Texto: Brasil: Golpe (ou Revolução) de 1930

Brasil: Golpe (ou Revolução) de 1930

N o inicio da década de 1920, tendo sufocado a revolta dos 18 do Forte de Copacabana , Arthur Bernardes assumiu a presidência e manteve a nação sob estado de sítio durante praticamente todo o governo. Tratava-se de uma forma de combater seus opositores. Não foi uma medida eficiente. No segundo aniversário da revolta dos 18, em 1924, houve um novo movimento articulado nos estados de São Paulo, Sergipe e Amazonas para derrubar o governo. Amazonenses e sergipanos sucumbiram logo no início do movimento. Entretanto, em São Paulo, foi necessária uma carga de esforços bem maior. 
 

 

Sob o comando de Isidoro Dias Lopes, notável militar do exército brasileiro, vários combates foram travados, levando o presidente Arthur Bernardes a fugir, deixando o governo susceptível à tomada de poder. Porém, num esforço para conter a onda golpista, o governo federal determinou um ataque em massa à cidade, inclusive com o uso de bombardeiros aéreos. O desespero e o caos tomaram conta da população, com vários saques ao comércio, sobretudo de alimentos. Com a cidade destruída e cercada e as forças golpistas agonizando, o governo rejeitou a proposta de anistia e os rebelados foram forçados a fugir em direção à fronteira com a Argentina e o Paraguai. 

 

Em 1924, vários quartéis do Rio Grande do Sul iniciaram uma rebelião, sendo os revoltosos liderados por Luís Carlos Prestes e João Alberto. Em marcha, juntaram-se aos revoltosos paulistas, liderados por Miguel Costa, acampados em Foz do Iguaçu. Os líderes dos dois grupos, Prestes e Costa, iniciaram, juntos, um dos movimentos mais importantes da história nacional no século XX: a Coluna Miguel Costa Prestes. Em 1925, enquanto parte dos revoltosos optava por se exilar nos países vizinhos, outros resolviam percorrer o interior do país, incentivando a revolta popular contra o governo federal. 

 

O propósito da Coluna era conscientizar a população rural de que eles estavam sendo explorados pelos coronéis, bem como sensibilizar as pessoas das cidades para aderirem ao movimento, aumentando a expressão do movimento popular. Ingressando do Paraguai, as tropas revolucionárias iniciaram sua marcha pelo Mato Grosso. Ao longo de dois anos, foram percorridos 25 mil quilômetros, passando por 11 estados. Com cerca de 1.500 homens, são creditados aos revoltosos inúmeros atos de heroísmo. Evitando confrontos diretos e com rápidos deslocamentos, a Coluna jamais foi derrotada nos confrontos contra as forças federais. 

 

Líderes da Coluna 

 

Desgastadas pelos sucessivos confrontos, as tropas da Coluna se dividiram em 1937, marchando para o Paraguai e para a Bolívia. O legado do movimento (que não teve êxito se levarmos em consideração o seu propósito) foi fragilizar as oligarquias rurais que comandavam o país. O movimento teve grande repercussão, até mesmo internacional, influenciando, por exemplo, o episódio conhecido como a Longa Marcha na China. 

 

Os líderes do movimento tiveram destinos distintos. Enquanto a maioria ocuparia cargos no governo, principalmente após a revolução (ou o golpe) de 1930, Luís Carlos Prestes tornou-se um dos principais líderes e difusores do comunismo no Brasil. 

 

O prédio da antiga estação ferroviária de Santo Ângelo sedia o Memorial Coluna Prestes

 

A Depressão de 1929 e a Crise da República Velha

O descontentamento com a estrutura política oligárquica no Brasil não era exclusividade das classes subalternas da população urbana, ou dos militares de baixa patente. Até mesmo no interior das classes agrárias havia opositores à forma como o poder era conduzido no país. Houve, por exemplo, cisões que culminaram na formação do Partido Democrático (PD), uma das várias nomenclaturas que defendiam interesses de parte do setor agrário nacional. Esta agremiação foi criada em São Paulo, em 1926, formada pela dissidência de cafeicultores e industriais descontentes com o Partido Republicano Paulista (PRP). Nos anos seguintes, o partido conquistou grande quantidade de simpatizantes e filiados, sobretudo de setores da classe média paulistana e de outros setores sociais descontentes nos demais estados. 

 

Em 1929, o Brasil era governado pelo paulista Washington Luís, cujo governo tinha a imagem associada à modernidade, por sua ligação com as artes, o esporte, e as políticas urbanas e econômicas implementadas no período. No entanto, tal imagem não era condizente com sua postura do governo. Mesmo colocando fim ao estado de sítio decretado por Arthur Bernardes, o presidente adotou uma série de medidas que dificultaram o avanço de seus opositores. Além de limitar a liberdade de imprensa, ele tornou o Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 1922, ilegal e manteve seus integrantes sob constante vigilância e ameaça de prisão. Para continuar sua atuação pública, a agremiação adotou o Bloco Operário e Camponês (BOC), como agremiação legalizada do partido. 

 

O cenário econômico também não era promissor. A Grande Depressão Econômica de 1929 inviabilizou a reforma financeira iniciada por Washington Luís, com o intuito de sustentar a moeda brasileira. Os primeiros indicativos da crise no Brasil se manifestaram no comércio de café. Como os Estados Unidos eram um dos principais compradores do café brasileiro, com a suspensão das compras, motivada pelo impacto econômico da crise de 1929, as exportações das safras brasileiras caíram drasticamente, levando a uma queda brutal no preço do produto. O governo, fragilizado pela crise, pouco pôde fazer para conter os seus efeitos. 

