiva como se pode notar em “(...) Se estou, Marília, contigo, /Não tenho um leve cuidado: Nem me lembra se são horas/De levar à fonte o gado (...)”. O mesmo fragmento leva-nos a perceber o fulgere urbem, pois é se ausentando da cidade que o eu lírico mostra a felicidade amena “medíocre” advinda de sua instalação no campo, ou seja, aurea mediocritas. Essas características resultam no encontro do eu lírico com o entendimento do supremo amor e, consequentemente, na vivência de uma felicidade advinda do cotidiano, o carpe diem. 

 

Em Resumo

O Arcadismo foi um movimento de rebeldia contra os exageros do Barroco. O Arcadismo remete-nos a uma região do Peloponeso, bastante montanhosa, onde vive Apolo, deus da inspiração poética, suas musas, bem como pastores e pastoras. Quanto ao Neoclassicismo, corresponde a uma revisitação dos moldes clássicos, em voga durante o Renascimento. No que concerne ao contexto histórico europeu, esse momento é influenciado pelo Iluminismo e, portanto, pelo culto à razão. Esse também é o momento em que inicia o desenvolvimento da burguesia e de seu crescimento econômico. Em Portugal, a Arcádia Lusitana foi fundada em 1690, findando em 1825. Seu principal representante foi Bocage.  O Arcadismo no Brasil possui as mesmas características que aquele expresso na Europa, haja vista obedecer à regra de imitação dos clássicos greco-latinos. No entanto, devemos sublinhar que os poetas relacionados a essa representação estética estarão envolvidos no processo da Inconfidência Mineira, pois eram homens cultos, ilustrados, que organizarão um movimento contra a Coroa Portuguesa. 

 

Referências

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1983.

MOISÉS, Massaud.      literatura portuguesa. 31. ed. São Paulo: Cultrix, 2001. 

Já é cadastrado? Faça o Login!