 

Contrariando as expectativas de muitos, que acreditavam tratar-se de uma crise momentânea e que em pouco tempo o mercado se aqueceria novamente, a depressão internacional ganhou proporções inéditas, arruinando as economias da maioria dos países capitalistas, e se estendendo por um longo período. Muitos empreendedores, envolvidos sobretudo com o comércio do café, foram levados à falência. A insatisfação fez com que os principais aliados do governo federal, os cafeicultores, mudassem de base e atuassem na oposição. 

 

Durante a crise, houve o processo de sucessão presidencial. Conforme os acordos políticos organizados no início da república (o pacto do café-com-leite, que previa o revezamento na presidência de representantes das oligarquias paulista e mineira), esperava-se que o próximo candidato eleito fosse um integrante do Partido Republicano Mineiro (PRM): Antônio Carlos, presidente do estado de Minas Gerais. Os membros do PRP, porém, insistiram na escolha de Júlio Prestes, outro paulista, que então governava o estado. Com isso, as elites mineiras romperam o antigo acordo e passaram para o lado da oposição. 

 

A união dos setores descontentes fez surgir a Aliança Liberal, frente política que lançou como candidato à Presidência da República o governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro da Fazenda de Washington Luís, Getúlio Vargas. O candidato a vice foi o político paraibano João Pessoa. Como o governo possuía uma máquina eleitoral notavelmente superior, a estratégia da Aliança Liberal foi pressionar as elites paulistas no poder. 

 

A pauta da Aliança Liberal trazia reivindicações dos setores médios urbanos. Dentre elas, buscava-se a diversificação das atividades econômicas (até então pautadas majoritariamente nas atividades rurais), com incentivo à indústria, elaboração de uma legislação para intermediar as relações entre patrões e empregados e uma medida para superar a crise da produção do café. 

 

Logo, a Aliança Liberal foi uma coalizão de várias forças sociais: parte das elites agrárias, industriais, tenentes e alguns políticos influentes afastados do poder, como o presidente de Minas Gerais. Tratava-se de forças divergentes que se uniram para sustentar a candidatura de Getúlio Vargas. 

 

Saiba Mais!

 

Bloco Operário Camponês (BOC) foi um movimento composto por trabalhadores – urbanos e rurais – que almejavam ascender politicamente através de vitórias nas eleições. O bloco foi lançado pelo PCB em 01/02/1928.

 

Ao centro Getúlio Vargas.

 

O Golpe

Como foi previsto, o candidato paulista, Júlio Prestes, sagrou-se vencedor nas eleições. Num primeiro momento, a oposição reconheceu a derrota, e parte considerável da coalizão buscou estreitar os laços com o novo governo eleito, buscando manter um espaço político e permanecer gozando dos benefícios do poder. Parte significativa dos setores que participaram da Aliança, sobretudo os setores da classe média e os militares, permaneceu descontente com o resultado da eleição. 

 

A agitação criada pelas eleições fez crescer o sentimento de que só um golpe levaria a Aliança ao poder. Era necessário, no entanto, um evento circunstancial que justificasse o golpe armado, para angariar o apoio da população, impedindo uma revolução social. Em outras palavras, tratava-se de empreender um movimento controlado pelas elites descontentes. 

 

A ocasião propícia para o estouro do golpe se deu pouco antes da posse do presidente eleito. O candidato a vice-presidente da Aliança Liberal, João Pessoa, foi vítima de assassinato em julho de 1930, na Paraíba. O motivo do crime estava ligado a questões pessoais. No entanto, foi vinculada a esse acontecimento a ideia de que havia ocorrido um crime político, tramado pelas forças governistas. Essa manobra fez com que a população passasse a protestar contra o governo recém-eleito. O cenário para a eclosão do golpe estava montado. 

 

Em outubro de 1930, tropas rebeldes marcharam com o intuito de derrubar o governo. Houve combates em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. Do Sul do país, local com maior número de militares rebelados, partiram as tropas para tomar a capital federal. No caminho, atravessaram o estado de São Paulo. A oligarquia paulista avaliou que o confronto armado para garantir a posse de Júlio Prestes era um esforço inútil. No dia 24 de outubro, vários oficiais aderiram ao movimento e depuseram Washington Luís. Com o caminho aberto, os militares gaúchos marcharam até o Rio de Janeiro e garantiram a posse de Getúlio Vargas, pondo fim à República Oligárquica. 

 

Encerrava, então, o período da República Velha Brasileira, onde as oligarquias determinavam as diretrizes a serem adotadas pelo país. Através do Golpe ou Revolução de 1930, Getúlio Vargas chegava à presidência da República e tentaria pôr fim ao coronelismo do café-com-leite.

 

Em Resumo

Neste tópico vimos:

 

  • Insurgência militar ocorrida em 1924 contra a estrutura política brasileira comandada pela oligarquia cafeeira.
 
  • Efeitos da Grande Depressão de 1929 que colaboraram para o fim da República Velha e para a articulação do golpe militar que levaria Getúlio Vargas ao poder, em 1930.
 
  • Discussão sobre as causas e as ações que deram origem ao governo golpista do gaúcho Getúlio Vargas.

 

Referências

PESAVENTO, Sandra Jatay. O Brasil Contemporâneo. Porto Alegre: Ed. Da Universidade/UFRGS, 1994.

LOPEZ, Luis Roberto. História do Brasil Contemporâneo. Porto Alegre: Ed. Mercado Aberto, 1987.

MENDONÇA, Sônia Regina de. Estado e Sociedade: a consolidação da república oligárquica. In: LINHARES, Maria YUedda L. (Coord.). História Geral do Brasil: da colonização portuguesa à modernização autoritária. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1990.

NEVES, Anderson R. Revolução de 30: memória e esquecimento. Revista Ágora. P.102-108. Junho de 2012.

 
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